‘Tenho um amor grande pelo Chico’

janeiro 9, 2026

Francis Hime faz temporada de shows no Rio de Janeiro e fala dos laços que o ligam a Chico Buarque, saúda Marina Lima e celebra a força da sua geração e o clã matriarcal que construiu

Um patrimônio vivo da nossa música. E um nome que, muito antes de chegar à casa dos 80 (ele tem hoje 86), já figurava no panteão de nossos maiores compositores. O cara em questão é Francis Hime, autor de um cancioneiro pleno do que podemos chamar de obras-primas, fruto de parcerias antológicas com nomes como Vinicius de Moares (o primeiro de todos), Chico Buarque, Ruy Guerra, Olivia Hime (sua parceira também na vida conjugal) e Geraldo Carneiro. Dizer que Francis é grande é pouco; ele é imenso – e danado. E o ano começa com o reencontro entre ele e seu público, sua arte e com o palco. Francis é a atração do Terças no Ipanema, o bem-sucedido projeto capitaneado por Flávia Souza Lima no qual, a cada terça deste mês, ele apresenta-se tendo as participações de Olívia (ela também diretora do show), do Quarteto Maogani e, fechando a temporada, Zélia Duncan em noite já com ingressos esgotados. A volta aos palcos dá-se após ele recuperar-se de uma fratura no fêmur, em 2024. “Estou mais propenso a cuidar da saúde”, admite ele nesta entrevista. Na conversa, por telefone, Francis fala do seu legado, dos laços que o ligam a Chico Buarque, do golpe que dá nos parceiros, saúda Marina Lima, DJ Zé Pedro, Thiago Amud e aplaude os colegas que foram às ruas protestar contra a anistia aos golpistas do 08 de janeiro.

Você se apresentou no Ipanema com a Turma do Funil, grupo formado por Danilo Caymmi, Olivia e as irmãs Miúcha, Cristina Buarque e Ana de Hollanda. Deve ter sido uma farra, não?

Tremenda! E não podemos esquecer do Novelli (baixista) e do Benjamim Santos, diretor do show. Lancei também lá o álbum “Se porém fosse portanto”, com direção do (hoje saudoso) Antonio Pedro. Depois, voltei ao teatro para assistir a peças sem mais me apresentar ali.  Tudo era muito divertido. A gente se encontrava muito mais. Hoje, temos essa sensação de que a tecnologia nos aproxima, quando, não. A gente se encontra muito menos hoje. A internet piorou nossa comunicação.

O que de mais precioso esse tempo da convalescença te ensinou? Você está apaziguado entre os fantasmas da celebração e da dor?

Estou apaziguado com essas duas instâncias. Me submeti a sessões de hemodiálise no ano passado e estou, desde então, mais propenso a cuidar da saúde. Tenho feito fisioterapia e hidroginástica. Voltei ao palco no ano passado, ainda com andador.  Tenho me recuperado bem e estou louco para gravar coisas novas.

Seu cancioneiro contribuiu para a volta da Democracia ao país. Como vê o fato de, 40 anos depois, teus companheiros de geração precisarem voltar as ruas em protesto à anistia aos envolvidos com a tentativa de golpe?

Quem diria, né? E foi por pouco. Fui convidado a participar do último ato em Copacabana, mas o Juliano, meu produtor, não sabia que eu já podia subir escada e preferiu me preservar. Teria gostado de cantar “Meu caro amigo” com o Caetano. Em havendo um próximo, estarei lá!

O Samba pra Martinho tem um quê de samba-enredo, como Vai Passar. Já teve vontade de fazer um samba para ser cantado a plenos pulmões na Sapucaí?

Isso seria um sonho! O “Samba pra Martinho” foi feito com esse intuito, de concorrer na escolha dos sambas-enredo naquele ano em que o Martinho foi homenageado. Quando concluímos a música, o prazo de inscrições havia terminado (riso). Coisa semelhante aconteceu com “Navega e ilumina”, feita a partir de um enredo da São Clemente.  Havia feito o samba a pedido do carnavalesco, mas uma briga interna fez com que ele não entrasse na disputa.

Elis precisou gravar a primeira parte de Atrás da porta para o Chico terminar a letra. Alguma vez o jogo virou e você foi pressionado a entregar a melodia?

