Ousada e contundente

março 26, 2026

Marina Lima reafirma modernidade em álbum em que lamenta a perda do irmão-poeta e celebra forças como Fernanda Montenegro e Maria Bethânia

Desde que surgiu na cena musical com “Simples como o fogo”, em 1979, Marina Lima mostrou ser possível vislumbrarmos um país mais leve e livre de amaras. Ousada e corajosa, ajudou a pavimentar um caminho pelo qual passariam expoentes do rock, que assaltou a gramática na década seguinte, e cantoras/compositoras dos quilates de Marisa Monte, Adriana Calcanhotto e Zélia Duncan, entre outras. Marina foi e manteve-se moderna desde então. E assim continua.

E dá, mais uma vez, demonstrações disso em “Opera Grunkie”, seu mais novo álbum, lançado no início da semana. O país do futuro, afogado agora nos escândalos do Banco Master, continua escuro, e ela não desvia deste seu olhar terno, crítico e esperançoso. Marina olha para o futuro do presente sem trair a si mesma e sem esquecer das rupturas provocadas por sua música ao longo de quase cinco décadas de uma carreira pautada pelo arrojo e pelo bom gosto.

A exemplo do obrigatório “Próxima parada” (1989), essa “Ópera Grunkie” abre e encerra suas cortinas com vinhetas (“Abertura” e “Finale”), mas, em termos estruturais, ele se aproxima mais de outro álbum ousado da artista, “Pierrot do Brasil”, de 1998. A ópera de Marina é ainda mais ousada pois, ali, elencam-se canções e vinhetas (como em “Marina Lima” e “Abrigo”) e, num ato de ousadia típico da artista, experimentos sonoros.

É o caso da embolada “Olívia”, cujo formato é híbrido entre a canção e a colagem, com  falas que dão à faixa um viés dramatúrgico, como no teatro/ópera, e cujo resultado alude, por exemplo, a “Acrilírico”, que arremata o álbum branco de Caetano Veloso, lançado em 1969.

Esse mesmo recurso da colagem faz-se presente em duas outras faixas:” Collab Grunkie”, em que ouvimos fragmentos de falas da grande Fernanda Montenegro, e em “Perda”, na qual Antonio Cícero (1945-2024) faz-se presente (e não poderia ser diferente em se tratando de um álbum de Marina) através de trechos de poemas e de depoimentos.

“Perda” forma juntamente com a sentida “Grief-striken” e com a singela “Meu poeta” um réquiem através do qual Marina chora a perda do irmão, seu parceiro num cancioneiro que os coloca entre os grandes autores da nossa música. “Eu compreendi você e vou te amar eternamente”, declara ela nos primeiros segundos de “Meu poeta”.

Sim, Marina quer chorar (e chora), mas o dia nasce. E o viés solar do álbum materializa-se em faixas como “Partiu”, que tem tudo para ganhar as pistas, e no cativante “Samba pra Diversidade”, dedicado, a exemplo de Gilberto Gil em “Aquele abraço” (1969), a Bad Sister, a Marcelo D2 e a Maria Bethãnia, voz que abriu alas aos demais timbres femininos surgidos a partir dos anos 1970.

As baladas românticas, comumente presentes nos álbuns de Marina entre as décadas de 1980 e 90, estão de fora desta ópera, mas o amor não. E ele dá o tom em três joias do álbum. São elas a contundente “Só que não” e duas faixas com fortes cargas imagéticas: “Um dia na vida” e “Chega pra mim”, compostas em parceria com Ana Frango Elétrico e Adriana Calcanhotto, respectivamente. E, no caso de “Chega”, a canção começa num clima de lamento jobiniano, envereda pelo samba culminando no pop, fazendo dela o clímax desta ópera-rock.

A ópera pode ser uma arte morta para alguém recém-saído dos cueiros como o ator Timothée Chalamé, não para Marina Lima. A cantora e compositora recém-chegada aos 70 anos mostra-se ainda vigorosa e moderna. “Ópera Grunkie” é, a exemplo do “Araçá azul” de Caetano (olha ele aí de novo), um disco para entendidos. E, sobretudo, àqueles que sempre compreenderam a ousadia e o refinamento dessa menina chamada Marina.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e André Hawk (imagem)

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