Os bastidores da televisão brasileira também foram marcados pelas restrições impostas durante a ditadura militar. Em vídeo publicado em uma rede social nesta quinta-feira (22), José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, relembrou episódios de censura que enfrentou na TV Globo e relatou situações que, além de expor o controle sobre a produção artística, revelavam o caráter absurdo de algumas exigências do regime.
— Na época da ditadura, nós vivemos anos de chumbo, tortura, morte, exílio, o que você puder imaginar de pior, mas não deixa de ter o seu lado ridículo e que a gente pode explorar — afirma Boni, antes de contar histórias que atravessaram sua trajetória na televisão.
O executivo entrou na Globo em 1967 e permaneceu na emissora em cargos de liderança até 1997, passando pela direção-geral da Central Globo de Produções, pela superintendência de produção e programação e pela vice-presidência de Operações. Nesse período, acompanhou tanto os anos da ditadura, iniciada em 1964 e encerrada em 1985, quanto a retomada democrática no país.
Entre os casos lembrados está o da novela “O Bem-Amado”, quando Boni precisou passar a noite retirando dos diálogos a palavra “coronel”. Embora o termo se referisse a figuras tradicionais do interior do país, os censores implicaram com sua utilização. Segundo ele, a palavra precisou ser cortada 23 vezes. A situação contrastava com a abertura da própria novela, que trazia uma música de Vinicius de Moraes e Toquinho com referências a um barril de pólvora e um paiol — que ninguém ligava.
Nem mesmo Roberto Carlos escapou dos censores, segundo o executivo:
— Uma outra pérola dessas aconteceu no Natal, exatamente no especial do Roberto. Eles queriam que a gente tirasse uma cena onde as bailarinas estavam de pernas de fora e eles achavam aquilo extremamente perigoso.
Boni também resgatou uma história envolvendo Borjalo (1925-2004), cartunista e diretor que trabalhou por 36 anos na Globo e foi um de seus parceiros na construção do chamado padrão Globo de qualidade. Na ocasião, um censor reclamou dos filmes de terror e policiais exibidos após a meia-noite, embora não apontasse qualquer infração específica. Diante da insistência, Borjalo respondeu que a televisão tinha uma vantagem sobre o censor: contava com um botão que permitia desligá-la.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e Reprodução/ internet (imagem)





