A homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva prestada pela Acadêmicos de Niterói, monopolizou o noticiário às vésperas do Carnaval. A pergunta era se o enredo caracterizaria campanha política em ano eleitoral, e muitas foram as opiniões a respeito. E o que se viu, na noite do último domingo (15, foi um libelo à Democracia com homenagens que resvalaram merecidamente sobre figuras públicas como o cartunista Henfil (1944-1988), o jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), o deputado Rubens Paiva (1929-1971) e a estilista Zuzu Angel (1921-1976), mártir na busca pelo paradeiro do corpo de seu filho, Stuart, brutalmente assassinado pelos militares no início dos anos 1970.
E Zuzu foi representada por uma de suas filhas, a jornalista Hildegard Angel, idealizadora e presidente do instituto criado para preservar o legado da estilista. Hilde veio no carro que fechou o desfile, juntamente com artistas como a cantora Fafá de Belém (substituindo a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja) e os atores Paulo Betti e Bete Mendes, entre outros. E NEW MAG trocou uns dedinhos de porosa com esta grande jornalista que conta para a gente como foi o clima nos minutos que precederam a entrada do carro na Sapucaí.
– Nosso carro estava engajadíssimo no projeto. Chico Diaz, Denise Fraga, Júlia Lemmertz, Orã Figueiredo, Ernesto Piccolo e Elisa Lucinda não pararam um segundo. Eu, no meio deles, não podia ficar atrás. Vera Paiva, a filha do Rubens Paiva, estava ao lado do Francis (Bogossian, marido de Hilde). Ela usava um resplendor prateado na cabeça. E os artistas foram muito carinhosos conosco – conta a jornalista rememorando que o afeto deu o tom ao longo da avenida: – Quando o samba citava Zuzu Angel e Rubens Paiva, eles se viravam pra nós, seguravam nossas mãos, nos abraçavam. Foi realmente uma delícia estar ali.
O boneco representando a figura de Lula que enfeitou o carro foi uma surpresa para seus componentes. E o mesmo se deu quando Fafá despiu-se da bata que usava (como os demais) revelando, assim, o look exibido no desfile:
– Quando o Carvalhão trouxe uma escultura imensa do Lula com a faixa e a colocou cuidadosamente no alto do nosso carro, nos demos conta de que estávamos no carro do Lula! Não imaginávamos que isso iria acontecer. Havia um “queijo” na frente do carro reservado à Janja, mas ela não veio, e a Fafá de Belém a substituiu. Fafá chegou com a fantasia de todos do carro, uma bata branca. Mas na hora em que os primeiros carros começaram a rodar, ela tirou a bata, entregue a um assessor na concentração, e tinha por baixo um top de paetês. O assessor deu a ela um cinto bordado pra completar o look. Denise Fraga amarrou o cinto dela. E, na hora, as atrizes brincaram: “vamos tirar a roupa, gente!”. Foi um carro muito alegre.
Findo o desfile, todos os artistas foram convidados a seguir para o camarote do prefeito Eduardo Paes, de onde Lula e Janja assistiram ao desfile. Ali, como conta Hilde, estavam também ministros e outras autoridades republicanas.
– Os ministros e amigos do Lula estavam lá, mas não desfilaram para não dar pretexto a dizerem que houve cunho eleitoral. Gleisi (Hoffmann), Lindbergh (Farias), os ministros Alexandre Silveira, Padilha e a Macaé. Estava a presidente da Petrobras, Magda (Chambriard), com a filha. O advogado Kakay (Antonio Carlos de Almeida Castro) e José Dirceu, entre outros. Foi um camarote top, confortável, bem servido e bem frequentado.
Parentes e pessoas ligadas aos homenageados no samba-enredo desfilaram no chão e suas presenças deixaram a jornalista comovida, como ela rememora:
– A procuradora Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão dos Mortos e Desaparecidos, desfilou no chão, na ala dos parentes das vítimas da ditadura, com o rosto da mamãe estampado na fantasia. Foi em meu lugar porque preferi ir no carro. O filho do Henfil, Ivan, com o rosto do pai na fantasia. A irmã do Henfil também, na ala. Chico Mário Paiva, neto do Rubens Paiva, também foi no chão.
Tendo dedicado décadas de profissão à cobertura do Carnaval e, em especial, aos desfiles da Sapucaí, Hilde veio desta vez de destaque e faz um balanço sobre a passagem do tempo sobre a foliã que ela ainda é…
– Foi muita emoção e além das minhas forças. Cantei, dancei, acenei e mandei beijos. Saí um bagaço, mas não perdi o pique – arremata.
Uma rainha não perde a majestade. Jamais.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e arquivo Hildegard (imagens)







