O ano era o de 2003. Mal começava o novo milênio, e Rita Benneditto na certa não imaginava o quão benfazejo seria aquele ano. Nascia nele um show que acabaria por marcar a trajetória da artista como o mais longevo dos projetos realizados pela cantora. O show em questão é o Tecnomacumba, em cujo repertório a intérprete deu novas roupagens a pontos e a temas voltados às entidades cultuadas pelas religiões de matrizes africanas.
O show rendeu um CD e foi registrado em DVD e em álbum ao vivo – com direito a participação de Maria Bethânia em “Iansã”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O show não sai desde então da agenda da artista, que o leva adiante conciliando-o com outros projetos. E, pelo terceiro ano consecutivo, chega à folia carioca neste sábado (31), demonstrando que veio para ficar.
– Para mim é uma alegria imensa ter vigor e prazer para realizar o Tecnomacumba em diferentes formatos que vão além do show. Desde quando construí esse projeto, me sinto muito feliz em cantá-lo. São 23 anos este ano, e é impressionante como me sinto cada vez mais revigorada e revitalizada com a possibilidade de cantar o Tecnomacumba – celebra Rita chamando atenção para um dos pilares de sustentação do projeto: – Estou cantando a cultura brasileira, nossa ancestralidade através de duas matrizes importantíssimas que são as matrizes ameríndias e fico vendo, com o tempo, o projeto se desdobrar: um show, CD, um DVD e também uma exposição e, agora, um bloco que chega ao seu terceiro ano.
Sim, o bloco chega à sua terceira edição ancorado a um território que tem tudo a ver com a proposta do projeto. Em vez das grandes avenidas do Centro da cidade, a cantora escolheu a região de entrada na cidade dos povos que chegaram escravizados do continente africano.
– Escolhemos a região da Pequena África, na Zona Portuária, justamente pela representação que ela tem na cultura afro-brasileira carioca. Então, o bloco está localizado e mantém sua proposta clara de valorização da cultura e das matrizes africanas – salienta a artista.
Rita tem consciência de um fato: ela sabe bem que, através do projeto e do seu canto, faz também política cultural sem ser, com isso, panfletária. E acha importante o projeto estar vivo num tempo de crescente intolerância às manifestações e às casas dedicadas a perpetuar cultos voltados à religiosidade africana, como ela aponta:
– Quanto mais espaços tivermos para reverenciar a nossa cultura de raiz melhor, mais forte o Brasil vai estar, mais firme e estruturado no que ele é. Isso vai ser bom para nós todos num país que é fruto dessa mistura de forças ancestrais, de povos e culturas diferenciadas que se unem e que fortalecem nossa História.
E o projeto, como comumente acontece no Carnaval, não morrerá na Quarta-Feira de Cinzas. Não em se tratando de Rita Benneditto. Os planos da artista são, como naquela canção-manifesto dos Doces Bárbaros, muito bons.
– Este ano, se Deus quiser, faço um segundo volume do Tecnomacumba de tanto que já me pediram, e estou dando spoiler aqui. E farei também um livro de fotografias. É um projeto que já virou uma entidade (risos) e sou o cavalo desta entidade – celebra a artista demonstrando ainda devoção e gratidão aos seus protetores: – Fico feliz da vida porque os mestres, os orixás, os caboclos e pretos velhos, todos os meus guias me deram este presente. É sempre uma alegria fazer e realizar o Tecnomacumba!
Motumbá Kolofé!
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Rogério Von Kruger (imagem)





