Na longa estrada que trilhou, da periferia de Niterói, no Rio de Janeiro, para o Congresso Nacional, Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) se tornou uma das pedras mais incômodas no sapato da extrema-direita. Reeleito deputado federal com 77.584 votos, é um dos pilares da luta que ele mesmo sempre define como “uma grande batalha histórica contra o avanço do fascismo”. Muitas vezes atacado na Câmara por demais parlamentares, Henrique Vieira não se curva e, amparado pelo apoio popular e por sua fé em Deus, já se prepara para reassumir seu posto em Brasília e continuar atuando em prol das minorias e contra o uso da fé cristã como ferramenta de intolerância. “O Brasil de hoje é um país numa situação de decisão: se vai radicalizar na democracia, especialmente para partilhar os bens da terra, para promover justiça social e econômica e para respeitar a diversidade ou ele, infelizmente, vai para um caminho totalitário, autoritário, obscurantista, bélico, hiperindividualista e violento”, explica o deputado e vice-líder do Governo na Câmara, nesta entrevista ao NEW MAG.
O segundo mandamento diz “não usar o nome de Deus em vão”. O senhor acha que tem havido um exagero no uso do nome de Deus entre os políticos?
Eu acredito, sim, que no Brasil de hoje exista a quebra desse segundo mandamento que é não usar o nome de Deus em vão, especialmente pela extrema-direita. É como se Deus fosse um capital político eleitoral, usado para justificar uma determinada agenda política e blindar pessoas e atitudes. Eu lamento profundamente porque Deus, na perspectiva que eu creio, do Evangelho, é para a gente amar e ter como fruto o amor ao próximo. É muito menos sobre falar e muito mais sobre viver.
Como vê o poder da Igreja na política brasileira? No novo mandato essa vai seguir sendo uma de suas lutas?
Eu vou continuar lutando neste novo mandato pelo estado laico, respeito à diversidade. Para que a Igreja não tenha privilégio institucional e seja respeitada em sua autonomia e, portanto, para que não haja partidarização da Igreja e o Estado não seja confessionalizado. Essa é uma luta minha porque o fundamentalismo religioso quebra essa lógica da autonomia da Igreja e do Estado laico e acaba sendo antidemocrático.
É um desafio ser pastor e deputado federal de esquerda?
É um desafio. Eu sou minoria na Câmara dos Deputados, no Congresso Nacional. Enfrento toda essa lógica do fundamentalismo religioso, mas aos poucos eu vou avançando. E a própria esquerda também vai entendendo a importância de, a partir do repertório da fé, dialogar com a fé do povo. Uma esquerda que se pretende popular, jamais pode ser antirreligiosa, ela precisa ter canais de diálogo, com muito respeito, com a religiosidade e com a fé, que é uma característica de grande parte da classe trabalhadora brasileira, especialmente a fé cristã. Então eu vou me colocando nesta trincheira.
E como os demais pastores da sua Igreja veem seu posicionamento?
Eu sou um dos fundadores da Igreja Batista do Caminho, mas eu não faço mais parte da equipe pastoral. Preferi me licenciar desta função para o exercício do meu mandato. Eu acho que é uma forma de reforçar o respeito à Igreja, ao púlpito, à liberdade de consciência, de expressão e do voto de cada irmão e cada irmã. Óbvio que a pastoral está sempre na minha vida porque é uma vocação. E a pastoral tem a ver com amar, cuidar, servir, proclamar o Evangelho, anunciar Jesus sempre comprometido com os povos pobres. Esta prática pastoral é constitutiva da minha vida e dela não abro mão. Mas a função pastoral no contexto eclesiástico, no contexto da Igreja local é algo que realmente eu me licenciei até para o exercício do meu mandato de forma mais ética.
Já sofreu ataques no plenário?
Já fui atacado muitas vezes na Câmara, especialmente pela extrema-direita por não respeitarem a minha fé e por acreditarem que, por eu ser de esquerda, não poderia ser cristão, não poderia ser pastor. Já recebi muitos ataques baixos, rasteiros e até violentos em termos de linguagem por parte da extrema-direita.
