‘Ela fez da voz sua retidão’

junho 18, 2026

Nos 80 anos de Maria Bethânia quatro grandes poetas interpretados por ela falam do seu legado na arte

Já foi dito que a voz dela é a “de uma pessoa vitoriosa”. “Dona do dom que Deus” lhe deu, ela é “amiga dos ventos” e, ao mesmo tempo, “a chuva que lança a areia do Saara” para além de quaisquer estruturas. E, por isso, seria injusto limitar o timbre único de Maria Bethânia ao perímetro da música. Betânia amplificou, através de seus espetáculos e álbuns, as falas de escritores, brasileiros e portugueses, universais e atemporais. E também de autores do seu tempo.

E, por isso, neste dia em que a cantora completa 80 anos, NEW MAG ouviu quatro nomes cujas palavras já foram levadas pela artista à cena. São eles Bruna Lombardi, Eucanaã Ferraz, Fausto Faucett e Luiz Carlos Lacerda. A eles foi feita a pergunta: o que Bethânia trouxe de mais significativo à Cultura brasileira. E as respostas são tão diversas quanto as possibilidades artísticas exploradas pela aniversariante ao longo de seis décadas de vida artística.

O palco é onde Bethânia apresenta-se na sua completude. Em depoimento para o livro que, em 1981, reuniu imagens feitas da artista pela fotógrafa Marisa Alvarez Lima (1935-2022), a cantora definiu a relação com a ribalta na frase: “É aquela situação de estar ali, no trapézio. E eu adoro o mergulho”. Para uma artista em nada afeita a redes de proteção, os versos de Bruna Lombardi (“Você pode me empurrar pro precipício/ não me importo com isso/ eu adoro voar”) traduzem bem a relação da cantora com seu ofício. Não à toa, Bethânia as incluiu no show-palestra “Bethânia e as palavras”.

— O que ela traz de mais significativo à Cultura é ela mesma. Bethânia é a personificação da poesia, da música, da magia, do sagrado e do mistério. Ela tem essa grandeza exposta e perceptível aos olhos de quem a observa e a acompanha. Assistir à Bethânia é realmente compreender que ela é uma entidade que canaliza com um poder maior. Existe um poder maior ali, como o de receber algo maior do que a vida — pontua Bruna à reportagem, aprofundando-se na questão:  — É uma dimensão do que há de mais belo e poderoso na criação. Ela está a serviço, e não existe poder maior do que o de estar a serviço. Bethânia é uma dedicada servidora: tem disciplina, entrega e é de fato perfeccionista, tem uma busca constante e nunca para de buscar.

Maria Bethânia em 1990, quando celebrou 25 anos de carreira

E, neste quesito, a cantora é incansável. O fato de ser reclusa e discreta não significa que esteja alheia a seu entorno. E tem nos amigos uma ponte com o que há de novo. A artista preparava o álbum e o espetáculo com que, em 1990, celebrou seus 25 anos de carreira. quando pedu a Regina Casé que a ajudasse na escolha dos textos. A atriz lhe presenteou com um livro de Fausto Faucett com a justificativa: “Aqui, você vai encontrar tudo o que precisa”.

E de fato, Bethânia encontrou. Ela não somente utilizou as falas do poeta e letrista na contracapa do referido álbum como levou seu texto  ao espetáculo galgado no projeto, dirigido por José Possi Neto. Procurado pelo site, Fawcett destaca o poder que a artista tem de nos levar ao que ele classifica como “outras frequências emocionais”:

—  Maria Betânia é uma força da natureza artística que vem, há décadas, nos encantando, fascinando e que, principalmente com sua voz, suas interpretações musicais e leituras poéticas, leva-nos para outras dimensões, outras paisagens mentais e a outras frequências emocionais. Presença xamânica no palco, abduzindo todos para o seu universo, para o seu imaginário ao mesmo tempo amoroso e rascante, e totalmente sedutor.  Ela é um ponto de exclamação no cenário artístico nacional e internacional. Bethânia é o que há.

Esse amálgama entre o canto e a fala, através do qual a artista exacerba a verve de intérprete, foi percebido de cara por um de seus grandes amigos. A partir da parceria artística com Fauzi Arap (1938-2013), Bethânia passou a difundir no palco aquela que é até hoje uma de suas marcas: a da teatralidade. Esse é um dos pontos destacados pelo poeta e cineasta Luiz Carlos Lacerda. Bigode, como é chamado pelos amigos, teve um de seus textos incluídos em um dos shows históricos da cantora: “Drama, luz da noite” (1972), no qual ela foi dirigida por Antonio Bivar (1939-2020)e por Isabel Camara (1940-2006).

— Além de cantora, Bethânia é uma senhora intérprete. E só dois nomes da música têm essa característica no Brasil: ela e Nana Caymmi. E, em se tratando da Bethânia, Fauzi Arap foi o diretor que percebeu isso e, ao lado de quem, ela exacerba essa vertente em shows como “Comigo me desavim” e “Rosa dos Ventos”. A partir desses trabalhos, a Poesia subiu aos palcos do Brasil – aponta Lacerda, cujo texto é comumente incluído por Bethânia em espetáculos mais recentes.

Maria Bethânia no show “Drama, luz da noite”, de 1972

Nana Caymmi (1941-2025) foi merecidamente homenageada pela amiga no show com que Bethânia celebrou, ano passado, seus 60 anos de carreira. Este tributo se deu com… poesia. Mais exatamente com “A voz de Nana”, texto de Eucanaã Ferraz que Bethânia incorporou ao roteiro.

— O tesouro compartilhado por Bethânia é incontável. Ela traz coisas muito antigas com ela. Vou dizer que ela trouxe sua terra. Sua terra está nela, e isso deu uma qualidade sólida à sua voz e à sua presença. A sua solidez é sempre física e exala uma ética da presença – explica Eucanaã, destacando ainda: — Sua solidez é moral. Ela fez da sua voz a sua retidão. Por isso, o nome Maria Bethânia é uma reunião de sons da língua portuguesa que evoca o mais alto caráter de nosso povo. Vinicius (de Moraes) disse que ela é uma árvore. É exatamente isso.

Não uma árvore qualquer. Uma sumaúma, espécime que, além da altivez, tem o dom de embeber com sua água a Natureza nos momentos de estiagem. Uma árvore ilustra bem o religare entre Terra e céu. E, dentro desta simbologia, Bruna Lombardi tem algo mais a dizer:

— Há no livro que estou lançando uma frase que diz exatamente o que a Bethânia tem e é: a devoção ao mistério, devoção a esse poder maior. Quando a gente assiste à Bethânia, quando temos este privilégio extraordinário de presenciar o trabalho dela, não se trata só de testemunhar um talento em altíssimo grau, mas de ter a prova de uma grande conexão com o Divino.

Divina e, na sua arte miraculosamente e genuinamente brasileira. E, através deste amálgama que é ela própria, lê e interpreta seu país num resultado ao mesmo tempo peculiar e universal.  E sempre comovente. Feliz aniversário, Maria Bethânia!

Créditos: Christovam de Chevalier (texto), Divulgação (alto), Marisa Alvares Lima e Thereza Eugênia (imagens)

 

 

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