Um espetáculo é preparado ao longo de meses de ensaios. E ele só cumpre sua função a partir do conluio entre artista(s) e o público. A recepção deste é o termômetro capaz de medir a temperatura de uma apresentação. Um show já muito bem elaborado pode ficar ainda mais vibrante a partir da resposta da plateia. E foi o que aconteceu, na noite do último domingo (18), com o show no qual Maria Bethânia celebra seus 60 anos de vida artística.
A artista voltou ao Vivo Rio, onde o mesmo show estreara em setembro de 2025, para mais duas apresentações do espetáculo, e das quais será extraído o registro audiovisual do mesmo. Se na primeira noite, o público ocupou a casa acomodado em mesas, no último domingo, o grande salão foi transformado em pista – e isso deu “aquele molho de abafar” àquela que pode ter sido a derradeira (?!) apresentação do show – o que, convenhamos, soa inverossímil em se tratando do “bicho de palco” que é a grande cantora.
Bethânia voltou ao Rio com um show ainda mais dinâmico do que o que fora originalmente apresentado. O roteiro estava, já naquela época, muito bem amarrado pela artista, ela própria também responsável pela direção. E aquela aluna atenta às aulas de Augusto Boal (1931-2009), Fauzi Arap (1938-2013), Bibi Ferreira (1922-2019) e, mais recentemente, Bia Lessa (só para citar os quatro diretores mais frequentes na trajetória da artista) aprendera – e bem – as lições.
A intérprete está, há muito, distante daquela Bethânia do show/LP “Pássaro da Manhã”, que, em um dos textos, dizia que, a cada vez que faz um espetáculo de teatro, “um show de teatro”, tem um roteiro que segue “da estreia até o último dia da temporada”. Um espetáculo é um organismo vivo e, como tal, respira, pulsa e transforma-se – e Bethânia sabe bem disso.
E a artista suprimiu três dos números do roteiro original: “Gás neon”, de Gonzaguinha (1945-1991), pescado do show-manifesto “A cena muda” (1974); “Sete trovas” (Consuelo de Paula/Etel Frota/ Rubens Nogueira) e ‘Eu mais ela”, deliciosa e até então inédita canção de Chico Cesar. E, com isso, o show que já era bem amarrado, ficou ainda mais ágil, dinâmico e objetivo.
E a recepção calorosa da plateia deu à noite aquilo que Bethânia se referia, através das palavras de Clarice Lispector (1920-1977), como o “é da coisa’. Diante da ovação recebida após “Podres poderes” (Caetano Veloso) e “Baioque” (Chico Buarque), a cantora permitiu-se um ligeiro improviso na sua já tradicional fala de agradecimento. A célebre frase “Obrigado, senhores” foi precedida por um comovido “Obrigado, meus amores”.
E o improviso não ficou restrito àquele instante-já. Findo o espetáculo, diante do clamor retumbante do público, a intérprete voltou para um bis a mais. Com os músicos prontamente em seus lugares após rápida dispersão, a cantora precisou pedir ao violonista Paulo Dáfilin que acelerasse o passo: “Vamos, Paulinho!”.
E Paulinho foi – e fez jus ao padrão de excelência impresso na banda que acompanha a artista, capitaneada por Jorge Helder.
Com um show mais amarrado e redondo, a artista confirma aquela promessa feita por Gilberto Gil na sua “Balada do lado sem luz”. Prestes a completar, em junho, 80 anos, Bethânia mostra-nos que “haverá esperança enquanto houver um canto mais feliz”.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e reprodução/instagram (imagem)





