Talento, entrega e inquietação artística sempre caminharam lado a lado na trajetória de Carol Castro. Com carreira sólida e multifacetada, a atriz se firmou como um dos nomes mais consistentes da sua geração. Iniciou sua trajetória no teatro ainda jovem ao lado do seu pai, o ator Luca de Castro (1953-2023) e conquistou o público brasileiro ao interpretar a doce Gracinha em “Mulheres Apaixonadas”, papel que marcou sua estreia em novelas. Também destacou-se em produções como “O Profeta”, “Velho Chico”, “Órfãos da terra”, e, mais recentemente, em “Garota do momento”, sempre demonstrando versatilidade e verve dramática. No cinema, participou de filmes como “Veneza” e o terror “Pacto maldito”, cuja estreia acontecerá no segundo semestre deste ano. Em entrevista exclusiva feita por telefone ao NEW MAG, Carol fala sobre a influência do pai em sua formação, os impactos da maternidade, a importância de resistir por meio da arte e de seu retorno ao teatro após quase uma década afastada. A atriz está em cartaz até 1º de março com a peça “A manhã seguinte”, de Thereza Falcão, no Teatro Villa-Lobos, em São Paulo.
Você vive Kátia, uma mulher decidida, mas cheia de dilemas. Como foi construir essa personagem? O que você emprestou da sua personalidade a ela?
A peça já passou pelo Rio, teve uma temporada curta, depois viajamos para Belo Horizonte, Curitiba e Brasília, sempre com sessões extras e uma recepção muito calorosa do público. Agora, estamos em São Paulo, em uma temporada mais longa. O convite apareceu num momento em que eu estava encerrando “Garota do momento” e, ao mesmo tempo, já tinha compromisso com a continuação do filme “Nosso lar”. Foi uma jornada dupla: filmar um longa e ensaiar teatro ao mesmo tempo. O que me chamou muito a atenção foi, primeiro, a possibilidade de voltar ao teatro depois de dez anos, que é a minha base, a minha escola, de onde eu vim, antes da televisão e do cinema. A Kátia me atraiu muito por ser uma mulher empoderada, dona de si, que sabe o que quer e o que não quer, sem joguinhos, sem papas na língua. O que emprestei da minha personalidade foi justamente essa potência feminina, essa busca por autonomia, por autoestima. Ao mesmo tempo, a personagem também me ensinou muito: esse lugar de se aceitar como é, de estar bem consigo mesma, de viver numa família que conversa sobre tudo, sem pudores. Isso é algo que eu trago como aprendizado para a minha vida.
As diretoras Thereza Falcão e Bel Kutner disseram que a peça lida com o “desconforto do inesperado” e com a beleza de sermos contraditórios. Como foi ser dirigida pela dupla, que tem trabalhos tão consolidados na TV e no teatro?
Foi maravilhoso. Eu já conhecia a Bel há muitos anos, fizemos novela juntas, e a Thereza já tinha sido colaboradora em trabalhos que fiz na TV. O processo foi muito coletivo: fizemos leituras de mesa, discutimos o texto, que é originalmente em inglês, mas muito bem adaptado para o português, e fomos descobrindo a peça juntos. Elas têm muita escuta. Durante os ensaios e até depois da estreia, fomos ajustando algumas coisas, entendendo a reação do público em cada cidade. Esse olhar atento, sensível e aberto ao diálogo foi essencial para o resultado da peça.
O grande público não viu você fazer muitos papéis cômicos na sua carreira. Fazer humor no teatro é um desafio para você?
É um desafio, mas também é um retorno às minhas origens. A minha escola sempre foi muito ligada a um humor mais ácido, mais debochado, por conta do meu pai. Onde consegui usar mais isso na TV foi na Elisa, da série “Jogo Cruzado”. No teatro, esse humor vem com muita verdade, muito improviso, muita escuta. Gosto muito de transitar por todos os gêneros. Sempre admirei atores que conseguem fazer drama, comédia, suspense, terror. Depois de muitos anos fazendo personagens parecidos, cheguei nesse lugar de maturidade em que posso experimentar mais. E isso é muito prazeroso.
