‘A curiosidade continua sendo o ponto’

junho 17, 2026

Julia Mendes, fenômeno na internet, estreia na literatura e fala sobre o vulto alcançado pelos influenciadores nos dias de hoje

“Ser influenciadora é uma responsabilidade muito grande”. A frase poderia até soar batida, mas não em se tratando de Julia Mendes. Atriz por formação, ela viu nas redes sociais um campo para ampliar sua voz para além dos palcos e da TV. A investida funcionou. A conta “Juju conta tudo” amealha hoje mais de 500 mil seguidores. Juliana prepara-se agora para pisar um novo terreno: o da literatura.

A atriz faz sua estreia no segmento com “Juju me conta tudo” (Rocco), no qual reúne algumas das pensatas que motivaram os vídeos postados por ela na internet. Às voltas com os preparativos para o lançamento, nesta quinta (18), na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Rio de Janeiro, a autora abriu uma brecha para falar com NEW MAG sobre temas relacionados às telas, dos prazeres aos excessos.

— Não acredito que seja possível voltar a uma vida totalmente analógica. As telas fazem parte da nossa realidade e tudo indica que continuarão fazendo cada vez mais. O que eu acredito é que precisamos resgatar espaços de vida fora delas. E é justamente esse contraponto que proponho no livro – comenta a atriz, que acredita ser possível encontrar um equilíbrio entre os mundos analógico e tecnológico: — Não se trata de abandonar a tecnologia, mas de encontrar um equilíbrio entre o mundo digital e aquilo que continua sendo essencialmente humano: os encontros, as conversas, os afetos, os momentos de presença. É um equilíbrio difícil, mas cada vez mais necessário para a nossa saúde mental.

Vivemos a febre dos influenciadores e isso é um fato. Essa escalada acontece concomitantemente a outro crescimento: o dos diagnósticos relacionados a transtornos como ansiedade e angústia. A influenciadora corrobora a questão chamando atenção para duas vertentes: a da geração de conteúdo e outra, voltada a mostrar que se está de fato presente naquele segmento.

— Essa é uma das grandes contradições do nosso tempo. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, nunca falamos tanto sobre ansiedade, angústia, esgotamento e burnout. Vivemos numa época em que existe uma pressão constante não apenas para produzir, mas também para mostrar que estamos produzindo. E isso tem um custo emocional muito alto – avalia a escritora.

E qual a qualidade deste conteúdo? A pergunta faz-se pertinente uma vez que muito do que é explorado baseia-se em impressões meramente pessoais. Ou, em muitos casos, em opiniões fundamentadas no bom e velho.. achismo.

— Acredito que experiências pessoais têm valor, mas não são verdades universais. O que procuro compartilhar são as minhas reflexões, as minhas vivências e os meus questionamentos, sempre lembrando que cada pessoa tem uma realidade, uma rotina e possibilidades diferentes. Não gosto de ocupar o lugar de quem diz aos outros como devem viver – pontua a atriz e influenciadora destacando ainda: — No meu caso, tudo aconteceu de forma bastante orgânica, mas desde o início eu procurei ter consciência do impacto que as minhas falas podem ter na vida das pessoas.

Não à toa, o termo “ditadura de certezas” anda muito em voga quando se trata da ação dos influenciadores na vida dos usuários. Julia tem consciência disso e aponta para a busca pelo pensamento crítico como um dos vetores do seu trabalho:

— Hoje encontramos uma quantidade enorme de pessoas dando conselhos, prescrevendo comportamentos e apresentando opiniões como verdades absolutas, muitas vezes sem a formação ou a responsabilidade necessárias para isso. Eu procuro fazer o caminho oposto: incentivar o pensamento crítico, a reflexão e o questionamento.

Os influenciadores vão, aos poucos, estendendo suas vozes a outros terrenos, que vão da colaboração como articulistas a jornais à aparições na TV. Um dos episódios mais comentados recentemente é o da participação da influenciadora Virgínia Fonseca como repórter na Copa do Mundo. Indagara se os influenciadores são os cronistas do agora, Julia chama atenção para o fato de ambos os trabalhos estarem pautados na observação, como ela explica:

—  Os influenciadores acabaram se tornando observadores do cotidiano em tempo real. A diferença é que o cronista escrevia para um jornal, e o influenciador conversa diretamente com milhares de pessoas todos os dias. Mas acredito que a essência continua sendo a mesma: observar comportamentos, provocar reflexões e contar histórias sobre o nosso tempo. O formato mudou, mas a curiosidade sobre o ser humano continua sendo o ponto de partida.

E, para fecharmos, que tal fazer jus à proposta trazida pela autora na rede social? Então, Juju, sem titubear: conte-nos tudo…

— A maior novidade neste momento (risos) é justamente o lançamento do meu primeiro livro. Ele nasceu da vontade de transformar anos de conversas nas redes em reflexões mais profundas sobre amor, autoestima, relações e os desafios de viver em um mundo hiperconectado. É um projeto muito especial para mim e que marca um novo capítulo da minha trajetória – arremata ela.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Nanda Araújo (imagem)

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