‘Adoraria compor com Marina’

junho 19, 2026

Roberto Frejat viaja o país com duas turnês e fala da perda do pai, celebra talentos da música, revela-se fã de séries e diz querer cantar com Alcione

Nos países anglófonos, cunhou-se na imprensa e no meio musical, o termo guitar hero. No Brasil, temos alguns heróis da guitarra, e Roberto Frejat figura – por mérito e direito – neste panteão. Fundador do Barão Vermelho, grupo que, em 1982, ajudou a inserir o país no mapa da cena roqueira, ele construiu –  em especial com Cazuza (1958-1990), o mais profícuo dos seus parceiros – um cancioneiro de responsa. Com a saída do amigo do grupo, Frejat assumiu os vocais da banda. E, hoje, colhe os frutos. Voltado à carreira solo desde 2017, ele é, aos 64 anos, não somente um herói da guitarra como um cantor de timbre apurado. E dá provas disso em dois projetos com os quais excursiona concomitantemente: o show “Frejat ao vivo” e a turnê “Barão Vermelho Encontro”, na qual o grupo volta à cena com quatro dos cinco integrantes originais: Guto Gofi, Maurício Barros e Dé Palmeira. “Quando o show termina, vem aquela sensação de ‘poxa, acabou?’”, comenta Frejat, por telefone, nesta entrevista ao NEW MAG. A seguir, ele fala da alegria de reencontrar os antigos companheiros, resigna-se pela perda do pai, o político José Frejat (1924-2026) dias antes de iniciar a turnê, relembra encontros artísticos com Gal Costa (1945-2022) e com Simone, revela desejos como o de cantar com Alcione. E, por fim, é categórico num ponto: “Quero tocar até quando for possível”. Que esta possibilidade perdure muito ainda.

Aquele garoto que, em 1986, foi alçado a cantar é hoje, aos 64 anos, um cantor de timbre encorpado e personalíssimo. O futuro do cantor chegou a ser duvidoso?

Nunca me vi como cantor até o momento em que precisei estar nesse lugar. No Barão, fazia vocais de apoio, backings, sem a pretensão de estar na liderança. Fui gostando e também tomei umas rasteiras como a da vez em que abusei da voz num show e, no dia seguinte, estava afônico. O aprendizado foi grande. Hoje, posso dizer que estou à vontade neste lugar. Quando pinta algum problema técnico com a guitarra, olho para o roadie, ele resolve a questão e eu continuo ali cantando. O canto não pode ser interrompido.

Você estava reticente em relação a esse reencontro. Havia o temor de não dar mais liga?

A questão não era exatamente essa. Meu receio era o de que as pessoas entendessem que se tratava de uma volta do Barão, ou mesmo da minha volta ao grupo, quando a proposta é clara no sentido de se tratar de um reencontro, como aconteceu com os Titãs (sete integrantes da formação original reuniram-se, em 2023, na turnê Titãs Encontro). Não queria entrar naquela roda-viva de ter que ter música nova, pensar em álbum e, com isso, suscitar nas pessoas outras expectativas. A banda continuou sem mim. Acontece que temos uma obra e entendemos isso. A proposta é a de um reencontro entre os quatro remanescentes da formação original, e estamos ali para nos divertir também.

Você conciliou o luto pela perda do teu pai com as expectativas pela estreia da turnê. Como foi estar no meio desse fogo cruzado?

Falei sobre isso, há poucos dias, com minha mãe. Uma pessoa que, como o meu pai, chegou aos 102 anos, está ali no bônus da sua existência. O esperado é que vivamos 80, 90anos e passar disso é um privilégio. A probabilidade de perder alguém com essa idade é iminente. Então, eu estava preparado, claro que não completamente. Ele ia aos shows, gostava de me ver tocar… Poucas coisas hoje me dão a sensação de felicidade, de preenchimento da realização do que subir no palco e tocar.

Pego um verso que adoro de uma parceria tua com a Dulce Quental e pergunto: todo mundo é parecido quando sente dor?

A dor é a mesma. A maneira como cada um reage a ela é que é diferente. Falamos da perda do meu pai, mas foi duro fazer São Paulo um tempo depois da perda do Carlini (Luiz Carlini, um dos integrantes da Tutti-Fruti, banda que acompanhou Rita Lee em álbuns antológicos). Ele era um amigo querido, uma espécie de irmão mais velho. A música é mesmo muito poderosa: ela toma conta de você, e você vai e enfrenta todos os obstáculos.

Ney e Caetano legitimaram, lá nos anos 1980, o Frejat compositor…

A Sandra Sá também. É importante e justo citá-la. Ela deixou a gente abrir um show dela no Morro da Urca e isso foi muito generoso da parte dela.

 E quem Frejat legitima hoje?

Muita gente boa… A Ana Frango Elétrico, a Letrux e grupos como Seu Pereira e o Coletivo 401, uma banda da Paraíba. Adoro as coisas que eles fazem. Tem também uma banda de Fortaleza da qual gosto muito que é a Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, que é muito boa. Adoro o Johnny Hooker também.

