‘A mediocridade atingiu um estágio inimaginável’

outubro 9, 2026

Rodrigo Fagundes brilha no teatro e na TV e celebra a parceria com Tatá Werneck, lamenta a perda da mãe para a covid e dá recado ao obscurantismo: “olha a faca!”

Olha a pauta! E ela envolve um cara que merece nosso aplauso – e muito. Trata-se de um ator que, vindo do teatro, ganhou projeção nacional através de um humorístico e hoje, aos 53 anos, mostra-se capaz também de nos emocionar. O artista em questão é Rodrigo Fagundes. Popularizado pelo Patrick, cujo bordão “Olha a faca!” repercute até hoje, Rodrigo faz jus a uma das máximas na qual acredita: a de que “comédia e tragédia estão de braços dados”. E ele dá provas disso com o Nico, seu personagem em “Quem ama cuida”, na qual é o grande amigo de Brigite, personagem de Tatá Werneck. Tal versatilidade é demonstrada também no palco. Rodrigo brilha em “O formigueiro”, comédia na qual divide a cena com Roberta Brisson, Lucas Drummond e Thiago Marinho, este também autor e diretor da montagem, cuja supervisão é de João Fonseca. “Quando o ator tem o teatro como base tudo funciona”, pontua ele. E tudo tem fluído bem na vida de Rodrigo, mas nem sempre foi assim. “Pensei em desistir muitas vezes”, reconhece ele nesta entrevista ao NEW MAG. A seguir, o ator celebra o encontro com Tatá na TV (“Ela é muito estudiosa”), a amizade com Betty Faria, de quem sua mãe era fã, e a parceria com o também ator Wendell Bendelack. A preocupação com o país também entrou na pauta. “Certas coisas não vão mudar na política”, lamenta. E que bom que há artistas que, por alguns momentos, nos fazem esquecer dessas mazelas. E Rodrigo Fagundes é um deles.

Você ficou mais sensível às doenças degenerativas em razão da preparação para O formigueiro?

Tive dois exemplos recentes na família que me levaram a ficar atento à questão. Perdi duas tias: uma em 2023, e outra no ano passado. Esses assuntos estão mais presentes de uns tempos para cá. Imagina você que minha vó viveu 102 anos. Na peça, meu personagem abre mão de tudo para cuidar da mãe. Não vivi esta experiência, pois, na minha família, minhas primas estiveram nesse front. É reconfortante ver que a arte pode servir de curativo à dor, às nossas e às dos outros. A arte cura muita coisa e alivia também o luto. E pode fazer com que vejamos a morte sob outro ângulo. Ao fim das sessões, sempre tem alguém que quer compartilhar algum relato pessoal. A peça é uma comédia dramática e, no teatro, comédia e tragédia estão de braços dados. A figura da mãe é representada na peça pela cadeira de rodas vazia. Ali está a presença de uma ausência.

Um dos personagens está envolvido em um escândalo de corrupção. Acha possível vislumbrar um futuro sem atos ilícitos no Brasil?

A esperança pelo fim da corrupção acaba entrando na esfera da utopia, né? Desde criança ouço que o Brasil é o país do futuro, e cadê esse futuro que nunca chega? Certas coisas não vão mudar na política. E há outras que só pioram. O avanço da extrema direita é uma delas. A mediocridade atingiu um estágio que não imaginávamos. É preciso que não deixemos de lutar para que não recrudesçamos em relação a direitos a às nossas conquistas.

Completar 25 anos de carreira significa que você foi resiliente e perseverante no que acredita. Em algum momento a barra pesou a ponto de pensar em desistir?

Sou teimoso, e arte é teimosia. Já pensei em desistir muitas vezes, até porque chega uma hora em que cansa ser perseverante, mas sigo firme. A profissão do ator não tem gabarito. A do médico tem, a do engenheiro tem, a do ator não. Sou do trabalho de carpintaria, venho do teatro, e o teatro é meu oxigênio. Cheguei no teatro aos 12 anos. Antes disso, minha relação com a interpretação vinha do que via pela TV, das novelas. Aos 9 anos era apaixonado pelo “Sítio do Pica-pau Amarelo”. Ligava para a TV Globo para falar com a Dona Benta. Era esse o nível (risos).

Quais novelas marcaram a sua formação?

“Vale tudo”, “Tieta”, “Salvador da Pátria”, a primeira versão de “Ti, ti, ti”, “Cambalacho”, “Top model”… O Wendell é louco pela Malu Mader! “Fera radical” (novela que tinha Malu como protagonista) também, mas prefiro “Top model”.

Nico, seu personagem em Quem ama cuida, é muito observador e cirúrgico nos comentários. O que norteou essa composição?

A construção do Nicolau começou num voo cego. As poucas coisas que sabia é que ele seria o ponto de apoio da Brigite (personagem de Tatá Werneck), que  tinha uma irmã na cadeia (Lyris, interpretada por Pri Helena) e que era muito trabalhador. Conversei com muitos garçons e alguns deles acabam tendo um pouco esse papel de psicólogo para os clientes. De fato há profissionais muito dedicados, que entendem de pratos, de bebidas e crescem na profissão. No caso do Nicolau, ele tem uma gratidão pela Brigite por ela ter assumido a culpa de um erro cometido por ele. Ela o salvou, e ele tem, por isso, um carinho muito grande por ela.

