‘Fui considerada estranha’

março 13, 2026

Maria Casadevall fala sobre pioneirismo, inadequação, conquistas, amadurecimento e da parceria com Reinaldo Gianecchini, ao lado de quem brilha no teatro

O trabalho do ator é mais um sacerdócio do que exatamente uma profissão. E, em certos aspectos, assemelha-se ao do atleta. Ambos querem superar desafios e, claro, os próprios limites. Maria Casadevall faz jus à comparação entre os dois ofícios. A atriz de 38 anos desafia-se a cada nova empreitada, saindo-se vitoriosa ao termino de cada prova. E, no caso dela, elas se dão a cada apresentação de “Um dia muito especial”, na qual, sob a direção de Alexandre Reinecke, ela contracena com Reinaldo Gianecchini e com Carolina Stofella. Na encenação, em cartaz no Rio de Janeiro, Maria encara com bravura os desafios de personificar uma mulher de meados do século XX, sem temer comparações com aquelas que a precederam na tarefa. E elas são simplesmente Sophia Loren, no cinema, e Glória Menezes, na primeira montagem brasileira do texto. “Saber que duas grandes artistas escolheram contar a história dessa mulher me estimulou ainda mais”, conta ela, por escrito, em entrevista ao NEW MAG. A seguir, ela fala sobre a busca por personagens desafiadores, da relação com as redes sociais e com vínculos trabalhistas, defende a liberdade criativa e prega por um mundo onde as diferenças sejam respeitadas. “Estamos novamente em luta coletiva contra o avanço conservador”, reconhece sem dar sinais de que vai esmorecer. Fôlego e obstinação não lhe faltam.

A peça se passa em 1938 e é originalmente ambientada em um país que abraçou o fascismo. Qual das temáticas trazidas pelo texto é a mais assustadoramente atual? E qual a mais universal?

Vejo todos os temas da peça como atuais: a questão da temática fascista, a luta LGBT e a luta pelos direitos das mulheres. Ainda que, de lá pra cá, possamos pontuar conquistas importantes em cada um desses temas, alcançadas através da mobilização e da luta política que segue mobilizada cotidianamente, não só pela conquista de mais direitos, mas sobretudo pela manutenção e contenção do regresso no que já foi conquistado. Infelizmente hoje, em 2026, já não estamos no contexto social da época em que a peça foi escrita (anos 70) e que o fascismo era uma página horrível, porém superada da História. Hoje, estamos novamente em luta coletiva contra o avanço conservador de uma extrema direita supremacista branca ultraviolenta que avança sobre muitos direitos, historicamente conquistados.

Sua personagem é uma dona de casa que tem no contato com o vizinho uma porta aberta à diferença. Viver num mundo diverso e inclusivo está mais próximo do possível?

Sim e não, pois, ao mesmo tempo em que a conectividade das redes deveria facilitar o intercâmbio social e cultural, é ela que, através dos algoritmos, tem contribuído à elaboração de uma sociedade segmentada, estimulando discursos de ódio, inviabilizando o encontro saudável entre os diferentes com a formação de bolhas sociais do pensamento único e avesso à diversidade, tornando o diálogo entre as diferenças praticamente impossível,  tanto nas redes quanto na vida.

Você interpreta uma mulher imortalizada por duas grandes damas: Sophia Loren, no cinema, e Glória Menezes no teatro. Em algum momento o peso desta responsabilidade te intimidou?

Pelo contrário, saber que duas grandes artistas escolheram contar a história dessa mulher me estimulou ainda mais, tanto em relação ao interesse pela personagem quanto em assumir o desafio de aprender com o que elas fizeram antes e, ainda assim, buscar minha própria voz, o corpo e o caminho para trazer Antonietta de volta à cena sob a luz deste nosso tempo.

Gianecchini é um bom parceiro de cena? Quais as regras do jogo teatral estabelecido entre vocês?

Gianne é um grande parceiro de cena, um amigo que a vida me deu, e, desde nosso primeiro encontro na sala de ensaio, nos colocamos a serviço da história a ser contada. Criamos com a Carol (Stofella atriz e assistente de direção da peça) e com nosso diretor, Alexandre Heinecke, espaços seguros para acessar lugares profundos de vulnerabilidade de cada uma das personagens e os nossos também. E isso só foi possível através de muita escuta ativa e afetiva, respeito e humildade. Acredito que é assim que a gente tem feito a peça todas as noites também.

A verticalização chegou também às novelas. Esse novo formato te atrai?

Não, pois a verticalização das telas obedece à lógica de impacto das redes, do clique, do tempo e da atenção fragmentada, e isso hoje me desestimula como artista.

Você já viveu na TV e no cinema o desafio de personificar mulheres criadas originalmente como cartoons. O que foi mais desafiador e o que foi mais divertido nessas ocasiões?

O desafio de conciliar a estrutura dos quadrinhos com a linguagem “realista” do audiovisual. Quando fiz a Lili, da série “Lili, a ex”, toda linguagem e estética da série flertavam com o universo pop dos quadrinhos e, assim, o diretor Luis Pinheiro e eu optamos por este caminho na construção da personagem também, respeitando sua natureza cartunesca, com gestos repetitivos, aparência padronizada, e um corpo teatral, preservando e explorando tudo de humano que a personagem tinha e seu potencial para ser em conteúdo, apesar da sua forma.

O vínculo por obra com as TVs é uma carta de alforria para o ator?

Sem dúvida hoje essa é uma prática comum que amplia o horizonte de possibilidades para artistas da cena, sobretudo com a chegada dos streamings etc, mas quando propus isso, lá trás, em 2014, depois da minha primeira novela, os streamings ainda nem tinham chegado por essas bandas, e tudo era mato (risos). Fui considerada meio estranha e inconsequente.

A cordialidade e o senso de cooperação foram apontados por Denise Fraga e por Dan Stulback ao falarem aqui sobre Tony Ramos. O que foi mais enriquecedor no trabalho com Tony em Vade Retro?

A forma profissional e acolhedora como ele me recebeu nas cenas que fizemos juntos.

Daqui a dois anos você será uma mulher de 40 anos. Quais os anseios e as expectativas de se chegar à maturidade?

De continuar amadurecendo.

De bate-pronto: o que faz um dia ser de fato muito especial para você hoje?

Muito tempo atrás, eu tinha um blog chamado “Cachola da Maria”, e, um dia, escrevi assim: “em dias de muitas palavras acontece a des-poesia”. Um dia muito especial pra mim é um dia comum, em que posso estar atenta às coisinhas ordinárias que têm a capacidade de me transformar.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Pupin + Deleu (imagem)

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