‘Não sou afeita à música de hoje’

julho 17, 2026

Rosamaria Murtinho brilha no teatro e revisita sua trajetória, celebra a parceria com Mauro Mendonça, equipara sua ousadia à de Rita Lee e diz que a TV ainda a atrai

No palco, ela está sentada sobre uma poltrona cuja estampa é tão extravagante quanto o look da sua personagem. O papel em questão é o da fashionista Iris Apfel (1921-2024). O assento pode muito bem ser visto como um trono em se tratando da figura austera que o ocupa. Ela é Rosamaria Murtinho, uma de nossas mais importantes atrizes. Rosinha, como é chamada pelos amigos, está de volta aos palcos. Ela estrela “Uma vida em cores”, na qual, a partir do texto de Cacau Hygino, personifica aquela que foi ícone da moda nos EUA. Ousadia é algo que une o papel à sua intérprete. Rosamaria pertence a uma geração que, como ela própria diz, consolidou “o teatro como um segmento no país”. Seu pioneirismo abarca também a vida pessoal. “Sou independente desde mocinha”, pontua ao falar da longeva e bem-sucedida união com o ator Mauro Mendonça, ao lado de quem teve três filhos – Mauro, João Paulo e Rodrigo – e cuja contribuição às artes é tão grandiosa quanto a dela. O gosto pelo teatro também pegou a neta, Sofia, ao lado de quem atua e sobre quem é só elogios: “Ela não se dispersa”. A seguir, a atriz fala sobre ousadia, coragem, resiliência, encontros artísticos com Janete Clair (1925-1983) e com Jaime Monjardim, e elenca momentos marcantes na TV, veículo que, garante, chama ainda sua atenção. “Quem sou eu para dizer que a TV não foi importante?”, indaga. Ela é Rosamaria Murtinho, e só nos resta aplaudi-la. Abram, então, as cortinas!

Iris foi empreendedora e era uma mulher extravagante no vestir-se e firme ao se posicionar. Por qual meio você acessou o universo dessa personagem?

Quando começo um trabalho, a primeira coisa na qual me pego é o texto.  Preciso entender o que o autor quer dizer com o que está ali. Essa é a minha primeira preocupação. E há muita verdade no texto do Cacau. Ele conheceu de fato a Iris e esteve com ela algumas vezes em Nova York. Então, tudo o que está ali é fruto do que ele viu, ouviu e baseado naquilo que ela viveu.  O texto é muito claro e realista, e é a partir dele que eu me atrevo a dar meus saltos.

São tocantes a segurança e o preparo da Sofia, sua neta e colega de cena. Deixando a avó de lado, como atriz, o que nela te deixa mais orgulhosa?

A atenção e o foco que ela tem em cena. Ela não se dispersa e, justamente por isso, tem a possibilidade de brincar e de sair do texto. A atenção dela não se dissipa, e acho isso muito positivo.

Iris gostava de Frank Sinatra e de Michael Jackson. Você aderiu às plataformas de música?

A música de hoje é muito fraca. A impressão que tenho é a de que a melodia não é mais tão importante. O que importa é a batida. Adoro Tom Jobim e a bossa nova. Vivi aquela época e vi tudo o que ela alcançou de positivo no país e no mundo. “Garota de Ipanema” foi uma das canções mais tocadas nos Estados Unidos, rivalizando somente com os Beatles. Os tempos mudaram muito. Não sou afeita à música de hoje.

Você e Mauro estão juntos desde 1959 e já viveram a experiência de morar em casa separadas…

E, na mesma casa, em quartos separados também. Sabe que, quando decidimos morar separados, as pessoas se espantavam, e eu dava como exemplo a Rita Lee. Dizia que se a Rita Lee e o Roberto de Carvalho podiam, por que Mauro e eu não poderíamos também?

Preservar a individualidade é o segredo para uma relação tão longeva?

Ter autonomia é fundamental na vida. Sempre tive autonomia e sempre fui respeitada por isso. Sou independente desde mocinha, e isso nunca foi um problema para mim.

Você trabalhou em praticamente todas as TVs brasileiras, em emissoras que nem existem mais…

A TV Rio não existe mais. A Excelsior também não. Fui levada à Excelsior pelo Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho), que me acenou com um ordenado três vezes maior do que eu tinha, e fui. Ele que consolidou a cultura das novelas no país. A Excelsior cresceu muito em São Paulo na época, e o mérito disso é todo dele.

