‘Tive coragem e saí dos casamentos’

maio 29, 2026

Nívea Maria brilha no teatro e fala sobre resiliência, rupturas pessoais e profissionais, celebra parcerias na arte e opina sobre as novelas de hoje

Uma atriz de verdade tem o dom de iluminar o ambiente em que se encontra, seja ele o set ou a cena. Assim é com Nívea Maria. Ela não é somente uma grande dama da teledramaturgia, mas alguém que exerce seu mister aliando talento, vocação e dignidade. E isso se dá há pouco mais de seis décadas, desde que a atriz fez, na hoje extinta TV Excelsior, sua primeira aparição na tela. E, através da TV, Nívea mostrou diferentes faces e facetas. Coragem para tanto nunca lhe faltou. E, munida desta, ela encara nova incursão pelo palco. Em “Querida mamãe”, de Maria Adelaide Amaral, Nívea é uma mulher que, como toda mãe, vive naquele limiar entre o acolhimento e a repulsa, o aplauso e a censura, numa construção pautada pela sensibilidade. Ao seu lado está Regiane Alves e, juntas, estabelecem um embate cujas nuances são bem pontuadas pela direção de Pedro Neschling. “Quero continuar trabalhando com os grandes atores e diretores”, celebra Nívea que completa, em 2027, oito décadas de vida. Nesta entrevista por telefone, a atriz fala da coincidência de elencar no teatro trabalhos seguidos em que a homoafetividade é uma das tônicas. A atriz fala também das rupturas na vida pessoal que resvalaram também na cena,  lembra parcerias com Marília Pêra (1943-2015) e Bibi Ferreira (1922-2019) e opina sobre a TV de hoje: “Telenovela se faz prendendo a atenção do público pela emoção”. E Nívea Maria tem, neste quesito, notório saber.

Em dois trabalhos recentes, Norma e Querida Mamãe, você é mãe de personagens que vivem relações homoafetivas. Estes trabalhos te deixaram mais envolvida com esta temática?

Acho que sempre estive e uma das funções do teatro é a de levar à cena questões voltadas às relações humanas e familiares. Estamos evoluindo, e o teatro precisa refletir isso, uma vez que temos hoje mais diálogos apesar de o preconceito existir, e ele está relacionado a outras tantas temáticas.

Em uma fala, sua personagem diz: Sou do tempo em que as pessoas não se separavam. Separar-se é um ato de coragem?

Acho que sim. Tive coragem e saí dos meus dois casamentos. Do primeiro como desquitada (a Lei do Divórcio foi promulgada no Brasil somente em 1977) e, do segundo, como divorciada. E isso vem da minha mãe, uma mulher generosa e liberal que me apoiou em muitas das minhas decisões.

A partir da tua personagem, de bate-pronto: o que a Nivea tem de vanguardista e o que tem de conservadora?

Sou conservadora quando prezo o respeito pelo espaço do outro, e isso vem da educação que tive. O respeito deveria ser regra, mas não é o que vemos hoje. Fui corajosa ao me fazer respeitar nos relacionamentos que tive, e eles duraram o que deveriam. Minhas relações foram pautadas pelo respeito e pelo afeto. Sou do diálogo, do olho no olho. Adoro tecnologia, mas acho que a sinceridade é o mais importante na vida.

Algum arrependimento relacionado à rotina extenuante da televisão?

Nenhum. A rotina na TV fez com que não acompanhasse tão de perto a vida dos meus filhos. Ok. Quero agora outra dinâmica em relação aos meus netos.

A Sauna foi uma comédia ousada na sua trajetória. Imagino que Bibi Ferreira tenha sido peça-chave para descontrair o clima nos ensaios ou ela era muito rígida?

Não diria que rígida, mas perfeccionista. Ela falava pouco e sempre vinha com observações pontuais. Bibi foi fundamental para me tirar daquela nuvem em que estão as atrizes de novelas românticas. Ela fez com que me despisse de verdade (as atrizes despiam-se na cena final) sem medo de dedos apontados e de críticas.

Calhou de você trabalhar no teatro com diretores que eram também grandes atores…

Estava afastada do teatro e foi o Cecil (Thiré) quem me trouxe de volta (em “Um piano à luz da lua”, em 1987). Agora, com o Pedro (Neschling), tem isso de ele ser um diretor mais jovem e trazer ideias novas, e esse desafio é muito gostoso. O trabalho do diretor ganha mais relevância quando ele permite-se escutar o outro. E isso aconteceu com todos os diretores com os quais trabalhei no teatro. A partir disso você estabelece amizades que podem ser eternas.

