‘O trabalho vem primeiro’

junho 8, 2026

Zécarlos Machado fala do desafio de viver Bento XVI no teatro e celebra o reencontro com Celso Frateschi em ‘Dois papas’

Eles são o que é conhecido no métier como bichos de teatro. Integraram o Tapa, um dos mais respeitados grupos teatrais do país, mas não foi lá onde se conheceram. Isso só aconteceu em 1985, quando integraram o elenco de “Santa Joana”, de Bernard Shaw (1856-1950), em montagem estrelada por Esther Góes e dirigida por José Possi Neto (“um espetáculo plasticamente muito bonito, com as características do Possi”). Ali, Zécarlos Machado e Celso Frateschi trabalharam juntos pela primeira vez. E interpretaram, respectivamente, um padre e um bispo.

Os dois se reencontram no palco – e como duas autoridades eclesiásticas. “Veja que coincidência”, reconhece Zécarlos que dá vida ao papa Bento XVI (Joseph Ratzinger, 1927-2022) em “Dois papas”, peça na qual Fratesch vive o então cardeal Jorge Bergoglio (1936-2025), que viria a tornar-se o Papa Francisco. A montagem brasileira do texto de Anthony McCarten aporta no Teatro Total Energies, Rio de Janeiro, a partir desta sexta (12), após bem-sucedidas temporadas em São Paulo.

O reencontro entre os dois colegas é celebrado por Zécarlos Machado nesta conversa com NEW MAG. O parceiro de cena – com quem trabalhou também na TV em “Sessão de terapia”, num único episódio do qual Frateschi participou – é comparado por ele a um ídolo do futebol, o maior que o país já teve, aliás.

— Celso é um jogador, um grande jogador, é um… vou chamar assim de um Pelé. Ele é o Pelé em cena. Jogar em cena com ele é também um escândalo de maravilhoso. Acho que a gente consegue resultados, e o bate-bola entre nós tem sido muito estimulante – celebra o ator, que divide a cena também com Carol Godoy e Eliana Guttman.

O entrosamento entre eles vem também da forma como lidam com a profissão. E isso vem muito do fato de terem feito, por anos, teatro em grupo, em trajetórias que correram de forma concomitante.

— O Celso tem uma formação que vem lá do Teatro de Arena, um trabalho questionador e ligado às questões sociais e sempre com um pensamento consequente por trás —avalia o ator, acrescentando ainda: — Venho também de uma trajetória semelhante com as peças que fiz. Os grupos dos quais participei, como formador de grupo, com os autores que eu tive na minha trajetória, de Oduvaldo Viana Filho a Tchekov, passando por Jorge Andrade e Tony Bivar… Enfim, são trajetórias de dramaturgos semelhantes ao que o Celso também tem trabalhado.

Zecarlos e Frateschi nas peles de Bento XVI e do então cardeal Bergoglio

E por falar em trabalho, o fato de personificar uma figura da História recente não significa que a construção da personagem tenha sido mais fácil, pelo contrário. O caminho trilhado leva-o ao que ele chama de uma floresta , como explica:

— Tudo é trabalho. Para mim, sempre foi assim. Não acredito nessa ideia de talento como algo que surge pronto. O trabalho vem primeiro, e é dele que nasce a inspiração. Seja um personagem que existiu ou um criado do zero, o processo começa com investigação. Você entra numa floresta. No caso de figuras históricas, especialmente um papa, carregamos conceitos e preconceitos estabelecidos. Mas, à medida em que a pesquisa avança, você entra na floresta do Vaticano, do pontificado, dessa persona, e acaba se surpreendendo.

E elas, as surpresas, fizeram-se presentes. O gosto pela música e o dom para o piano são características que fizeram com que o intérprete enxergasse a figura humana para além da pecha austera comumente imposta por Bento XVI.

— Ele publicou mais de cem livros, além de inúmeros ensaios e textos voltados à Igreja, à catequese e à instituição que tanto prezava. No imaginário coletivo, costuma ser visto como um papa conservador, de linha dura. E, em certa medida, foi isso também. Ao mesmo tempo, era um homem apaixonado por música, tocava piano e admirava compositores como Mozart, Schumann e Smetana.

Para David Mamet, um dos papas do teatro contemporâneo, tudo está no texto. E, a partir deste ponto, para Zécarlos, a dramaturgia de McCarten mostra bem as nuances da personagem por ter sido escrita a partir de uma extensa pesquisa sobre aquele universo.

—  A primeira cena da peça mostra Bento XVI em um encontro com sua freira de confiança, amiga e colaboradora na edição de seus livros. É uma relação que revela um homem dedicado ao trabalho intelectual, mas também alguém que aprecia uma conversa, uma cerveja e momentos de convivência. A peça apresenta um Bento XVI mais humano do que a imagem normalmente associada a ele – arremata.

E, em se tratando de Zécarlos Machado, para quem a profissão do ator é também um sacerdócio, sua palavra não deve ser usada em vão. E, muito menos, profanada.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Ale Catan (imagens)

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