Com uma trajetória que se estende por mais de duas décadas, Maria Flor construiu uma carreira pautada pela coragem de transitar por caminhos múltiplos. Seja protagonizando obras marcantes que desafiaram o conservadorismo da TV aberta — como a inesquecível “Aline” —, ou assumindo o olhar minucioso da direção e da escrita, a artista mantém a busca constante pela verdade nas relações humanas. Agora, Maria está em cartaz no teatro com a peça “O Filho”. O espetáculo aborda com crueza e sensibilidade a depressão na adolescência e a dor de uma mãe — Ana, vivida pela entrevistada em alternância, em dias diferentes, com Maria Ribeiro. Paralelamente, a atriz e diretora vive um momento de intensa maturidade criativa: prepara a adaptação cinematográfica de seu livro, “Já não me sinto só”, colhe os frutos de trabalhos recentes na direção e na televisão, e reflete sobre o ritmo exaustivo imposto pela sociedade hiperconectada. Nesta conversa com o NEW MAG, Maria reflete sobre a dor universal na montagem que fica em cartaz até domingo (13) no Teatro Fernanda Montenegro, no Belmond Copacabana Palace, Rio de Janeiro, comenta a urgência da escala 5×2 para a saúde mental e à qualidade de vida, além da importância do teatro como refúgio de desaceleração e presença em um mundo doente pela produtividade.
A peça “O filho” aborda a depressão na adolescência de uma maneira muito delicada e dolorosa. O que mais impactou você quando leu o texto e conheceu essa mãe que interpreta?
O que mais me impactou foi a possibilidade de isso acontecer com qualquer pessoa, qualquer família. O Nicolas, o filho, tem uma família completamente tradicional. Os pais são separados, mas isso não é nenhum drama hoje em dia. Eles foram casados durante muitos anos. Ele passou a maior parte da infância, até os 16 anos, com os pais casados, com estabilidade. Tem uma vida boa, os pais têm uma estabilidade financeira. Qual é o problema desse menino? Como você pode dizer: “Ah, mas isso aconteceu na vida dele”? Nada aconteceu, nenhum trauma realmente aconteceu, e ele tem essa condição. O fato de ser uma família que está ali tentando ajudar esse menino e, ainda assim, ele não conseguir viver, lidar com a vida, e esses pais também não conseguirem ajudá-lo, por mais que estejam tentando, me tocou muito. Pode acontecer com qualquer pessoa.
O diretor Léo Stefanini diz que a montagem é muito pautada pelo trabalho dos atores, quase em “close”, valorizando olhares e expressões. Como essa proposta mais íntima influenciou sua preparação para a personagem?
Tudo vem do texto, para mim. O texto é o meu guia. Tentei buscar todas as respostas para construir a Ana a partir desse texto. Que mãe é essa? Como é a dor que ela está vivendo? Qual é a angústia dela? Por que ela não consegue entender o que ele está sentindo? Por que ela não consegue lidar com ele? Qual é a dificuldade dessa relação? Onde foi que ela perdeu esse filho no meio do caminho? Tudo isso estava no texto. A minha tentativa era trazer essas questões através do texto e da relação com o resto do elenco. São cenas muito bem escritas e construídas. Essas delicadezas, essas miudezas das relações são muito interessantes de trabalhar.
Você se reveza no papel da mãe de Nicolas em “O filho” com Maria Ribeiro, que atualmente também está no ar em “Quem ama cuida”. Nesse processo, você se fechou na sua própria criação ou acabou absorvendo características da leitura da Maria para a personagem?
O Léo me deu muita liberdade. Ele falou: “Lê o texto e vai na sua”. Foi o que eu fiz. Li o texto, fui na minha e tentei encontrar o meu caminho para fazer a Ana. É impossível um ator, por mais que veja outro ator fazendo, reproduzir aquilo. São questões, repertórios, origens, influências, escolas diferentes de como pensar o trabalho do ator. Não tinha como ser igual.
