Se existe alguém que consegue transitar com a mesma naturalidade entre a superficialidade do “BBB”, a multiplicidade do “Domingão com Huck” e o humor mais ácido do “Porta dos Fundos”, esse é Rafael Portugal. Mas, para além dos milhões de seguidores e da onipresença nas telas, Rafael é, essencialmente, um operário do palco. Sua história não começou no set, mas na Lona Cultural Gilberto Gil, em Realengo. Foi ali, no subúrbio carioca, que ele lapidou o tempo da piada e descobriu que o teatro era seu único caminho possível. Hoje, colhendo os frutos de uma carreira que une a genialidade de mestres como Tom Cavalcante e Roberto Bolaños (1929-2014) — duas de suas referências — à rapidez das redes sociais, ele mantém os pés no chão e o olhar atento ao que acontece ao redor. Nesta entrevista ao NEW MAG, Rafael abre o jogo sobre a liberdade criativa que encontrou ao lado de Luciano Huck, a alegria de comentar os acontecimentos da casa mais vigiada do Brasil e, indo além do riso, fala com seriedade da importância de usar sua voz para combater discursos tóxicos e reforçar seu posicionamento contra perfis que se intitulam “red pills”. No palco, o público poderá conferir o artista no Festival Humor Contra-Ataca, no Qualistage, Rio de Janeiro, neste sábado (04) — e é no olho no olho com a plateia que ele se sente mais completo.
Você vai participar do Festival Humor Contra-Ataca no Rio de Janeiro. Como será seu show?
Estou amando voltar ao festival. Agora vou levar um show novo, com novas histórias. Amo fazer show no Rio de Janeiro, me sinto jogando em casa.
Você começou no teatro e hoje transita entre o palco, a TV e a internet. Em termos de construção de humor e relação com o público, o teatro ainda te oferece algo que os outros formatos não conseguem substituir?
Amo estar no palco. Gosto de encontrar o público no final, a galera me conta que gosta de me assistir sempre no “Domingão”. A resposta do teatro é imediata. Amo trazer para o público minhas histórias. Quando estou no palco, sinto que estou no meu momento mais raiz. O teatro é sempre onde tudo começou. Sinto como se estivesse mais uma vez no palco da Lona Cultural Gilberto Gil, onde comecei minha carreira. Sou grato ao teatro, foi nele que me encontrei quando disse a mim mesmo: “Eu só sei fazer isso da vida e não quero mais nada” (risos).
Como é a sua relação com Luciano Huck e com o elenco do Domingão? No programa, você sente que tem liberdade para construir o seu humor?
Amo trabalhar no “Domingão” e admiro muito o Luciano Huck. Lá a gente tem liberdade para criar e dar ideias. É muito bom ver como ele também curte, vibra e também gosta de dar as ideias dele. Tudo vira uma mistura! Sou muito feliz de verdade com todos no programa. Sempre saio feliz de casa para gravar porque tem sido um lugar leve e divertido. Já sabia que o Luciano era um cara legal, mas, hoje, tenho um carinho e uma admiração ainda maiores por ele.
A edição atual do “Big Brother Brasil” está com muito engajamento e repercussão nas redes e nas ruas. Para você que faz o “CAT BBB”, quanto maior o caos na casa, melhor para trabalhar?
Adoro fazer o “CAT”. Quanto mais o elenco se entrega a tudo, com certeza é melhor. É muito bom quando está todo mundo de fato jogando com vontade, participando, seja na treta, no caos, no amor e nas provas. Essa edição está maravilhosa, estou amando tudo e cada um deles. Não existe uma semana que o programa tenha passado despercebido.
Você já citou a Dani Calabresa como uma inspiração importante na sua carreira. Que outros nomes ajudaram a moldar seu olhar para o humor?
Sem dúvidas ela é uma grande inspiração para mim. Tive o privilégio de trabalhar com meus ídolos. Fábio Porchat, Gregorio Duvivier, Antonio Tabet, Leandro Hassum, Samantha Schmutz, entre tantos outros. Quando paro para pensar nessa gente com quem já dividi cena e aprendi, me dá um orgulho muito grande. O próprio “Porta dos Fundos” foi uma escola também. E claro, não tem como deixar de falar de referências como Chico Anysio, Tom Cavalcante… Sempre gostei da genialidade do Roberto Bolaños, criador de Chaves e Chapolin, que também era compositor das canções dos programas, e ainda atuava e escrevia.
Recentemente você fez uma postagem entrando na campanha contra perfis de homens que se intitulam “red pills”. Ser pai de duas meninas te motivou a falar sobre esse assunto publicamente?
Com certeza me motivou. Quando meu pai morreu, eu tinha 7 anos e fui morar com minha mãe e irmã na casa da minha avó. Lá também moravam minha tia e minhas primas. Hoje, tenho duas filhas e minha esposa. Pensar em mulher é pensar no quanto tive moldado o meu caráter e minha criação nelas e por elas, tudo o que sinto e aprendo com minhas filhas. Chegou o tempo do basta! Há muita violência e muita gente ainda ditando regra para mulher. Uma geração de adolescentes está crescendo com sérios problemas por conta desse papo perigoso. A gente como homem precisa cuidar da cabeça. A vida andou, as coisas mudaram e a gente tem que se cuidar!
Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Davi Nascimento (imagem)





