O encontro de três vozes conectadas pela ancestralidade, pelo resgate e, claro, pela música. E tendo como caminho o mar. Mais exatamente as travessias dos povos escravizados pelo Atlântico. Este é o fio condutor de um documentário que une Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago. “O som entre nós”, curta-metragem dirigido por Helder Frutera e Cisma, amplia o universo presente no álbum “Criolo, Amaro & Dino”.
O filme chega nesta quinta-feira (28) aos canais oficiais dos artistas no YouTube. Mais do que um registro de bastidores, o curta acompanha a trajetória de cada músico e revela como diferentes territórios, experiências e referências culturais se encontram. A produção apresenta não apenas o processo criativo do álbum, mas também a relação construída entre os três artistas ao longo dos encontros.
— O documentário celebra uma amizade, o tempo, a presença e a música, nos abraçando a cada instante. É um trabalho que se torna especial porque quebramos um pouco a lógica dos encontros que estão visando transformar a música em um produto. Ela é o caminho e o resultado de uma amizade, porque nós nos entendemos e estávamos passando por situações complicadas. Sabíamos que os encontros iam nos fazer bem. Quando nos vemos, fica tudo mais leve — afirma Criolo, que segue falando da alegria em trabalhar com os músicos: — É uma honra e uma felicidade poder viver tudo com Amaro, esse artista genial, e com Dino, uma das vozes mais incríveis que já escutei em toda a minha vida.
Vindos de universos musicais distintos, eles transformam as diferenças em conexão: Criolo parte da força poética das periferias paulistanas, Amaro, pianista e compositor, segue reinventando o jazz brasileiro contemporâneo, enquanto o cantor português Dino mistura ritmos tradicionais de Cabo Verde — país do qual tem ascendência — com hip-hop, R&B e afro-house. Para este, que no documentário interpreta “Petit Pays”, clássico de Cesária Évora (1941-2011), o curta registra algo que ultrapassa a música e se aproxima de uma experiência espiritual e coletiva:
— Ainda não estou em mim, tal foi o impacto do que senti no âmago da minha existência. Sinto que o que realmente nos uniu e a energia primordial que fez com que este encontro se materializasse está aqui espelhado e eternizado pelo vosso olhar e acima de tudo sensibilidade. Quando terminou o filme, fiquei com aquela sensação de que queria fazer parte da vida daqueles três pretos, sonhados numa travessia transatlântica. Este filme cura-me e sei que vai curar muita gente desta nossa constelação umbilical africana, moldada na língua portuguesa.
Já Amaro vê o projeto como uma manifestação da potência cultural da diáspora africana.
— É um encontro que só foi possível porque existe a arte, que nos conecta com a nossa humanidade e nos mostra o que é necessário para a vida e o quão bela é a existência. Essa manifestação afro-brasileira e afro-lusitana nos mostra que a conexão vem através do tambor. Quando se juntam três pessoas que vêm de realidades sofridas e desiguais, é impossível não ter nada para dizer — arremata o pianista.
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