Foi o aguardado encontro entre duas nobrezas da música. Foi o reencontro entre colegas, companheiros de geração e amigos queridos. De um lado, aquele que tem na música o epíteto de Príncipe do Samba. Do outro, aquela que, a partir de 1979, ganhou da imprensa a alcunha de Abelha Rainha. Estamos falando de Paulinho da Viola e de Maria Bethânia.
Pois o Príncipe e a Rainha voltaram a cantar juntos. E esse reencontro deu-se, no início da noite deste sábado (08), quando Bethânia participou como convidada do show de Paulinho no festival Doce Maravilha. E se o clima no palco foi afetuoso, o dos bastidores foi festivo, com os dois artistas recebendo colegas como Marisa Monte e a cantora e atual ministra da Cultura, Margareth Menezes.
Com um atraso de meia hora – aceitável num festival – Paulinho entrou no palco ao som dos primeiros acordes de “Nas ondas da noite”, no qual acompanhou-se e aos demais músicos ao cavaquinho. E ele seguiria com o instrumento nos demais cinco números, todos eles clássicos.
Após atacar de “Argumento”, o artista ouviu seu nome ser bradado em coro pelo público que lotava o Jockey Club, no Rio de Janeiro. Paulinho conteve a emoção e seguiu com “Pecado capital”, o choro “Coração imprudente” (esta com Capinam) e “Coração leviano”. Era chegada a hora de trocar de instrumento e, dedilhando seu violão, mandou ver em outros clássicos como “Coisas do mundo, minha nega”, “Para ver as meninas”, “Sinal fechado” e “Dança da solidão”.

O samba “Canção para Maria (Maria, Mariô)” demonstrou que se aproximava a hora de a ilustre convidada entrar – e a imagem no telão de LED da silhueta de Bethânia sambando confirmou a suspeita. A cantora entrou na roda no número seguinte, “Falsa baiana” (Geraldo Pereira), reavivando um dos números da turnê que os dois amigos e o Terra Trio realizaram, em idos dos anos 1970, pela Europa.
Em seguida veio a grande surpresa da noite: Paulinho e Bethânia cantam “Desde que o samba é samba”, de Caetano Veloso. O tema, lançado no CD “Tropicália II”, havia sido interpretado pela cantora no show “De Santo Amaro a Xerém”, no qual dividiu a cena com Zeca Pagodinho.
A partir daí, o roteiro abriu espaço para Bethânia interpretar dois clássicos do próprio repertório: “As canções que você fez para mim” (Roberto e Erasmo Carlos) e “Reconvexo”, do mano Caetano.
— Uma honra te reencontrar, Paulinho. Que poeta extraordinário você é – celebrou a canora entre um e outro dos números supracitados.

Era chegada a hora de o anfitrião, portelense, afagar a amiga com o samba com que homenageia a Mangueira, escola da intérprete. E os dois fizeram juntos “Sei lá, Mangueira” (Paulinho/Hermínio Bello de Carvalho), seguida de “Foi um rio que passou em minha vida”, numa mesura à Azul-e-Branco.
— Vou deixar vocês nos braços deste belo rapaz – declarou Bethânia despedindo-se em definitivo com citação à capella de “O mar”, de Dorival Caymmi (1914-2008).
A fala foi a deixa para Paulinho puxar os versos “Não sou eu quem me navega/Quem me navega é o mar”, de “Timoneiro”, outra parceria com Hermínio. O show já estava no fim e, antes do artista deixar o palco, fez, a exemplo de Bethânia, também uma saudação/citação, desta vez a Clementina de Jesus (1901-1987).
Sim, Dona Quelé. Ou a “Rainha negra da voz/Mãe de todos nós”, como definido em “Rainha negra” (Moacyr Luz/Aldir Blanc), samba gravado por Bethânia no CD “Olho d’água”.
Os elos que unem Paulinho da Viola e Maria Bethânia passam por Clementina e por demais baluartes do samba, de ontem e de hoje – de sempre.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Clara Carvalho (imagem camarim) e divulgação (imagens show)