Você então se tornou atriz por influência direta do seu pai, Luca de Castro?
Totalmente. Comecei a atuar aos 9 anos num grupo de teatro que ele tinha, o “Terror na praia”, no início dos anos 1990. Era mais do que um elenco, era uma equipe, com artistas incríveis. Cresci nos bastidores do teatro, da TV e do cinema por causa dele. O teatro sempre foi muito forte na nossa vida. Voltar ao palco agora é também um movimento muito afetivo, nostálgico. Meu pai faleceu há três anos, e tenho pensado muito nele nesse retorno ao teatro. Tenho certeza de que ele amaria a peça.
Por falar no grupo “Terror na praia”, em alguns momentos, o público chegava a jogar chinelos nos atores nas sessões. Como você veria isso nos dias de hoje, como uma barbárie ou uma transgressão?
Era uma transgressão. Um humor ácido, debochado, muito à frente do tempo. Os chinelos eram de espuma, inclusive eu ajudava a fazer. Existia a “sessão chinelo”, em que o público escolhia o pior esquete jogando chinelos, e o esquete tinha que ser apresentado de novo. Era um teatro extremamente participativo, quase circense. Eles foram pioneiros nesse tipo de linguagem, muito antes de grupos de humor que surgiram depois, como o “Porta dos Fundos”, por exemplo. Se fosse hoje, com internet e redes sociais, teria viralizado completamente. Tenho muita vontade de fazer um documentário sobre isso.
Você está há mais de 20 anos na televisão. O que mudou na Carol atriz de “Mulheres apaixonadas” para cá?
Mudou muita coisa. Bagagem, quilometragem, vivência. A nossa profissão é muito ligada à vida, porque a gente é o próprio instrumento de trabalho. Tudo o que a gente vive, observa, sente e atravessa acaba refletindo diretamente na atuação. Sempre levei o meu ofício muito a sério, com muito amor e respeito. Também aprendi isso com o meu pai. Eu me entrego de corpo e alma aos personagens, mergulho de cabeça, não trabalho na superfície, só na profundidade. E isso, com o tempo, vai amadurecendo junto com a gente. No começo da carreira, depois de “Mulheres apaixonadas”, houve aquele impacto enorme, que eu só consigo entender melhor hoje, olhando para trás. Depois vieram personagens muito importantes, como a Ruth, de “O profeta”, que foi um dos maiores desafios da minha vida, e que me trouxe muita segurança como atriz. Ali eu senti que consegui assumir a personagem do meu jeito. Também houve momentos em que fiz uma sequência de papéis parecidos, principalmente em novelas das seis e das sete. Todos com seu valor, claro, mas foi um período em que senti vontade de experimentar outras coisas. Aos poucos, fui conseguindo transitar mais entre gêneros, fazer comédia, drama, suspense, novela das nove, séries, cinema e, agora, voltar ao teatro. Hoje me sinto num lugar de mais consciência do meu trabalho e das minhas escolhas. Gosto de ler um texto e pensar: “Será que eu dou conta disso?”. Esse frio na barriga é fundamental e não pode acabar nunca. É ele que mantém a gente viva, criativa e em constante evolução como artista.
O que acha de influenciadores digitais serem cada vez mais chamados para trabalharem como atores em novelas e filmes e ocuparem espaços até no Carnaval por conta de seus números de seguidores nas redes sociais?