Em Brega e Chique você teve como colegas uma grande dama dos palcos e uma da TV. Como foi a convivência com Marília Pêra e com Glória Menezes?

Era a melhor possível. Já havia trabalhado com a Glória em São Paulo, na TV Excelsior, e Marília e eu havíamos feito uma novela em que éramos irmãs (“Uma rosa com amor”, exibida pela TV Globo em 1972). E por isso, ela me chamava de Maninha. Nossas personagens disputavam o mesmo homem (Herbert, interpretado por Jorge Dória) e isso deu à minha personagem o lugar de terceira protagonista. E o elenco trazia ainda Raul Cortez, um grande astro da TV e dos palcos. Fui privilegiada por trabalhar com as duas. Com a gente não tinha esse negócio de ego. Nunca me envolvi nesse tipo de conflito. Quero ter prazer nos trabalhos que faço.

Em A Casa das 7 Mulheres você construiu uma personagem muito rica em nuances e coloraturas. A minissérie dá mais poder de voo ao ator?

O Jaime Monjardim é um diretor com a característica de nos apresentar a personagens fantásticos. A favor do ator estava também o texto da Maria Adelaide Amaral, escrito a partir de uma obra literária (o livro homônimo de Letícia Wierzchowski). A trama estava ambientada numa guerra e, com isso, as mulheres precisaram ter mais autonomia. Meu papel era o de uma mãe linha-dura, e a personagem acabou se destacando pela dureza e pelo distanciamento. Naquela ocasião, estava saindo de um casamento (com o diretor Herval Rossano) e acabei me utilizando daquela mulher como uma armadura para me proteger dos meus próprios problemas.

As guinadas estão necessariamente relacionadas a momentos pessoais?

As experiências pessoais me enriqueceram. A partir delas os personagens ficam mais ricos. As lições que a vida nos traz melhoram tudo e, no caso do ator, o personagem ganha uma densidade, um peso, vira protagonista daquela estória.

O tempo de duração de uma novela precisa ser repensado? O formato está obsoleto?

A questão não é o tempo, não está na duração, mas a qualidade. A novela tomou conta da dramaturgia. Antes, a preparação para uma cena era próxima de como se faz no teatro: a gente ensaiava e gravava. Agora se faz uma mesma cena de diferentes maneiras. O diretor precisa de lastro, mas, em alguns casos, isso fica mais cansativo do que necessário. São mais câmeras, e a tecnologia tomou conta, não tem jeito. Há muitas concessões hoje em dia, mas, se não tiver emoção, o público vai abandonar aquela trama. Telenovela se faz prendendo a atenção do público pela emoção.

O que a Nivea empresária ensinou à Nivea atriz?

Nunca me vi como empresária. Não tenho esse lado. O Dois em cena (restaurante montado por Nívea juntamente de Herval Rossano e André Nunes) foi realizado num momento em que estava de férias e queria experimentar outro tipo de contato com o público. Gosto de estar à mesa e de conversar. Então, a ideia de um restaurante me entusiasmou. E a qualidade do resultado foi maravilhosa! O fato é que tenho outras sensibilidades e gosto de trabalhar.

Irene Ravache me disse aqui que nunca interpretou um papel masculino. O que falta ainda realizar?

Fiz um homem em “Êta, mundo melhor!”, então essa alegria eu tive. Foi uma proposta do Walcyr (Carrasco, autor da trama) numa ousadia que deu certo. Crio as personagens para que tenham o melhor de mim. Quero continuar trabalhando com os grandes atores e diretores e quero ter saúde para tanto.

Estar próxima de completar oito décadas de vida te deixa serenizada ou apreensiva?

As duas coisas. Tenho a saúde boa. Recentemente uma gripe me pegou e afetou minha voz. Não estava 100%, mas fiz questão de estar ali no teatro, exercendo meu ofício. Tenho a responsabilidade de me cuidar para corresponder ao trabalho, e ele é puxado! Mas estou tranquila em relação ao que construí. A gente recebe da vida o que merece.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Leo Aversa (imagem)

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