A série “Aline”, que você protagonizou 15 anos atrás, abordava com leveza e humor a vida de um trisal, um tipo de relação que ainda enfrenta preconceito na sociedade. Você acha que, se fosse produzida hoje, a abordagem seria muito diferente da que foi feita naquela época?
“Aline” era muito moderna para a época em que a gente fez. Era muito transgressora. Eu não estava preocupada com o que os outros iam pensar dela, porque ela era uma pessoa muito livre, sexualmente livre. Ao mesmo tempo, tinha uma certa ingenuidade, uma certa irresponsabilidade. Ela não era panfletária. Não estava pensando: “Eu sou a favor do relacionamento aberto”. Não era sobre isso. Era muito mais sobre o desejo dela, sobre como ela via os relacionamentos e se colocava no mundo. Isso era muito legal no texto do Mauro Wilson e também no quadrinho do Adão Iturrusgarai. Hoje em dia, talvez a Aline fosse mais aceita, tivesse mais espaço para ela. Eu amaria muito refazer. Foi um sucesso, teve três temporadas. Seria muito legal revisitar.
Ao assumir a direção da série “No ano que vem”, você escolheu contar uma história profunda sobre o universo feminino, apostando inclusive em equipes técnicas majoritariamente lideradas por mulheres. Como tem sido exercer esse lugar de comando por trás das câmeras?
Era um desejo muito grande. Eu já tinha dirigido uma série chamada “Só garotas”, do Multishow, que dirigi e escrevi com mais três parceiros, André Mielnik, Paula Gicovate e Catharina Wrede. Foi uma grande aventura. Tinha muito pouco dinheiro e a gente foi fazendo e inventando essa série. Depois, eu tinha vontade de continuar dirigindo e surgiu a possibilidade de fazer “No ano que vem”. Eu me joguei. Foi um desafio, porque era uma série muito mais responsável do que “Só garotas”, com atores muito mais maduros. Eu também estava mais velha, mas os atores eram muito mais maduros, então tinha muito mais responsabilidade em relação a conviver com esses atores. Precisava ter mais respostas. Foi muito legal. Gosto muito do trabalho da direção. É muito bom quando você encontra uma equipe que está a fim de fazer aquilo e atores que também estão, porque o trabalho da direção é, de algum jeito, dar um certo contorno para aquilo que já vai existir, àquilo que já está acontecendo ali. Se você tem bons parceiros na equipe, o trabalho da direção fica muito mais fácil. Tem muita responsabilidade, mas você tem muita gente te ajudando, dividindo e compartilhando essa responsabilidade. É muito criativo, porque é um trabalho coletivo, de escuta, de entender, de ouvir como as pessoas leram aquele texto e como podem ajudar. A direção é muito de parceria, de olhar e ouvir o outro. É muito coletivo e muito bom de fazer. Inclusive, tenho um roteiro pronto, um projeto que estou em fase de captação de recursos, chamado “Já não me sinto só”, baseado no meu primeiro livro. Fiz essa adaptação junto com uma parceira minha maravilhosa, a Júlia Lordello.
Você voltou a fazer novelas em “Garota do Momento” após um longo hiato fora desse formato. Sabemos que muitos atores evitam as novelas hoje em dia devido à rotina exaustiva de gravações — com alguns até defendendo uma escala de trabalho menos pesada, como o modelo 5×2. Como você vê esse assunto?
