A voz é firme e encorpada. Em cena, a timidez dá lugar a uma persona artística vigorosa. Chico Chico é aquele cara que, como dizem os cariocas, chega chegando. É assim na música, é assim na vida e o mesmo se dá agora na literatura. Um dos nomes mais significativos na nova cena musical brasileira, o artista estende sua criatividade também à literária. Em “Pequenos sigilos” (Ação Editora), ele reúne textos diversos, entre microcontos, poemas, notas e pensatas, através dos quais reflete sobre seu lugar no mundo.
— Pra mim não tem diferença entre escrever um texto ou uma música. É o mesmo processo, e eles partem da mesma vontade, do mesmo prazer. Por mais que o resultado seja diferente, essa parte do sentar e fazer vem da mesma vontade de falar das coisas que eu quero falar – explica ele, que autografa a edição nesta quarta (15), na Livraria da Travessa de Ipanema.
O termo nepo baby sequer existia em 1993, quando Francisco Ribeiro Eller veio ao mundo. Filho da cantora Cássia Eller (1962-2001) e de sua companheira, Maria Eugênia Vieira Martins, Chicão, como era chamado pela cantora, estava fadado a brilhar – e antes mesmo de nascer. O palco e ele são velhos conhecidos. Sua gestação foi concomitante à turnê de “O Marginal”, show calcado no segundo álbum de Cássia e no qual ela incluiu “Francisco”, de Chico Buarque, numa homenagem ao rebento que trazia na barriga, e que crescia a olhos vistos.
É dedicado a Maria Eugênia um dos textos do livro: “Canção pra minha mãe”. O poema, publicado originalmente numa rede social, chamou atenção da editora para o fato de o jovem ter outras cartas como aquela na manga. Eles não estavam errados. E o livro começou, assim, a ganhar forma. E lá foi Chico Chico reunir seus escritos, provocados por fatos ligados a experiências ou acontecimentos cotidianos, como ele conta:
— Quando eu estou muito angustiado, quando estou muito feliz, ou quando eu vi alguma coisa legal acontecer… Eu só não sei se vou fazer um texto ou uma música. Meu primeiro pensamento é sempre na música, depois pode mudar tudo, virar outra coisa.
E na sua estreia literária, ele tem o endosso de um mestre que transita também entre a canção e o texto literário. O prefácio é assinado pelo letrista e poeta Geraldo Carneiro. O imortal saúda o fato de o autor transitar bem entre o lírico e o narrativo. E a percepção de Geraldinho, como é chamado pelos amigos, vem ao encontro de como Chicão vê sua verve criativa.
— Eu não domino nenhuma das coisas, entende? São coisas que permeiam a minha persona criativa; mas eu não sou um acadêmico da música e não sou também um detentor das formas poéticas e textuais. Vou fazendo – explica ele que vai encarar no domingo (19), em Salvador (BA), sua primeira Bienal.
Ele vai fazendo – e fazendo bonito. Francisco tinha 10 anos quando, em 2003, sua guarda foi merecidamente concedida pela Justiça a Maria Eugênia. A decisão, histórica, abriu precedente para que casais homoafetivos fossem amparados em relação a pleitos semelhantes.
A vida é feita dessa sucessão de acontecimentos, bons e maus, e de pequenas e grandes vitórias. E é desta mesma vida que Chico Chico extrai a matéria para sua escrita, seja ela musical ou poética, mas sempre artística. E o jovem faz sua estreia na literatura orgulhoso do “rebento”.
— Eu sou suspeitíssimo para falar, mas achei que o resultado ficou legal. É um bom livro, né? Ficou maneirão.
Maneiríssimo. E que venham outros mais.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Juan Ribeiro (imagem)





