Ele traz a bem-aventurança no nome. O que não significou um salvo-conduto de que sua trajetória seria moleza. Não foi. Multiartista avant la lettre, Daniel Boaventura trilhou nas artes um caminho genuíno desde que, em idos dos anos 1990, foi revelado na comédia musical “Os cafajestes”, sucesso soteropolitano que não demorou a ganhar o Sudeste. De lá para cá, Daniel mostrou sua multiplicidade em musicais, segmento no qual atuou por três décadas, e na TV, onde brilhou como galã ou como comediante (“O humor é sedutor, mas fazê-lo é muito difícil”) Hoje, Daniel privilegia uma de suas verves artísticas: a de cantor. E, como tal, arrebata plateias no Brasil e no exterior, tendo alcançado o status de ídolo no México. Carisma, talento, vocação e profissionalismo não lhe faltam. E ele dará mais uma prova disso, neste sábado (22), quando sobe ao palco do Qualistage, Rio de Janeiro, com o show “Em casa”, cujo nome não poderia ser mais apropriado. “Abracei diferentes possibilidades como artista, sem nunca perder a música como foco”, avalia Daniel nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir, ele passa a limpo sua trajetória e a própria construção (“meu pai me disse para fazer o que quisesse, desde que me preparasse”), incensa colegas como Wagner Moura (“Minha filha o chama de ‘divo’”) e não descarta voltar à TV numa experiência mais curta e, de preferência, sob a direção de Maurício Farias (“o crème de la crème”). Com a I.A mais presente no nosso dia-a-dia, revela que adoraria fazer um dueto com Emílio Santiago (1946-2013) e que gostaria de ter num show o holograma de Frank Sinatra (1915-1998), a quem chama de “visionário”. Esse dom Daniel também o tem. Sua vitoriosa trajetória prova isso.
Você lotou mais de uma vez o Auditório Nacional do México, um espaço com 10 mil lugares. O que te comoveu mais nesta acolhida pelo público mexicano?
A acolhida no México me ajudou a querer continuar sendo cantor. Nunca desacreditei disso, mas a acolhida que tive ali demonstra que eles acreditam em mim e no meu trabalho. O caminho que construí foi movido pela música. Saí da Bahia e encarei o eixo Rio-São Paulo movido por esse propósito. Trabalhei como ator, fiz TV, tudo isso com muito prazer e sem perder o foco na música. Fui buscando e encontrando meios de fazer valer aquilo em que acredito. E este caminho está ainda em construção.
Djavan e Emílio Santiago foram crooners. Você reaviva com dignidade e autenticidade a figura do crooner, que foi muito importante na música brasileira…
Não me vejo exatamente como um saloon singer, mas gosto muito desse repertório. E gosto de dar a ele uma sonoridade atual, mais moderna, fazê-lo de outras maneiras, resgatando lados B dos cantores que gosto. Meu caminho é esse. Gosto também de imprimir isso na minha maneira de cantar. Estudei canto lírico, atuei em musicais ao longo de 30 anos e da mesma forma em que precisei educar minha voz, precisei também deseducá-la. Tudo isso para poder encontrar minha própria voz. E uma pessoa que me ajudou muito nesse processo foi o Guto Graça Mello, meu primeiro produtor (morto em maio deste ano aos 78 anos). Devo a ele muito do que sei hoje.
Estamos vendo no Brasil o boom das grandes turnês, reunindo grupos do pop em formações originais e medalhões da MPB, como a que recentemente reuniu Caetano e Bethânia. Com que nome gostaria de realizar uma grande turnê?
Com Djavan! Adoro ele e quem não gosta? Com Djavan faria uma turnê. Há muitos artistas brasileiros dos quais gosto muito. João Bosco é um deles. O Flávio Venturini é outro. Sem falar no Guilherme Arantes que, pela formação clássica que tem, é um mago da melodia. Ele é o nosso Elton John, um cara com qualidades técnica e artística internacionais. Adoraria fazer algo com ele.
Assim como a Natalie Cole foi pioneira ao usar da tecnologia para cantar em duo com o próprio pai, com que astro do passado gostaria de cantar?
Com o Frank Sinatra que adoro… Com o Louis Prima, que, para mim, é o verdadeiro pai do rock e um cantor cheio de bebop. Adoro também o Sam Butera (saxofonista norte-americano) e, dos brasileiros, adoraria gravar com o Emílio (Santiago), dono de uma grande voz.
O Sinatra tem sido homenageado com muitos tributos nos quais diferentes cantores recriam parte do seu repertório. O que te fascina exatamente nele?
Sinatra não foi apenas um grande cantor, mas um empresário visionário. Ele era humano e tinha também defeitos. Deixou-se embriagar pelo poder, por exemplo, e chegou a pedir que a Mia Farrow fosse retirada de um filme (de “O bebê de Rosemary” por Sinatra a querer no filme dele). Ele ajudou a combater o racismo nos EUA ao exigir que seus músicos, muitos deles negros, se hospedassem no mesmo hotel em que ele. Teve aquele episódio em que uma pessoa pediu ajuda, e ele se desfez das abotoaduras. Recriminado por alguém da equipe, respondeu que tudo o que ele usava “era alugado”, o que mostra que ele tinha um desprendimento enorme. Com a morte do Nat King Cole, ele chamou o Nelson Riddle (produtor do Nat), para trabalhar com ele. Ele tinha bom gosto e buscava qualidade em tudo.