Não, na grande maioria das vezes a melodia é a primeira coisa a ser feita. O Chico sempre entregou as letras em cima do laço. Com “Trocando em miúdos” foi assim. Eu estava no estúdio, na Som Livre, e ele chegou às duas da manhã com a letra na mão. Quando sinto que o parceiro vai demorar, aplico o Golpe do Francis.

E como ele funciona?

Gravo as bases e a orquestra, e aí o letrista não tem escapatória (risos).

Como foi realizar aquela gravação magistral de Pedaço de Mim ao lado da Gal? Foi de primeira ou fruto de muito ensaio?

Foi praticamente de primeira. Gravamos primeiramente a base (piano) e a orquestra e colocamos nossas vozes depois. Alguém da equipe empombou que um de nós estava desafinando, o que só poderia ser eu uma vez que a Gal não seria, né? Fizemos meu take separado e viram que estava tudo certo. Aquela gravação é mesmo magistral. Ela é uma das canções do Chico que mais gosto. Aquele verso que diz que a “saudade é arrumar o quarto/ do filho que já morreu” é uma coisa!

Você e Chico voltaram a dividir o estúdio em 2019, quando ele gravou “Laura”, tua parceria com Olívia em homenagem à Laurinha, tua neta.  O que foi mais prazeroso nesse reencontro?

O mais gostoso foi relembrar dos velhos tempos. Falaram que eu deveria ter cantado com ele, mas preferi que ele solasse. Tenho um amor grande pelo Chico, e a saudade era grande também. A gente se encontrava quase todo dia, e não somente para compor, mas para jogar futebol ou conversa fora. Tenho saudades desses tempos. Fizemos grandes canções juntos. O Chico é meu melhor amigo.

Pássara inspirou Marina Lima a compor Pássara II. Como recebeu na época essa glosa musical?

Ela fez isso? Que incrível!

Sim, no álbum O Chamado…

Isso é maravilhoso, pois mostra que certas músicas chegam às pessoas e ultrapassam barreiras e os limites do tempo. Isso me deixa muito feliz. Da mesma forma que foi uma surpresa o que o Zé Pedro fez com as minhas canções no Vivo Rio (o DJ apresentou remixes antes do início do show)… As canções têm vida própria e é bonito ver o que elas provocam nas pessoas.

Falando nisso, qual artista convidaria para uma nova versão do álbum musical?

O Thiago Amud. Ele é um músico e um artista extraordinário. E tenho ainda a alegria de tê-lo como parceiro.

Olívia é sua parceira na música, no palco, no estúdio e na vida… Como atravessar as turbulências numa relação tão longeva?

Olívia tem uma resposta gaiata para esta pergunta: ela diz que nossa parceria perdura porque ela não me conhece bem (risos). As turbulências existem e são inevitáveis e digo que o amor é fundamental para que elas sejam atravessadas com serenidade. Eu credito ao amor a longevidade da nossa parceria. Tive a sorte de encontrar na Olívia minha cara-metade.

Ser pai de três mulheres e avô de quatro te aproximou mais de pautas feministas?

Me aproximou sim. Costumo dizer que tenho um lado feminino bem resolvido. O fato de conviver com muitas mulheres me deixou, sim, mais atento às demandas e às reivindicações delas, e essa convivência só me faz bem. Não saberia dizer como seria se eu tivesse tido um filho ou um neto.

Fora a Olívia, Geraldo Carneiro é um parceiro constante hoje na tua trajetória. Ele tem isso de aliar o respeito ao cânone e ser moderno, atento à fala das ruas. O que nele te atrai mais?

O Geraldinho é isso mesmo que você disse. Acho que em apenas três ocasiões ele letrou melodias minhas. Em todas as outras, musiquei poemas dele. Com o Vinicius (de Moraes) também era assim. De uns tempos para cá, peguei essa manha de musicar poemas. O Ruy Guerra brinca que, se deixar, musico até bula de remédio (risos). Mas é importante que o resultado fique homogêneo, sem parecer que a melodia está correndo atrás da letra.

“Embarcação”, lançada na época da Guerra das Malvinas, traz os versos “Pensei que os mares fossem meus/ Como pensam os ingleses”. Hoje quem pensa assim é Donald Trump, não?

Com certeza! Mas, além do viés político, há na letra uma provocação comigo. O Chico tira um sarro da minha origem. Ele tem esse lado. O Chico é muito gaiato também.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Nana Moares (imagem)

 

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