Com quem gostaria de fazer uma parceria e que ainda não foi possível?

Adoraria fazer algo com a Marina Lima, com quem, acredite, nunca compus! Adoro também a Adriana Calcanhotto, que é muito bacana. Cheguei a cantar nos shows “Vanbora”, que é uma música que adoro. Agora, quanto a cantar junto, adoraria fazer algo com a Alcione. Estamos nos devendo isso.

No Acustíco da Gal vocês cantam Paula e Bebeto. Chegou a sugerir que fizessem Todo amor que houver nessa vida, gravada anteriormente por ela?

O convite me chegou pelo Mazzola (Marco Mazzola, produtor musical) já com a música definida. E adoro aquela canção, que é do “Minas” (álbum de Milton Nascimento lançado em 1975), um disco que foi muito importante na minha formação, assim como o “Geraes” (lançado no ano seguinte). A Gal era sempre muito amável e, naquela ocasião, foi muito generosa. A canção tem um andamento muito marcado e uma letra que pode te confundir, então ela sugeriu de não inventarmos nada. “Não dá”, ela alegou. E não dava mesmo para fazer firula. Gosto do encontro das nossas vozes. Gal era muito doce.

E, em 2001, você veio a cantar com Simone “Seda pura”, parceria sua com Cazuza e até então inédita…

Sabe que quando Cazuza e eu fizemos a canção, pensamos na Simone de cara. Essa música ficou perdida e, não sei se por intermédio da Lucinha (Araújo, mãe de Cazuza) chegou à Simone. A gravação ficou linda e naquele álbum ela gravou outra canção minha em parceria com a Dulce (“Antes de acordar”). A Simone é uma pessoa maravilhosa. Adoro ela.

Caymmi pintava. Paulinho da Viola lida com marcenaria. O que Roberto Frejat faz nas horas vagas?

Quando não estou tocando, meu hobby é o de ouvir música (risos), outras coisas que o trabalho não deixa. Gosto de assistir a filmes em casa. Uma coisa que me pegou legal são as séries, sobretudo as policiais. Sejam elas norte-americanas, inglesas, nórdicas ou francesas, elas me interessam. Assisto a várias sem parar.

Rafael, seu filho, segue na música e faz-se presente nesta turnê do Barão. A escolha dele pela música chegou a te preocupar?

Percebi isso há muito tempo. A dedicação e a concentração dele são tocantes, e eu me reconheço nessas características. Ele nunca se intimidou na hora de opinar sobre algo e faz isso com segurança. Ele toca conosco na turnê, e noto que os músicos o elogiam, e isso é uma conquista dele. O fato de ele ter uma visão nova das coisas que já fiz também é muito bacana. Trabalhamos juntos no show do blues (“Frejat in blues”), e o Rafa não tinha cerimônia ao dizer que um determinado arranjo não estava bom. Sem falar que ele é muito organizado em relação ao trabalho, e isso me agrada muito. O Rafael tem uma musicalidade superior à minha e é muito bom tocar com ele.

Belotto disse que nos camarins a garrafa de uísque foi substituída pela máquina de café. De qual velho hábito gostou de ter se livrado?

Nunca fui fumante. Nunca tive esse karma. Bebia razoavelmente. Nunca fui contumaz. Então, nunca tive um mau hábito para abandonar.

A maturidade é uma bênção ou uma condenação?

Uma bênção. Ela te dá a tranquilidade para encarar a vida sob outra ótica. Aquilo que te angustiava lá atrás ganha outro peso. É claro que o envelhecimento traz uma série de limitações: a visão piora, a locomoção também… Por isso a necessidade do trabalho. O contato com o público é revigorante. A animação da garotada me emociona. O palco é para mim o Elixir da Juventude.

Os oitentões da música estão abolindo turnês internacionais. Pegar leve ou parar por completo? De onde virá o aviso quando for a hora?

O corpo irá te dizer. Adoro encarar a estrada. Lidar com aeroporto é a parte chata. Agora, estar no palco, em contato com o público, é mesmo revigorante. Nesta turnê, tocamos ao longo de pouco mais de duas horas. Quando o show termina, vem aquela sensação de “poxa, acabou?”. Estar ali é de fato prazeroso. Quero cantar e tocar até quando for possível.

Para quem ou para o que pedir piedade hoje?

Para essa gente que teima em não ver a realidade e que vive num mundo paralelo. Há no Brasil, há muito tempo já, um projeto de deseducação, e ele só fez crescer ao longo dos anos. O último governo colocou em prática todo um projeto de desconstrução da nação. A geração dos meus pais e a minha procuravam se inteirar, dentro do possível, dos fatos. Sempre li jornais e busquei me informar através de fontes confiáveis. E há pessoas que vão hoje numa corrente oposta, com as quais é impossível conversar. O que vemos hoje é sinistro.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Leo Aversa (imagem)

 

 

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