Voando alto

maio 25, 2026

Ritchie e a lenda Steve Hackett voltam a se encontrar em nova versão de música que gravaram juntos 44 anos atrás

Eles têm no rock progressivo um elo na música. Ambos são britânicos, mas só vieram a se conhecer no… Brasil. Isso mesmo. Mais exatamente em Itaipava, cidade serrana do Rio de Janeiro. Sim, era 1980 e foi lá no município fluminense, onde, refugiados do Carnaval, Ritchie e Steve Hackett se conheceram. Um dos fundadores do Genesis, cuja formação integrou entre 1971 e 1977, Hackett namorava uma brasileira e, volta e meia, dava as caras por aqui.

— Sempre que vinha ao Rio, ele me telefonava para combinarmos uma corrida na Vista Chinesa ou em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas – recorda-se Ritchie que, na época, não havia ainda despontado como ídolo pop: — Eu ainda ganhava a vida dando aulas de inglês, mas já atuava na cena musical carioca, em bandas como a Barca do Sol, Soma e Vímana (esta juntamente de Lobão e Lulu Santos).

Em 1982, aproveitando que Rackett estava no Rio, Ritchie convidou o amigo para tocar guitarra na gravação de uma canção composta com o poeta e letrista Bernardo Vilhena. A música em questão era “Voo de coração” que acabaria por dar título ao primeiro álbum solo de Ritchie.

— A gravação ocorreu de forma bem despretensiosa, no porão da Warner, a convite de Liminha, baixista e velho amigo que, naquela época, além de um dos meus alunos de inglês, era um dos produtores da gravadora – pontua o cantor.

Sim, a gravação ocorreu na Warner, cuja sede ficava numa casa no Jardim Botânico, mas “Voo de coração” flanaria para longe dali. A fita caiu nas mãos de um executivo da então CBS (hoje Sony), pela qual o álbum acabou saindo, colocando Ritchie entre os principais nomes da cena pop que despontava naquele início de década.

Pois os dois amigos voltam a se reencontrar. E, não por acaso, numa nova versão de “Voo de coração”. A nova gravação chega às plataformas nesta terça (26) exatos 44 anos depois de Steve e Ritchie unirem talentos na faixa original.

Se a primeira versão aconteceu assim de supetão, a de agora contou com todo um apuro técnico e tecnológico que a gravação original não pôde contar. Esse reencontro era algo que Ritchie “devia” ao amigo, segundo ele conta:

— Ao longo dos anos, sempre mantive contato com o Steve, e sempre nos perguntávamos como teria soado aquela faixa, caso tivéssemos gravado num estúdio de verdade. Em 2026, 44 anos depois, essa oportunidade finalmente surgiu! Agora, a música foi gravada em três estúdios profissionais, bem distantes entre si.

Sim, a base foi gravada pela banda do cantor em São Paulo e contou com direção de Eron Guarnieri. Já as guitarras de Steve vieram de Londres, onde foram registradas por Ben Fenner. E nada de revivals ou repetecos. A faixa tem agora outras coloraturas, como explica o compositor:

— Em vez de simplesmente reproduzir as frases musicais de outrora, Steve optou por levar as linhas de guitarra por outro caminho, usando slide no solo central, e construindo frases melódicas evolutivas no improviso estendido do final da canção.

E certamente Ritchie não imaginava que ambos esses encontros seriam possíveis quando, em 1972, assistiu a um show do Genesis em Londres. Na ocasião, estava ao lado de Rita Lee (1947-2023) e de Liminha, então integrante dos Mutantes e sob a chancela de quem acabaria por gravar, anos depois, aquela primeira versão de “Voo de coração” lá no porão da Warner.

— Eles estiveram em uma gravação da banda Everyone Involved, da qual eu era flautista, e me convidaram para visitar o Brasil. O que seria uma visita, se prolongou muito além dos meus planos iniciais – arremata.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagem)

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