Simone Bittencourt de Oliveira tinha 22 anos quando, em 1973, fez um crediário para comprar um LP. O álbum em questão era “Francis Hime”, que trazia obras-primas como “Atrás da porta”. Simone, que gravaria seu primeiro LP naquele mesmo ano, sequer imaginava que, 53 anos depois, faria um show por inteiro com aquele que é um de seus ídolos na música.
Simone já participara, entre os anos 1980 e este novo milênio, de três álbuns de Francis, sendo o mais recente deles, “Não navego pra chegar”, de 2025. Eles já haviam também dividido o palco no show com que o compositor celebrou, também no ano passado, seus 60 anos de carreira. Mas nunca haviam dividido um show por completo. E isso enfim aconteceu. E deu liga – e das boas.
Esse encontro se dá em “Embarcação” que, sob a direção firme e sensível da cantora Olívia Hime, foi criado especialmente para o Terças no Ipanema, projeto que voltou a realizar apresentações musicais no hoje rebatizado Teatro Ipanema Rubens Corrêa, onde estreou na noite da última terça-feira (05). A temporada realizada por Francis ali, no início do ano, enchera-o de entusiasmo para voltar ao espaço. E, a partir de sugestão de Flávia Souza Lima, curadora do projeto juntamente com Kati Almeida Braga, Francis voltou – e em muito boa companhia.
As cortinas abrem-se ao som do canto à capella da Cigarra. Francis está ao piano, e a cantora, de pé atrás dele e exuberante num conjunto de blazer e calça em tons de areia. Com eles estão ainda os excelentes Hugo Pilger (cello) e Chico Lira (teclado). Após Simone entoar sozinha a linha melódica do coro de “Embarcação”, a trinca ampara-a na canção, uma das parcerias de Francis com Chico Buarque presentes (oito ao todo) no roteiro, composto por 18 números, sendo dois deles canções solo de Chico (“Mar e lua” e “O que será?).
Lançado por Simone no álbum “Corpo e alma”, que, naquele 1982, alçou à artista ao topo de maior vendedora de discos do país, o samba é apresentado sem os sintetizadores da gravação original. O tema está ali na sua essência, e o número prenuncia em si a tônica de todo show, pautado pela alma lírica do cancioneiro de Francis.
O repertório é apurado, e Simone, intérprete de sucessos que ganharam as rádios nos anos 1980, acerta – e muito – ao se deixar levar para o universo de Francis, cuja atmosfera musical é próxima da que permeou seus álbuns setentistas como “Gotas d’água” (1975) e “Face a face” (1977).

— Feliz por estar trabalhado com você. É muito emocionante para mim. Um presente de Deus – declarou a cantora dando a deixa para belezas como “Existe um céu” (Francis e Geraldo Carneiro) e “Passaredo” (Francis e Chico) e na qual Simone soprou apitos que emulavam o canto dos pássaros citados na letra.
Os artistas voltam a unir timbres em “Imaginada” (Francis e Olívia) emendada em “Trocando em miúdos” (Francis e Chico), numa interpretação mais contida e não menos pungente da imortalizada pela artista no LP “Vício” (1987). O tom melancólico dissipa-se com “Samba pra Martinho” (Francis, Olívia e Geraldo Carneiro). Instada a falar de “Café com leite”, álbum com que homenageou o bamba em 1996, Simone preferiu entoar a vinheta que abria o CD, ouvida à capella como na gravação original.
O show chega então ao momento em que a intérprete elenca temas do seu repertório que, segundo o próprio Francis, ele gostaria que fossem dele. “Deixa de ser guloso”, rebateu a Cigarra abrindo alas para “Jura secreta” (Sueli Costa/ Abel Sila, este presente na plateia) e as supracitadas “Mar e lua” e “O que será”, esta criada para o filme “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto e inspirado no livro homônimo de Jorge Amado (1913-2001).
A Baiana da Gema lembrou que, na época, fora levada ao estúdio por “Soninha” Braga, estrela do longa, e que, ao gravar uma das três versões do tema, levou de Chico um pito por pronunciar “alcóvas” em razão do sotaque soteropolitano. “Sabe que também canto ‘alcóvas’”, devolveu Francis corroborando que a pronúncia deu um charme a mais à gravação.
A partir dali o show chega ao seu clímax, com Simone entrando na seara autoral de Francis e demonstrando intimidade com ela. São antológicos os duetos em “Maravilha” (Francis e Chico), “Minha” e Anoiteceu”, parcerias de Francis com Ruy Guerra e Vinicius de Moraes (1912-1980), respectivamente.
O roteiro encerra-se com três sambas da lavra Francis/Buarque: “Amor barato”, “Vai passar” e “Pivete”. Cantora que tem também no segmento sua praia, Simone acompanha Francis com instrumentos percussivos como um diminuto tamborim. O acompanhamento poderia ser cantado, mas isso há de mudar na medida em que o show ganhar ainda mais corpo do que já tem.
A Cigarra e “Francis Francisco”, como ela o chama, estão afinados e entrosados em cena. E juntam suas artes num encontro pautado pelo afeto e pela admiração mútua. E O resultado é Histórico. Ao agradecerem um ao outro, o grito ouvido de um expectador traduziu bem a sensação reinante na plateia: “Obrigado nós!”. Se, como na canção, existe um Céu, o público já estava nele.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Claudia Brandão (imagens)






