‘Ouvir pode ser revolucionário’

maio 8, 2026

Gabriel Braga Nunes celebra o desafio de tratar da saúde mental em peça e fala de paternidade, parcerias e da reação ao fato de a semelhança com a irmã ter viralizado

Com três décadas de uma carreira sólida que transita com elegância entre os vilões da teledramaturgia e o rigor do palco, Gabriel Braga Nunes atravessa um momento de maturidade artística. Filho do diretor Celso Nunes e da atriz Regina Braga, Gabriel não apenas herdou o DNA teatral, mas soube cultivar um caminho autoral — seja ao fundir a intensidade do rock ‘n’ roll com a imortalidade dos sonetos de Shakespeare, ou ao se permitir, influenciado pela filha, a leveza de aprender balé. Atualmente, o ator mergulha nas águas profundas de “O filho”, espetáculo que traz à cena a depressão na adolescência e a fragilidade das estruturas familiares. Nesta entrevista ao NEW MAG, o ator reflete sobre como o simples ato de “ouvir de verdade” pode ser uma ferramenta revolucionária dentro de casa. A montagem estará, inclusive, na programação da Mostra Itaúna de Teatro, em Minas Gerais, com apresentações na próxima quinta-feira (14) e sexta (15). Gabriel fala ainda da parceria com Maria Flor em cena — atriz que substitui Maria Ribeiro nas apresentações para o público mineiro —, da amizade e do legado de seu pai, da experiência transformadora da paternidade e comenta como reagiu ao ver sua semelhança física com a irmã viralizar nas redes sociais. 

A peça “O filho” aborda a depressão de um adolescente dentro de uma estrutura familiar fragmentada — um tema ainda cercado de desinformação, apesar dos mais de 12 milhões de diagnósticos no Brasil. Estamos lidando bem com a questão? De que forma esse personagem contribuiu para ampliar ou transformar o seu olhar sobre o tema?

Cada vez mais sabemos de casos de depressão ao nosso lado, independentemente da configuração familiar. É bem provável que o silêncio em torno do tema não esteja surtindo bom efeito. Com essa montagem, propomos uma conversa direta sobre saúde mental, pois achamos que não deve haver constrangimento.

Você já declarou que seria menos feliz se não fosse pai. O que da sua experiência como pai você levou para esse personagem e, ao mesmo tempo, o que esse papel te revelou de novo?

Todos nós levamos para o palco muito do que somos com os filhos, sobretudo quanto à atenção ao outro. Ouvir e prestar atenção, de verdade, pode ser revolucionário na dinâmica familiar. Parece simples, mas não é fácil. Esta é a principal ideia proposta.

Em Itaúna (MG), você estará em cena com Maria Flor. O que ela tem trazido de novo para esse trabalho? E qual foi a assinatura deixada pela Maria Ribeiro no processo de criação do espetáculo? Como lida com esses dois legados?

Reensaiar o mesmo texto com outra pessoa está sendo bastante revelador, pois cada relação é uma. Nos obriga a prestar atenção novamente em cada frase, cada dia, cada momento. A mesma frase no contexto de outra relação pode dizer coisas diferentes, assim como as inflexões. O texto é  francês e, ao não entregar respostas prontas, nos deixa um espaço enorme, que está sendo lindamente preenchido por essas ótimas atrizes, Ribeiro e Flor.

Além do teatro, você também desenvolve um trabalho musical que mistura rock com textos de William Shakespeare, o “Shakespeare & Rock’n’Roll”. O que esse formato híbrido permite a você expressar que talvez o teatro tradicional ou o show musical isolado não permitiriam?

Este é meu projeto mais importante: produção própria e absolutamente autoral. A mistura de rock anos 70 com sonetos existencialistas do Shakespeare acabou fazendo total sentido para mim. Os sonetos trazem Shakespeare, ele mesmo, em primeira pessoa, da mesma forma que estou em cena sem um personagem, depois de 30 anos de carreira. O conceito é de performance e não de interpretação.

Nos últimos anos, você tem se dedicado mais ao teatro, ao cinema e a projetos de streaming. Muitos atores experientes falam sobre a preferência por trabalhos mais curtos e menos extensos do que as novelas. Como você enxerga essa questão hoje? Você ainda se vê envolvido em projetos de longa duração, como uma novela?

Nossa peça tem agenda fechada até o final do ano e ainda mostra muito fôlego. Tenho a impressão de que vamos fazê-la por bastante tempo, pois o tema é atual, e o público quer falar de saúde mental. Ele tem interesse pelo assunto e percebe a falta de repertório nas famílias.

Seu pai, o diretor Celso Nunes, tem uma trajetória importante no teatro brasileiro. Você pensa em realizar algum tipo de resgate da memória e da obra dele em algum projeto?

Estou com ele em Salvador esta semana, somos bem amigos. Adoraríamos encontrar um lugar bacana para deixar os arquivos profissionais dele disponíveis para pesquisa. É um material lindo e importante, mas parece pouco provável encontrar interesse e estrutura para mantê-lo. Faz parte, não tem problema… esta semana mesmo passamos uma tarde falando sobre a finitude.

Viralizou nas redes sociais a comparação entre você e sua irmã, a Nina, pela semelhança impressionante entre vocês. Como você recebeu esse tipo de repercussão espontânea nas redes? Te divertiu?

Sim, me divertiu, mas eu a acho mais bonita.

A sua filha mais nova, a Valentina, faz balé e isso te motivou a entrar na dança também. Como tem sido essa experiência para você e o quanto é importante a sua presença ali como um incentivo para que outros homens também ocupem esse espaço, vencendo o preconceito que ainda existe?

Através das crianças, tive a sorte de conhecer a Verinha Lafer e o pessoal da companhia Studio3. Faço com eles o espetáculo “Outro Toms”, que está vivo e é uma beleza. Espero poder fazê-lo novamente em breve! Estou há quase um ano sem as aulas de balé e sinto uma falta enorme!

Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Duda Morais (imagem)

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