Você integrou o elenco da primeira versão de Roque Santeiro e, com a censura, encarou a toque de caixa seu papel em Pecado Capital. Com o que foi mais difícil de lidar naquela experiência?

O mais difícil foi fazer às pressas a transição entre um trabalho, que já havia sido preparado, e outro, completamente diferente daquele. Mas a Janete Clair (escalada para escrever “Pecado capital”) era danada. Ela sempre tinha uma carta na manga. O fato de ter trabalhado no rádio fez com que ela fosse muito ágil em ter ideias e em resolver os problemas que surgiam.

Ela fazia jus ao epíteto de Nossa Senhora das Oito…

Ela tinha um discernimento claro sobre o trabalho dela e não se deixava abater por questões pessoais ou picuinhas. Houve uma situação em que ela e uma atriz se desentenderam, e isso não fez com que ela diminuísse na trama a personagem da atriz, como outros autores fariam ou fazem. A Janete era fiel àquilo em que acreditava.

Alguns atores que afastaram-se da TV Globo por um tempo, voltaram fazendo papéis antológicos. Foi assim com o Tony Carrado vivido pelo Nuno Leal Maia e com a Porcina da Regina Duarte. Isso também se deu com a Eufrásia em Memorial de Maria Moura, não?

Essa foi uma personagem maravilhosa. Mas sabe qual foi minha melhor personagem na TV? Na novela “Pantanal” (na primeira versão, exibida pela TV Manchete). Ali, fiz a cena que considero minha melhor na TV. O filho da minha personagem (Zuleica) morria, e isso me deu uma cena linda, dirigida pelo Jaime Monjardim.

Ele é um craque, né?

O Jaime tem essa qualidade de unir sensibilidade a um conhecimento técnico enorme. Ele sabe o que quer e não erra nunca. É outro com uma fidelidade enorme ao que acredita. E talvez esteja nisso o segredo para o sucesso na TV. Você tem de ter foco. Se você se dispersa, se perde.

A TV ainda te interessa como veículo?

Claro que sim! A TV está maravilhosa, e isso é no mundo todo. Abracei a TV com carinho e vontade de trabalhar. Se não tivesse sido assim, eu é que sairia perdendo. Quem sou eu para dizer agora que a TV não foi importante para mim?

A humildade é uma característica que você soube preservar…

Humildade é muito importante na vida. Você tem de abraçar as coisas com humildade. Se você não a tem, você estanca e não vai adiante na profissão. E um lugar que te obriga a ter humildade é o teatro.

A experiência à frente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos (Sated) te trouxe mais aprendizado ou dor de cabeça?

As duas coisas. Foi uma época da minha vida em que a interpretação foi deixada de lado e me dediquei inteiramente àquilo. Volta e meia, ia a Brasília pleitear a favor do sindicato e dos artistas. E, de fato, os artistas passaram a ser mais respeitados e ouvidos no país.

Por ter de dialogar com políticos teve de lidar com alguma situação vexatória?

Tive, claro, mas consegui sobrepujar isso com elegância. Tanto que nem lembro mais. Gosto de guardar das coisas apenas as boas lembranças.

Aos 66 anos você personificou Chiquinha Gonzaga no teatro, brilhando como protagonista de um musical. Com o que foi mais temeroso de lidar naquela época?

Cantar foi o mais difícil. Não sou cantora, mas uma atriz que canta. Me peguei no fato de a Chiquinha também não ser uma cantora, mas uma instrumentista, uma pianeira, como se dizia, e meti a cara. Gostava muito dessa personagem. Esse foi um trabalho que me deu muito prazer.

Muitos dos teus companheiros de geração não estão mais aqui. Sérgio Britto, Italo Rossi… Qual a maior saudade?

Todos esses nomes foram fundamentais para consolidar o teatro como um segmento no Brasil. Todos eles deixaram um legado. E quando você deixa um legado você não morre.

Fernanda, Othon e você estão nos palcos. Os 90 são os novos 70?

Será (risos)? Sabe que não fico pensando nessa questão da idade? Vou e faço. Se não puder fazer, não faço. Prefiro sempre meter a cara e fazer.

A partir de uma das frases da Iris, peço que responda de bate-pronto: mais é mais, menos é chato?

Menos é muito chato, sem dúvida! Na peça há um apanhado de frases dela e havia muita verdade em tudo o que ela dizia. Menos é realmente muito chato.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e divulgação (imagem)

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