Você e Tatá estão fazendo personagens diferentes de tudo o que fizeram. Vocês combinam coisas como Marília Pêra e Marco Nanini faziam em “Brega e chique”?

Nossa, fiquei arrepiado com essa comparação! A Tatá é muito estudiosa, e eu também. Ela vem com o texto todo marcado. Parece que há improvisação ali, mas não, a gente super respeita o texto. E quando ela acha que cabe inserir algo, telefona para o Walcyr ou à Claudia (Souto, coautora com Walcyr). Tatá é intuitiva, e vou na onda dela. Ensaiamos antes e, na leitura, ela pega algo que poderia passar despercebido. A personagem dela é triste e engraçada, e ela transita muito bem entre esses extremos.

Vocês têm química. E ela também se deu entre você, Drica, Betty e o Fábio Lago em “Volta por cima”, não?

Trocávamos muito, e isso fez toda a diferença. Quando o ator tem o teatro como base tudo funciona. A Betty, por exemplo, adorava passar o texto antes. Cada um ali tinha o seu método e, juntos, fizemos uma boa carpintaria. Foi um trabalho que fluiu maravilhosamente bem. Tenho muita saudade de “Volta por cima”.

Você e Betty tornaram-se amigos. Qual o prerrequisito para uma relação profissional tornar-se amizade?

Minha mãe adorava a Betty. Ela tinha um salão de beleza e decorava o lugar com fotos das atrizes de que gostava: a Betty, Zezé Motta, Elisabeth Savalla… Uma personagem da Betty a emocionou em especial: a de “Anos Dourados” (minissérie de Gilberto Braga), em que ela vivia uma desquitada que trabalhava numa boate e era muito mal vista por isso. Minha mãe queria se separar e se via naquela personagem. Acabou que minha mãe não pôde me ver trabalhando com a Betty. Ela teve covid na pandemia e morreu em cinco dias.

Você chegou a falar sobre isso com a Betty?

Sim, mas não foi de cara, não (risos). Uma vez, terminamos de gravar no Projac e estávamos na portaria esperando nossos carros. O dela chegou, e ela me ofereceu carona. Disse que não queria incomodá-la, e ela me respondeu com um palavrão (risos). Durante o trajeto, tivemos oportunidade de conversar melhor, e ela viu o tanto de coisas que sabia sobre a trajetória dela. Ela adora cinema, e saímos para assistir a filmes.

Ela acompanha “Quem ama cuida”?

Sim, e me liga para comentar alguma cena, e pode tanto elogiar quanto dar algum toque.

Agora quero falar do Wendell. Preservar a individualidade é o segredo para uma relação longeva?

São 23 anos, né? Sinceramente, não sei explicar… Acho que um fator que acaba minando as relações é quando as duas pessoas viram uma, e fazem tudo juntas. Temos muitas coisas parecidas e temos também nossas diferenças. O Wendell tem os amigos dele, e tenho os meus. Dia desses, não quis ir a um show, e ele foi de boa. Quando fazemos algo juntos é porque gostamos de estar juntos. E temos, inclusive, um projeto para teatro no ano que vem. Nosso relacionamento não é aberto, e a manutenção do tesão exige muita atenção. Existe uma coisa que precisa ser preservada que é o afeto. Quando planejamos uma viagem ou um trabalho é porque queremos estar juntos. Nossa parceria é pautada pela cumplicidade.

Chegou a ficar assustado com os memes relacionando o Patrick ao visual do Mauro Cid, então ajudante de ordens de Jair Bolsonaro?

Foi algo que me surpreendeu. Acordei e vi que o número de seguidores nas minhas redes havia triplicado. E a imprensa me ligando direto. Demorei a entender o que estava acontecendo até por que não acho o Patrick parecido com ele, talvez pela questão do “pega-rapaz”. A velocidade com que as coisas ganham vulto nas redes é impressionante. E os parâmetros são opostos: podem causar muita confusão e, por outro lado, podem ajudar a elucidar coisas também. Ali, naquela situação, os mocinhos éramos eu e o Patrick.

Bordão é fundamental ou o humor pode prescindir dele?

O bordão vem de uma tradição e foi popularizado por uma galera que abriu caminho a todos nós que fazemos humor hoje. Já fiz humor de vários tipos e, durante muito tempo, fizemos piada com tudo. O mundo mudou, e os tempos são outros. Há mudanças que são libertadoras, para nós, comediantes, e para o público.

O “Olha a faca” repercute até hoje, e você o colocou como um caco na peça de agora…

Ele está na cabeça das pessoas até hoje, e tenho muito orgulho disso. Até porque ele se popularizou na TV, mas veio do teatro, e isso é gratificante.

A quem hoje bradaria um “Olha a faca!”?

Para a extrema direita e para políticos que ignoram pautas relacionadas à Diversidade. É triste constatar que esta escalada da extrema direita não acontece somete no Brasil, mas no mundo. E isso representa mais do que um retrocesso em relação a conquistas e a direitos, é algo nocivo a todos.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e Sergio Baia (imagem)

 

 

Posts recentes

Na grande área

Mel Gibson virá ao Brasil promover cópia restaurada de um de seus maiores sucesso de bilheteria no país. Vem saber!

Natureza inventada

Andrea Lins reúne nomes da vida social carioca na abertura de mostra na qual recria espécies da flora e da fauna