A IA te interessa para o uso de um holograma num show?
Se for para usar da IA, então vale tudo. Pode ser Elvis Presley, Nat King Cole… A Diana Krall fez uma vez um tributo ao Nat King Cole Trio que resultou num trabalho muito bonito. Ela seria um nome com quem gostaria de cantar. Com o Dori Caymmi também. Mas, em se tratando de um recurso holográfico, adoraria cantar com o Tom Jobim. Tive oportunidade de cantar com o Daniel (Jobim), neto do Tom, mas com o Tom nuca. As possibilidades são inúmeras.
Os compromissos como cantor abrem brechas para estrelar novamente um musical?
Musical é para mim uma paixão eterna. É onde encontrei a forma mais completa para me exprimir apesar de haver no teatro a quarta parede. Ainda recebo convites para fazer musicais e fico mexido, mas aceita-los seria hoje um contrassenso. Seria difícil para mim conciliar hoje agendas e horários, sem falar que seria injusto também para o público. O espectador sai de casa para ver um artista, chega ao teatro e ele não está lá. É natural e há os stand-ins (atores substitutos), mas o público pode se decepcionar.
Já ouvi aqui, de nomes como Edson Celulari e Natália do Vale, que fazer novela hoje está mais cansativo. Atuar numa obra aberta te atrai ainda?
Numa novela não, mas numa minissérie sim. A linguagem da série me atrai muito. Adoraria voltar a trabalhar na TV com o Maurício Farias (diretor geral de “Tapas e beijos”). Ele é para mim o crème de la crème. Um gentleman no trato e um profissional com uma objetividade impressionante. O trabalho acontece de forma rápida e com qualidade. Adoraria trabalhar com ele numa série.
Você surge no teatro com outros baianos que tornaram-se referências em suas áreas. Wagner brilha no exterior, Lázaro atua em diferentes frentes… O mar da Bahia é como o caldeirão do Obelix?
(Daniel ri da pergunta) Tenho 56, e minha geração veio um pouquinho antes da deles. Lembro que assisti à “Máquina” no Sesc Copacabana, onde também me hospedei no começo da carreira. O talento deles é inegável! Alguém tinha de fazer um documentário sobre esses caras. Convivi mais com o Vladimir quando fizemos “Tapas e beijos”. Ele é um cara de um talento imenso e com uma postura humana exemplar. A forma como ele encara a vida e lida com o trabalho são admiráveis. Sou fã do Vlad. Isabela, minha filha, adora o Wagner. Ela o chama de divo e disse que vai imprimir o rosto dele numa camisa.
Andrea Beltrão é uma atriz impressionante. O que você guarda de mais tocante do convívio com ela em Tapas e Beijos?
A Andréa é aquele tipo de atriz com uma dedicação total ao personagem e uma fidelidade absurda a ele. Ela é de uma maturidade imensa. O humor é sedutor, mas fazê-lo é muito difícil, e a Andrea conseguia isso de servir ao humor, e ele a ela.
Vocês todos davam-se muito bem no Tapas, não?
Sim. Tínhamos muito respeito uns pelos outros. Não tinha ali brecha para fofoquinhas. E não posso não falar da Fernanda (Torres). Ela é um demônio em cena! E uma pessoa com uma cultura geral impressionante. Ela podia falar sobre teatro, sobre História ou literatura. Aquele foi um elenco abençoado.
Nesses tempos de consumo remoto da música, os grandes nomes, mesmo os medalhões, estão fazendo shows como nunca. O palco é o seu lugar de fala e na vida?
Na minha caminhada abracei diferentes possibilidades de trabalhar como artista, sem nunca perder a música como foco. Como ator, li Stanislawski, estudei o método de Lee Strasberg e conheço sobre teoria, mas onde me sinto confortável é na música.
Tem tocado saxofone ou ele está mais de lado?
Sim! Não sou nenhum Charlie Parker, mas tenho eles comigo. Em casa, gosto de tocar, de ler e de tomar um vinho. No palco é o momento do “to play”. Ali não tem blefe, playback ou autotune. E ali também me divirto. O palco é a medida real do artista. É onde me sinto mais pleno, é quando vejo que a caminhada valeu a pena.
Tonny Bennett pintava. O que Daniel Boaventura gosta de fazer que ninguém sabe?
Gostava muito de desenhar na juventude e cheguei e fazer os cartazes para os festivais de música no colégio. De vez em quando, algum amigo daquela época me manda a foto de algum deles. Gosto de medicina e cheguei a pensar em ser médico. Adoro ficção científica, Star Wars, essas coisas, e uma coisa que adorava era montar as maquetes das naves espaciais, e tô me dando conta de como era nerd (risos). A música falou mais alto. Meu pai era educador e me disse uma frase da qual não esqueço: faça o que quiser fazer, mas prepare-se.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e reprodução/internet (imagem)





