Articulada, engajada, bem informada, sensível e sensata. Os predicados vêm bem a calhar quando se trata de Marina Person. E foi com essas credenciais que a atriz e diretora tomou para si, em fevereiro deste ano, os holofotes da 76ª Berlinale. Ela não estava ali a passeio, mas para promover “Isabel”, comédia de Gabe Klinger, da qual Marina é atriz e corroteirista. Na trama, vemos uma São Paulo mais suburbana, com casinhas coloridas que remetem ao bairro fluminense de Irajá. Nesse local, a sommelier Isabel (Marina) zanza entre o chamego do DJ francês Fred (Gregory Chastang) e a amizade pétrea do futuro expert em bebidas Nico (Caio Horowicz). Ela está cansada de seu patrão, o chef Tommaso (Marat Descartes), e pensa em mudar de ares. E, neste quesito, a própria Marina é catedrática. Ela joga nas 11 e não é de hoje. Tendo conquistado uma legião de fãs como Vj na hoje extinta MTV, Marina estava fadada a brilhar – e no cinema, cuja paixão herdara do pai, o cineasta Luiz Sérgio Person (1936-1976). “Isabel” terá uma de suas primeiras exibições no país em agosto, quando participa do Festival de Gramado. A seguir, a artista fala da relação com sua personagem, defende o cinema como forte alicerce da nossa identidade, celebra a boa acolhida às nossas produções no exterior, fala do aprendizado da relação com a enteada e defende a tolerância como ferramenta para o convívio entre as diferenças. “É mais fácil para as pessoas virar as costas àquilo que não está bom para elas”, critica.
por Rodrigo Fonseca*
Sua atuação foi celebrada na Berlinale como se fosse uma Diane Keaton no Brasil. O que esse trabalho mais te exigiu e o que trouxe para você?
Esse é um filme sobre a busca de um sonho. É sobre olhar e voltar e ver se a gente pode arriscar. Isabel não é uma diletante. É uma mulher de 50 e blau que quer mudar. O problema é que os homens à volta dela, mesmo os muito legais, têm uma situação em que são levados a se afastar. Tem um demonstre do masculino. Mas ela é livre, tá pronta para arriscar.
Como se criou esse lado Diane Keaton da personagem?
Eu ouvi uma coisa muito bacana na sessão de estreia do filme, em Berlim: a força da Isabel está na vulnerabilidade dela. Ela não é mulher para passar a vida fugindo de patrões como o Tommaso, mas os boletos chegam.
Como é que a recepção fortíssima ao filme, neste ano em que haviam 13 produções com o Brasil no DNA na Berlinale, amplia a visibilidade do nosso audiovisual?
Estávamos na Panorama do Festival de Berlim representando o cinema brasileiro que é o mesmo que representara nossa identidade. Um país sem cinema é um ‘não-país’, pois a gente é feito de nossas histórias. Agora, com o Oscar de “Ainda Estou Aqui” e com “O Agente Secreto” bombando nos grandes festivais, e no Globo de Ouro, é muito feliz ter estado em Berlim. Nós somos um entre tantos.
Como é o desenho de cidade que “Isabel” retrata?
O Gabe nasceu em São Paulo, mas foi para o mundo cedo… foi estudar fora, fazer carreira no exterior. De uma certa forma, ao retratar a sua cidade de berço, ele demonstra um empenho em criar raiz. Mas a São Paulo dele não é a metrópole idealizada… é um desejo de cidade… um desejo de uma São Paulo de ruas de paralelepípedos e bares de esquina. É um jeito de se enraizar sem perder a liberdade, um pouco como acontece com muita gente no filme.
Você dirigiu filmes onde o aspecto da maternidade ganha destaques potentes, ao mesmo tempo em que já encarnou figuras maternas antes, como é o caso do filme “Canção da Volta”. A Isabel tem mãe, interpretada pela Clarisse Abujamra, que entra em cena em participações hilárias… de cumplicidade. Como é essa mirada materna no seu trabalho?
Eu não sou mãe biológica, mas sou madrasta… e tenho um lado protetivo, um tanto acolhedor com as pessoas de que eu gosto. Procuro ser tolerante, conversar, saber ouvir. Já tive aquela fase da falta de saco, de não engolir as coisas. Percebi que é sempre mais fácil para as pessoas virar as costas àquilo que não está bom para elas, antes de conversar, e tento não ser assim.
*especial para o NEW MAG
Crédito da imagem: Reprodução/ internet





