Houve uma época – e não faz muito tempo – em que não existiam telefones celulares. Os telefones eram ligados às paredes por fios e, em alguns deles, para completar as chamadas, tínhamos de girar discos com os algarismos (não confundir com algoritmos). Os adolescentes não conversavam por trocas de texto, mas em demoradas conversas telefônicas, que deixavam os pais – as mães, especialmente – em alerta. Ali no início dos anos 1990, com as economias por um plano econômico então vigente, uma menina conseguiu lotar teatros pelo país. Seu nome? Maria Mariana.
Ela é a autora de “Confissões de adolescente”, peça na qual atuou juntamente de Ingrid Guimarães (que hoje abarrota cinemas), Carol Machado e a (hoje advogada) Patrícia Perrone. A peça inspiraria ainda bem-sucedida série de TV e instauraria um novo marco no teatro brasileiro: o de peças confessionais, muitas delas dirigidas por Domingos de Oliveira (1936-2019), diretor de “Confissões” e pai de Mariana.
O texto teatral também foi lançado em livro que acabaria por atingir a marca de 250 mil exemplares vendidos – um feito e tanto para a época. Pois, passados 34 anos do seu lançamento, a obra volta às prateleiras. E em edição acrescida de textos das demais atrizes e em cujo prefácio sua autora faz um balanço do que se passou de lá para cá. Vivendo fora do Rio e mãe de quatro filhos (alguns deles adolescentes), ela falou com NEW MAG sobre a importância de os jovens externarem seus sentimentos nesses tempos em que o excesso de telas traz mais malefícios do que benefícios.
— Uma das missões do livro naqueles anos 90, e nessa reedição também, é a de incentivar adolescentes a escreverem seus diários como prática terapêutica para o autoconhecimento. E de preferência à mão, pois esse ato tem uma função de reabilitação cognitiva – defende Maria Mariana, que lançará a nova edição em setembro, na Bienal do Livro de São Paulo.
A vida está cada vez menos analógica, e muitos gadgets trazidos pela tecnologia reabilitaram hábitos como o da escrita. E os blogs, que tomaram a web na virada entre os anos 1990 e o novo milênio, são prova disso. Mariana tem plena ciência disso. E sabe também que o diário pode ser uma ferramenta a favor do autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal, como defende:
— O diário é um bom exemplo de como esse aprendizado pode trazer equilíbrio ao estilo de vida dos adolescentes da atualidade. Percebo que a geração atual tem muita a aprender com a geração dos anos 90 e vice-versa.
Apesar do alerta que mais e mais datacenters representarão à preservação de recursos naturais (a água, sobretudo), a escritora sabe que a tecnologia é um caminho sem volta.
— É claro que a realidade de multitelas está incorporada e não mudará, mas somada ao hábito de confessar para si mesmo em um diário, pode proporcionar um desenvolvimento mais saudável – acredita a autora, defendendo que certos hábitos podem ser atemporais: — E seria revelador para mostrar que existe algo eterno nessa fase da vida e que transcende o tempo.
Eterno como são certos textos teatrais e – por que não? – os livros…
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Luísa Lorenzi (imagem)





