Existe um Céu

maio 6, 2026

Francis Hime e Simone unem talentos em show no qual escrevem página feliz da nossa História musical

Simone Bittencourt de Oliveira tinha 22 anos quando, em 1973, fez um crediário para comprar um LP. O álbum em questão era “Francis Hime”, que trazia obras-primas como “Atrás da porta”.  Simone, que gravaria seu primeiro LP naquele mesmo ano, sequer imaginava que, 53 anos depois, faria um show por inteiro com aquele que é um de seus ídolos na música.

Simone já participara, entre os anos 1980 e este novo milênio, de três álbuns de Francis, sendo o mais recente deles, “Não navego pra chegar”, de 2025. Eles já haviam também dividido o palco no show com que o compositor celebrou, também no ano passado, seus 60 anos de carreira. Mas nunca haviam dividido um show por completo. E isso enfim aconteceu. E deu liga – e das boas.

Esse encontro se dá em “Embarcação” que, sob a direção firme e sensível da cantora Olívia Hime, foi criado especialmente para o Terças no Ipanema, projeto que voltou a realizar apresentações musicais no hoje rebatizado Teatro Ipanema Rubens Corrêa,  onde estreou na noite da última terça-feira (05). A temporada realizada por Francis ali, no início do ano, enchera-o de entusiasmo para voltar ao espaço. E, a partir de sugestão de Flávia Souza Lima, curadora do projeto juntamente com Kati Almeida Braga, Francis voltou – e em muito boa companhia.

As cortinas abrem-se ao som do canto à capella da Cigarra. Francis está ao piano, e a cantora, de pé atrás dele e exuberante num conjunto de blazer e calça em tons de areia. Com eles estão ainda os excelentes Hugo Pilger (cello) e Chico Lira (teclado). Após Simone entoar sozinha a linha melódica do coro de “Embarcação”, a trinca ampara-a na canção, uma das parcerias de Francis com Chico Buarque presentes (oito ao todo) no roteiro, composto por 18 números, sendo dois deles canções solo de Chico (“Mar e lua” e “O que será?).

Lançado por Simone no álbum “Corpo e alma”, que, naquele 1982, alçou à artista ao topo de maior vendedora de discos do país, o samba é apresentado sem os sintetizadores da gravação original. O tema está ali na sua essência, e o número prenuncia em si a tônica de todo show, pautado pela alma lírica do cancioneiro de Francis.

O repertório é apurado, e Simone, intérprete de sucessos que ganharam as rádios nos anos 1980, acerta – e muito – ao se deixar levar para o universo de Francis, cuja atmosfera musical é próxima da que permeou seus álbuns setentistas como “Gotas d’água” (1975) e “Face a face” (1977).

Francis e Simone em cena

— Feliz por estar trabalhado com você. É muito emocionante para mim. Um presente de Deus – declarou a cantora dando a deixa para belezas como “Existe um céu” (Francis e Geraldo Carneiro) e “Passaredo” (Francis e Chico) e na qual Simone soprou apitos que emulavam o canto dos pássaros citados na letra.

Os artistas voltam a unir timbres em “Imaginada” (Francis e Olívia) emendada em “Trocando em miúdos” (Francis e Chico), numa interpretação mais contida e não menos pungente da imortalizada pela artista no LP “Vício” (1987). O tom melancólico dissipa-se com “Samba pra Martinho” (Francis, Olívia e Geraldo Carneiro). Instada a falar de “Café com leite”, álbum com que homenageou o bamba em 1996, Simone preferiu entoar a vinheta que abria o CD, ouvida à capella como na gravação original.

O show chega então ao momento em que a intérprete elenca temas do seu repertório que, segundo o próprio Francis, ele gostaria que fossem dele. “Deixa de ser guloso”, rebateu a Cigarra abrindo alas para “Jura secreta” (Sueli Costa/ Abel Sila, este presente na plateia) e as supracitadas “Mar e lua” e “O que será”, esta criada para o filme “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto e inspirado no livro homônimo de Jorge Amado (1913-2001).

A Baiana da Gema lembrou que, na época, fora levada ao estúdio por “Soninha” Braga, estrela do longa, e que, ao gravar uma das três versões do tema, levou de Chico um pito por pronunciar “alcóvas” em razão do sotaque soteropolitano. “Sabe que também canto ‘alcóvas’”, devolveu Francis corroborando que a pronúncia deu um charme a mais à gravação.

A partir dali o show chega ao seu clímax, com Simone entrando na seara autoral de Francis e demonstrando intimidade com ela. São antológicos os duetos em “Maravilha” (Francis e Chico), “Minha” e Anoiteceu”, parcerias de Francis com Ruy Guerra e Vinicius de Moraes (1912-1980), respectivamente.

O roteiro encerra-se com três sambas da lavra Francis/Buarque: “Amor barato”, “Vai passar” e “Pivete”. Cantora que tem também no segmento sua praia, Simone acompanha Francis com instrumentos percussivos como um diminuto tamborim. O acompanhamento poderia ser cantado, mas isso há de mudar na medida em que o show ganhar ainda mais corpo do que já tem.

A Cigarra e “Francis Francisco”, como ela o chama, estão afinados e entrosados em cena. E juntam suas artes num encontro pautado pelo afeto e pela admiração mútua. E O  resultado é Histórico. Ao agradecerem um ao outro, o grito ouvido de um expectador traduziu bem a sensação reinante na plateia: “Obrigado nós!”. Se, como na canção, existe um Céu, o público já estava nele.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Claudia Brandão (imagens)

Francis e Simone: show pautado pelo afeto e pela admiração mútuos

 

Posts recentes

Luz, câmera, ação!

Cinebiografia sobre Zeca Pagodinho traz o personagem central interpretado por jovem talento do samba. Vem saber!

‘Reverências a ele’

Maria Bethânia homenageia Guto Graça Mello, produtor de dois de seus álbuns, que morreu aos 78 anos

Uma aula sobre respeito

Carla Camurati reúne convidados em pré-estreia de filme no qual desnuda fundamentos para a violência de gênero