Isso não é algo novo, já vem acontecendo há alguns anos. O mercado hoje funciona muito a partir de números, e essa é uma realidade que não dá para ignorar. Eu não gosto de julgar, porque existem pessoas vindas da internet que têm talento, que se dedicam, estudam e entregam bons trabalhos, e outras que não. Olhando pelo lado do ator, é triste pensar em tantos profissionais que estudaram, se formaram, se prepararam durante anos e estão fora do mercado, enquanto, muitas vezes, os números de seguidores acabam pesando mais do que o talento ou a formação. Isso é uma realidade dura e um pouco distorcida do que deveria ser o critério principal. Ao mesmo tempo, eu também entendo que novas pessoas precisam começar, que o mercado se renova, e que, eventualmente, podem surgir talentos interessantes nesse meio. Por isso, vejo essa questão como uma faca de dois gumes. No fim das contas, acredito que o próprio público acaba sendo o termômetro. É ele quem valida, comenta, critica e decide se aquilo funciona ou não. O que espero é que o talento, o compromisso com o ofício e o respeito à arte continuem sendo valorizados, independentemente do número de seguidores.
O que você pensa sobre as figuras públicas como os próprios influenciadores ou artistas não se posicionarem em um cenário político tão polarizado como tem sido nos últimos anos?
É curioso, porque o meu posicionamento nunca foi sobre direita, esquerda ou centro, mas sobre humanidade e cidadania. O que me fez me posicionar foi tudo o que eu vi aquela pessoa representar e tudo aquilo contra o que ela se colocava. Por isso, por exemplo, eu estive em manifestações como o Ele Não, mesmo sabendo que isso poderia me trazer consequências profissionais. Tudo o que aconteceu durante a pandemia também foi determinante. Ver tantas mortes, tanta desinformação, fake news, e ainda assim perceber que algumas pessoas acreditam que nada disso é real, é algo que me choca muito. Às vezes dá até vontade de sair da internet. Entendo que se posicionar é se colocar em risco, é colocar a cara a tapa. Não se posicionar acaba sendo um lugar confortável. Mas a arte sempre foi política. Basta lembrar da ditadura, das músicas feitas naquele período, dos artistas perseguidos, torturados, das pessoas que desapareceram. Sempre houve artistas usando sua voz para falar do mundo em que viviam. Sou muito fã da Nina Simone, que foi uma das pioneiras nesse lugar de usar a arte para falar de racismo, de desigualdade, do que estava acontecendo ao redor dela. Quando perguntam por que artistas se envolvem com política, penso que essa pergunta não deveria nem existir. O que está acontecendo hoje no Brasil e no mundo com o avanço do extremismo, as guerras, o que vemos na Palestina, na Ucrânia, o que acontece nos Estados Unidos, tudo isso é uma questão de humanidade. Não é sobre partido, é sobre valores. Não critico quem não se posiciona, porque não me cabe esse julgamento. Mas tenho a tranquilidade e a certeza de que estou tentando fazer a minha parte, de que estou do lado que acredito ser o certo da história, como cidadã e como artista.
Você é mãe da Nina. Como a maternidade impacta a sua forma de ver a vida?
A maternidade ressignifica absolutamente tudo. É uma transformação profunda, muda valores, prioridades e a forma como você se coloca no mundo. A filha passa a vir sempre em primeiro lugar, mas, ao mesmo tempo, é um aprendizado constante entender que você também precisa continuar sendo mulher, indivíduo, e não apenas mãe. No meu caso, a maternidade veio junto com o trabalho. Quando a Nina tinha 5 meses, aceitei fazer “Veneza” (filme de Miguel Falabella). Eu estava amamentando, tinha passado por dificuldades no início da amamentação e morria de medo de secar o leite. Fiz acompanhamento com nutricionista, adaptei exercícios, tirava leite durante as gravações e armazenava em saquinhos, dentro de caixas térmicas, enquanto filmávamos longe da cidade, no meio de vinhedos. Levei a Nina comigo para o Uruguai, fiz introdução alimentar durante as filmagens, carreguei panela elétrica, transformador, tudo. Era uma aventura diária. Não existe manual para ser mãe — a gente aprende sendo, errando, acertando e seguindo. Ser mãe me trouxe uma potência feminina muito grande. Tive um parto natural, sem anestesia, vivi esse lugar de renascimento. Isso impactou diretamente meu trabalho e a forma como vivo personagens maternos. A maternidade me transformou como pessoa e como artista.
Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e reprodução / Instagram (imagem)