A escala 5×2 é muito interessante para a qualidade do trabalho de todo mundo. Você precisa de um tempo para descansar, passar com a sua família, conseguir pensar direito no que vai fazer, como vai ser a outra semana, estudar melhor o texto, os planos, como vai fazer e ter esse tempo de descanso. É muito interessante que isso seja aprovado e colocado em prática. Para o bem de todo mundo, inclusive para o próprio projeto, para a qualidade das cenas e do trabalho, é importante que a gente consiga parar e se distanciar um pouco para voltar renovado. Não acho que isso seja importante para os atores especificamente. É importante para toda a máquina, para o funcionamento, para toda a indústria, todo o processo. Todo mundo descansa. Inclusive, não só do audiovisual, mas da sociedade como um todo. Eu não deixaria de fazer uma novela por ser 6×1, não acho que seja isso. Minha intenção e minha colocação é que a gente consiga trabalhar 5×2, mas para todos nós que estamos no mercado de trabalho. Até porque, sendo profissional independente, você trabalha o tempo todo. Está o tempo todo pensando em coisas, em projetos, em trabalhos. Você nunca para completamente. Todo mundo precisa descansar. É o mínimo para qualidade de vida.
Por falar nisso, conciliar projetos intensos no teatro, na direção e na TV com a vida familiar e a maternidade exige um malabarismo constante. Como você faz para encontrar o equilíbrio entre o ritmo frenético da carreira artística e o seu tempo de descanso para curtir a família?
Não sei (risos). A gente está vivendo num mundo em que ninguém tem tempo. Estamos muito sobrecarregados, porque existe uma quantidade de exigências para que a gente produza, para que seja produtivo. Toda a tecnologia também acaba direcionando muito para esse sentido da produtividade. O WhatsApp fez com que a gente não pudesse mais se desligar. Você precisa estar online, responder à pessoa, responder à demanda. A gente não desliga nunca. É como se fosse uma batalha para desligar, como se você tivesse que escolher: “eu não vou responder ao WhatsApp a partir das 7 da noite, porque vou ficar com meu filho”. E, ainda assim, você não consegue, porque também está esperando uma resposta, porque também quer dar uma resposta, porque também quer responder uma coisa que vai te levar para uma reunião, para algo que é importante para você. Esse sistema capitalista de produtividade infinita está acabando com a gente, com o nosso prazer de olhar para as coisas, com o tempo de não fazer nada, que é o que faz com que a gente possa pensar na nossa própria vida, na própria existência. Tudo isso me deixa muito preocupada com a gente como ser humano, como humanidade. Como sociedade, como é que a gente vai se olhar, se escutar, respeitar uns aos outros, se não consegue sair do aparelho celular, respirar e olhar em volta? A gente está dentro de um Uber, que é um aplicativo que está fazendo as pessoas dirigirem sem parar por todos os lados, para conseguirem fazer dinheiro e sobreviver, olhando no celular. É uma nova forma de existir que é muito cansativa, muito sem tempo de parar e olhar para o que a gente está fazendo. Parece que, quando a gente está parado, se sente até culpado de não estar fazendo alguma coisa. Você fica parado e pensa que está perdendo alguma coisa: “Eu deveria estar fazendo alguma coisa porque tem alguém que está fazendo uma coisa que eu não estou fazendo, outra pessoa vai chegar na minha frente”. Na frente do quê? Nesse sentido, a gente está muito doente. Tenho uma vida muito privilegiada, porque consigo, por exemplo, fazer teatro nesse momento. E o teatro tem exatamente essa desconexão com toda essa velocidade. O teatro é o exercício de estar presente ali naquela história que você está contando. Ele vai na contramão da vida que a gente está vivendo hoje em dia. Tem o tempo dele. Você precisa tentar ouvir o outro para conseguir responder. Tudo isso, para mim, é muito legal. E ser artista no Brasil é um grande privilégio. É um privilégio enorme conseguir viver do meu trabalho. Sou muito grata por tudo isso, pela vida que tenho. Eu não reclamo. Tenho que conciliar, não tem muito como não fazer isso. Mas é claro que estamos todos cansados.
Na nossa última entrevista nós falamos sobre o livro “O amor ainda é possível?”, que você escreveu com o seu marido, o Emanuel Aragão. Você já tem pensado em um próximo projeto literário?
Ainda não. Estamos pensando devagar em outro projeto para a literatura, mas agora ainda estamos muito focados no lançamento do “O amor ainda é possível?”.
Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Jorge Bispo (imagem)