O que te motivou a entrar na vida política?
Entrei na vida política na minha adolescência porque política para mim não é necessariamente mandato e eleição. Política é me organizar coletivamente para atuar na sociedade e transformá-la. Então o que me motivou foi, por um lado o amor que sinto e tenho pela vida, e pelas pessoas e a consciência que a nossa sociedade é injusta. Nossa sociedade é estruturalmente desigual e violenta. E por isso eu decidi me organizar politicamente. A política é uma forma de me organizar, de intervir na realidade a partir do amor que tenho pela vida e pelas pessoas. Como disse o papa Francisco, acho que foi ele, a política é uma forma de amor, de exercício do amor, da caridade, da generosidade e da solidariedade, da busca pelo bem do outro e da busca pelo bem comum. E por isso eu entrei na política.
O senhor sempre fala em liberdade da fé. Explique, por favor, esse conceito.
Liberdade da fé é liberdade para crer, para expressar a fé sem constrangimento, sem intimidação do Estado ou até mesmo de uma liderança religiosa. Eu acho que a liberdade da fé tem a ver com essa autonomia de cada indivíduo, essa liberdade para crer, pensar, refletir, agir, votar… e não uma liberdade autonomista, individualista, mas uma liberdade que também está amparada no encontro, no outro, na relação, na comunhão e no amor. A liberdade é melhor exercida com a sabedoria do amor reconhecendo os outros.
Quais as demais bandeiras que o senhor vai seguir levantando no novo mandato?
As bandeiras que vou levantar são bandeiras da minha vida, da minha militância. O combate à fome, a luta antirracista, a defesa do povo negro, a justiça social com a quebra de privilégios e o enfrentamento aos privilégios das elites econômicas e financeiras do Brasil; o compromisso com a cultura, especialmente a cultura popular, periférica, os direitos humanos, o enfrentamento a toda e qualquer forma de opressão e violência contra a vida e a dignidade humana e também o cuidado com a terra e o respeito à biodiversidade. São pautas do meu mandato porque são pautas da minha militância e porque são pautas da minha vida. E num momento de avanço da extrema-direita no mundo e no Brasil, meu mandato é ponta de lança no enfrentamento ao fascismo e de defesa da democracia.
O senhor também já atuou, é escritor, poeta, militante, pastor e deputado. Quantos Henriques Vieiras cabem em você?
Cabem muitos Henrique dentro de mim porque, na verdade, cada pessoa tem uma diversidade dentro dela que esse modelo capitalista nos enclausura, nos apequena, nos aprisiona, não nos permite. Mas dentro de cada pessoa existem múltiplas potencialidades e possibilidades. Eu sou mais uma pessoa assim e acho que ainda existem mais Henriques para eu descobrir.
Como enxerga o Brasil de hoje? O que mudaria em primeiro lugar?
O Brasil de hoje é um país numa situação de decisão: se vai radicalizar na democracia, especialmente para partilhar os bens da terra, para promover justiça social e econômica, para respeitar a diversidade ou ele, infelizmente, vai para um caminho totalitário, autoritário, obscurantista, bélico, hiperindividualista e violento. É um país gigante, plural, com um povo aguerrido e que está diante de uma crise histórica e que pode ter uma guinada popular e democrática, que é o que eu defendo, ou autoritária e violenta, que é a saída fascista da extrema-direita.
Hoje o senhor é o único pastor deputado federal. Pretende ser o primeiro Presidente da República pastor?
Não sei se quero ser Presidente da República, eu sei que quero servir ao meu povo e fazer da política um instrumento de transformação da realidade para o bem do povo. E onde eu estiver fazendo isso eu vou estar satisfeito e feliz. Que seja feita a vontade de Deus.
Créditos: Bianca Portugal (texto) e Reprodução/internet (imagem)





