Um artista, ao planejar um álbum, faz mais do que inventariar canções, sejam elas da própria lavra ou a de outrem. Um disco (a palavra caiu em desuso, Ok)parte, na grande maioria das vezes, de um conceito, que abarca questões estéticas e – principalmente – uma sonoridade pretendida. E esta será alcançada a partir dos músicos arregimentados, frutos da escolha do artista juntamente com o produtor e/ou arranjador musical.
Gravado e lançado o projeto, é chegada a hora de leva-lo à cena. E, com isso, surge o desafio de músicos e artistas manterem-se fiéis à sonoridade encontrada no estúdio. Algumas vezes, o resultado do show fica aquém do alcançado no álbum e, outras vezes, até vai além do esperado. Então, encontrar o ponto de equilíbrio da sonoridade original é um trabalho de carpintaria. De ourivesaria, até.
E esse objetivo é alcançado por Catto e pelos cinco excelentes músicos que a acompanham no show calcado no seu álbum mais recente, “Caminhos selvagens” (2025). O repertório foi apresentado finalmente em solo carioca, na noite da última quarta (28), quando as dez faixas autorais da artista ganharam ainda mais vida no palco do Teatro Riachuelo.
Catto emoldura o discurso assumidamente confessional das letras em uma ambientação roqueira e rústica. E a sonoridade do álbum é levada ao palco na sua plenitude. As guitarras distorcidas estão lá e em dose dupla, defendidas por Jojô Inácio e por Pedro Bienemann. E numa prova de que lugar de mulher é onde ela quiser, a banda é reforçada pela tecladista Júlia Kluber (que brilha ainda em dueto com Catto em “Saga”) e por Michele Abu que “quebra tudo” na “cozinha”, como, no caso de uma banda, é chamada a bateria. O time é reforçado ainda pelo baixo preciso de Gabriel Mayall.
Há uma crença no showbiz de que músicas novas não animam plateias. Pura balela. Ainda mais em se tratando de Catto. Os caminhos selvagens da artista estão abertos como ficou constatando em canções como “Eu não aprendi a perdoar”, que abre o show, “Solidão é uma festa”, “Madrigal” e na tocante “A Yuri todos os meus beijos”, cuja força poética foi muito bem acolhida pelo público.
“Caminhos selvagens” já estava sendo gestado quando Catto voltou à cena com “Belezas são coisas acesas por dentro”, show no qual recriou parte do repertório de Gal Costa (1945-2022). Os dois projetos conversam – e muito –, como a cantora contou aqui. Natural que essa conversa se estenda ao palco. O roteiro é incrementado pela balada “Nada mais”, primeiro número do set acompanhado a plenos pulmões pelo público; por “Negro amor”, versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti para tema de Bob Dylan e, num pré-final apoteótico, “Vaca Profana”, de Caetano.
Não é só “Caminhos selvagens” que está ali na sua plenitude. O mesmo vale para Catto, artista que, aos 39 anos, é uma das mais pungentes vozes da cena pop contemporânea, esteja mais propensa ao rock ou ao folk, não importa. O importante é dizer a que veio, e isso ela o faz sem meias palavras e com sangue – nos olhos e, principalmente, na voz.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e imagem)





