Um homem que deu ao cinema brasileiro a chancela de arte e o status de indústria. A frase, ainda que incompleta, é a que mais se aproxima do que Luiz Carlos Barreto representa (e o verbo fica no presente) para o audiovisual no Brasil. O produtor estava internado em um hospital na Zona Sul do Rio de Janeiro e faleceu, aos 98 anos, na madrugada desta quarta-feira (22). O velório será realizado nesta quinta-feira (23), das 11h às 14h, no Palácio da Cidade, em Botafogo, como antecipado aqui.
Para falar de Barretão, como tornou-se conhecido no meio que ajudou a celebrizar, é necessário falar também do nosso cinema, cuja História ele ajudou a escrever. O Cinema Novo não seria o que é sem o produtor, cujo olhar arguto foi forjado a partir do trabalho como fotógrafo, profissão que abraçou no tempo em que trabalhou na revista O Cruzeiro.
Obras-primas desse movimento como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha (1939-1980), e “Vidas secas”, de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), tornaram-se viáveis a partir do trabalho do produtor e de sua mulher, Lucy Barreto. A LC Barreto, criada pelo casal em meados dos anos 1960, foi peça-chave para a consolidação do nosso cinema.
A partir dela, nos anos 1970, outros clássicos chegaram às telas. Dois exemplos são “Dona Flor e seus dois maridos”, filme de Bruno Barreto desenvolvido a partir do romance homônimo de Jorge Amado (1912-2001) – e, por décadas, o campeão de bilheteria no país – e “Bye, bye, Brasil”, outro grande sucesso de público, este de Cacá Diegues (1940-2025).
Os novos ventos trazidos pelos anos 1980 apontariam para uma renovação do público. “Menino do Rio”, de Antonio Calmon, levou a garotada às salas tornando-se naquele 1982 o que podemos chamar de arrasa-quarteirão. Com o fechamento da Embrafilme nos anos 1990, a LC Barreto manteve-se firme no leme.
E, a partir do renascimento do cinema em meados daquela década, outras obras-primas vieram à baila. São os casos de “O quatrilho”, de Fábio Barreto (1957-2019), e cuja indicação ao Oscar mostrou que o sonho não era de todo impossível, como veio finalmente a acontecer agora com “Ainda estou aqui”, de Walter Salles.
Sonhar é algo que Luiz Carlos Barreto fez. E, com isso, levou todo um país a, no escurinho do cinema, vislumbrar uma nação mais digna e próspera. Com a licença de Cacá, dias melhores vieram. E Barretão tem uma importância imensa nisso. O povo brasileiro só tem a lhe agradecer.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagem)





