‘Não sou metódica’

julho 16, 2026

Adriana Calcanhotto fala da relação com sua música e com a literatura em encontro acompanhado por NEW MAG no Rio de Janeiro

Dentro de um livro… Assim se sentiu Adriana Calcanhotto quando leu, pela primeira vez, uma obra de Clarice Lispector(1920-1977). O ano era 1974, e a futura compositora tinha em mãos “A mulher que matou os peixes”, um dos poucos títulos em que a escritora aventurou-se pala literatura infantil. Ali, aos 7 anos, a menina passou a enxergar-se como uma leitora e não mais como uma criança.

— O livro não começava com “Era uma vez” e sim com a frase “Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu”. E lá pelas tantas, ela se apresentava como Clarice. Fui à capa e vi que era este o nome dela. Nunca mais vou largar essa mulher – revelou a artista que, com a fala, abriu sua participação em evento no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Centro do Rio de Janeiro.

Calcanhotto participou, no fim da tarde da última quarta (15), do Clube da Leitura, encontro capitaneado pelos poetas Suzana Vargas e Ramon Nunes Mello na biblioteca daquela instituição. E para uma plateia lotada (e mais outra, que acompanhou a transmissão em outra sala), a cantora e compositora falou sobre sua relação com a literatura, com a composição e lembrou o convívio com importantes nomes da poesia brasileira. E NEW MAG acompanhou o encontro com exclusividade.

Adriana anda de fato pelo mundo – e presta muita atenção em tudo. E, nessas andanças, leva consigo um caderno para anotações, ao qual recorre nos traslados entre um destino e outro e quando a espera nos aeroportos é mais demorada do que o previsto. Em uma viagem à China, os amigos estranharam o fato de ela levar uma mala pequena. “E onde você vai trazer suas compras?”, indagaram, obtendo da artista uma resposta coerente:

— O que posso querer comprar na China se tudo hoje no mundo é “made in China” (Feito na China) – rebateu.

A resposta pode até soar petulante, mas não em se tratando de Adriana Calcanhotto, uma das compositoras mais autênticas da nossa música. O bate-papo avançou, e Ramon quis saber se, neste caderno, ela arriscava-se na escrita de poemas, no que a convidada foi taxativa:

— Não escrevo poemas que não estejam associados a uma melodia, seja minha ou a de algum parceiro. Não escrevo a seco.

A artista começou a exercitar-se na escrita utilizando uma máquina de escrever que foi, com o tempo, substituída por uma  mais moderna e, anos depois, pelo teclado do computador. E, aos 60 anos, a cantora desfruta do prazer de escrever a mão. E confessa estar cansada de tanta tecnologia.

— Eu era aquela pessoa que ligava o computador, a televisão, o som e, se bobear, o liquidificador. Hoje, estou me distanciando das telas. Tem uma coisa na escrita a mão que é a da não edição. Folheio meus cadernos e vejo que não há neles rasuras – pontuou Adriana.

O mesmo não poderia ser dito sobre o poeta Waly Salomão (1943-2003), seu parceiro em temas como “A fábrica do poema”, canção-título do terceiro álbum da artista, e “Seu nome mais secreto”. Adriana lembrou de um hábito do amigo, que telefonava logo no início da manhã para ler o poema no qual havia trabalhado.

Adriana diverte-se e entretém o público ao ler um trecho de “Saga lusa”, livro escrito por ela e lançado em 1996

— Nos primeiros momentos, quando o telefone tocava às cinco da manhã, achava que havia morrido alguém, mas não, era o Waly. Ele lia o texto e eu dizia “Que lindo, Waly”, no que ele soltava um “Mentirosa!” e desligava – lembrou a artista, arrancando risos dos presentes.

Com o irmão de Waly, o também poeta e letrista Jorge Salomão (1946-2020), Adriana lembrou a experiência em “Sudoeste”, na qual musicou trecho de um poema do amigo. Para a gravação, incluída de última hora em “A fábrica do poema”, Adriana queria reproduzir na faixa o ruído de copos se estilhaçando. E o objetivo foi alcançado, mas de uma forma engraçada:

— Levei para o estúdio copos de cristal. A gravação foi feita no banheiro e, na hora, o Jorge subiu em cima do vaso segurando a bandeja com os copos, entornados por ele. Não havia celular, e essa cena foi presenciada por mim e por quatro pessoas no máximo – revelou Calcanhotto.

Adriana lembrou que Waly defendia que o poeta deveria se expressar por escrito e que “o compositor que se virasse para musicar o poema”. Antonio Cícero (1945-2024), outro leal parceiro de Adriana,  seguia metodologia oposta à do amigo. Ele criava o poema a partir da melodia do parceiro. Adriana lembrou um diálogo entre os amigos na virada dos anos 1970 para os 80, quando Waly trabalhava numa letra para Caetano Veloso, e Cícero, numa parceria com sua irmã, Marina Lima.

— Eles se telefonavam todos os dias para saber qual deles já havia começado seu trabalho. Cícero já tinha começado e, curioso, Waly quis saber do que tratava a letra. “Eu gosto de ser mulher”, começou Cícero (o verso abre “O lado quente do ser”), sendo interrompido: “Ah, então é uma canção autobiográfica?” – relembrou a convidada, divertindo, mais uma vez, os presentes.

Indagada por Ramon se poderia voltar a organizar uma antologia com a poesia feita no Brasil de hoje, Adriana foi mais uma vez coerente.

— Com as coisas que estão sendo feitas nos blogs, nas redes sociais e nos SLAMs, não há a menor condição de reunir a poesia feita agora. Não tenho a menor pretensão de esgotar nada. O prazer que a organização de uma antologia me dá é o mesmo de criar o roteiro para um show – asseverou. E diante da pergunta se poderia apontar para um único poeta como sendo o da sua preferência, respondeu: — Isso é impossível. Quando acontece, digo que é o Manuel Bandeira porque nenhum poeta irá me contradizer.

Sobre a sua rotina de trabalho e se segue alguma metodologia, Adriana mandou na lata:

— Não sou metódica, sou caótica.

E, como reza aquela pensata de Nietsche (1844-1900), “é preciso haver caos dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina”. E Adriana faz jus a essa máxima com sua arte.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Júlio César Guimarães (imagens)

Adriana entre os poetas Ramon Nunes Mello e Suzana Vargas, mediadores do encontro

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