“Maria Bethânia canta como uma jovem árvore que queima”. O poeta Vinicius de Moares (1913-1980) não poderia ter sido mais preciso, cirúrgico, até. A definição é de 1965, ano em que Bethânia, então com 19 anos, arrebatou o público no histórico show “Opinião”. Antes de se tornar um dos maiores nomes da música, a artista já se afirmava com sua voz única e forte presença cênica. Essa travessia inicial — formadora e decisiva — é o centro de “Maria Bethânia, primeiros anos — da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro” (Editora Letra e Voz), novo livro do jornalista e pesquisador Paulo Henrique de Moura.
E o aguardado lançamento da obra no Rio de Janeiro já tem data e local para acontecer. Será no dia 17 deste mês, na Tropicália Discos, Centro da cidade. Resultado de uma pesquisa para dissertação de mestrado defendida pelo autor na USP em 2024, o livro investiga o momento em que a jovem Bethânia deixa Salvador rumo ao Rio, em 1965, para substituir Nara Leão no supracitado “Opinião” — criado por Armando Costa (1933-1984), Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), Ferreira Gullar (1930-2016) e Paulo Pontes (1940-1976), sob direção de Augusto Boal (1931-2009), que enfrentou de frente o início do regime ditatorial no país.
Paulo Henrique analisa também a participação da cantora em outros espetáculos políticos de 1965, como “Arena canta Bahia” e “Tempo de Guerra”, este último escrito por Boal especialmente para ela, a partir de textos de Bertolt Brecht (1898-1956).
O livro revisita o acervo documental do Teatro Vila Velha, em Salvador, onde Bethânia encenou “Nós, por exemplo” e “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova” — apontadas como embriões do pensamento estético que desembocaria na Tropicália.
A publicação também revela documentos que comprovam a vigilância dos órgãos de repressão da ditadura militar sobre a artista, em razão de sua participação em espetáculos de viés político e do apoio a causas sociais. O livro ainda dedica atenção ao espetáculo “Mora na Filosofia”, dirigido por Caetano Veloso em 1964.
Depoimentos inéditos de nomes como Rodrigo Velloso, irmão da cantora, Gilberto Gil, Jards Macalé (1943-2025), Edy Star (1938-2025), Roberto Santana, Thereza Eugênia, Djalma Corrêa (1942–2022), e da própria Bethânia estão presentes na obra.
— Escrever sobre os primeiros anos de Bethânia é revisitar um Brasil que também buscava se compreender. A trajetória dela no teatro político e nos palcos da Bahia mostra que, antes de ser uma cantora de sucesso, Bethânia já era uma artista completa, consciente da força simbólica da palavra e do gesto. A pesquisa é uma tentativa de recuperar esse momento fundador, quando sua arte começou a se misturar com a história do próprio país — declara Paulo Henrique.
Crédito da imagem: Thereza Eugênia/ Reprodução (instagram)





