‘A novela não vai acabar’

dezembro 26, 2025

Denise Fraga brilha no teatro e no cinema e fala da chegada aos 60 anos, da perda da mãe, da relação com a TV e dos hábitos em prol da saúde psíquica

O artista é um ser político. E os atores são, em especial, observadores do comportamento humano e da sociedade onde estão inseridos. Denise Fraga se insere perfeitamente nessas duas características e, danada que é, vai além delas. Uma das mais instigantes atrizes de sua geração, ela está também atenta a esses tempos em que vivemos a falsa impressão de estarmos conectados. Tanto que, este ano, abraçou projetos nos quais pôde questionar as regras impostas por esse novo status quo. No teatro, brilha ao lado de Tony Ramos no esplêndido “O que só sabemos juntos”, espetáculo concebido por eles juntamente com o diretor Luiz Vilaça e, no cinema, estrela o tocante “Livros restantes”, dirigido por Marcia Paraíso. “Uma das funções da arte é a de recuperar o fascínio pela existência”, reconhece ela, que completou recentemente seis décadas de existência. E Denise quer muito mais. “Um lugar onde possa fazer meu teatro e meu samba, reunindo pessoas para falar de arte”, propõe nesta entrevista por chamada de vídeo e na qual aplaude a abertura da TV à diversidade e fala sobre sua relação com o veículo (“Assisto pouco à TV aberta”), além de admitir não maratonar séries e acenar com a possibilidade de atuar numa novela vertical. “Vivemos num mundo de atenções pulverizadas”, constata. E, para nossa alegria, Denise Fraga faz parte dele.

Tua personagem no cinema resgata afetos através das dedicatórias dos livros. O que mais te entristece nessa falsa sensação de hiperconectividade que os dias de hoje nos trazem?

Acho que estamos testemunhando uma das maiores mudanças de comportamento da história da humanidade. Essa hiperconectividade está incomodando a todos nós, mesmo os mais conectados e deslumbrados com isso.  Uma coisa que tenho ouvido muito é como o filme é calmo. O Brasil é hoje campeão em doenças de ansiedade. Isso é um grande sintoma, e a gente precisa urgentemente nadar contra essa corrente. E precisamos para isso de pequenos exercícios como o de ler uma página de livro por dia. Não entro mais no banheiro com o celular. Um Drummond te salva mais do que uma passeadinha pelo celular. A gente precisa de poesia.

Quais os livros que você não admitiria perder de jeito nenhum?

Tenho uma edição antiga, de sebo, com os 30 melhores contos do Machado de Assis. Eu a levo na mala para aqueles momentos em que estamos no aeroporto, o voo atrasa e acabo sendo salva pelo Machado. A gente tem no Brasil esse patrimônio que é Machado de Assis e faço aqui uma crítica, pois acabamos lendo ele fora de hora. Então, sou uma das que voltaram ao Machado depois do colégio. Outro nome que recomendo é o da Clarice Lispector. Um livro dela do qual gosto muito é “A descoberta do mundo”. É um livro muito necessário para mim.

Muitos dos teus projetos na TV foram inclusivos e jogavam luz sobre os invisíveis muito antes de essas pautas estarem em voga. Em que ponto esse pioneirismo mais te orgulha?

Na época do Retrato Falado não existia reality show, não existia o anônimo na TV. O programa era black face. A gente deu voz a mulheres comuns e foram 176 ao todo. E uma coisa que aprendi com elas foi uma palavra que está muito em voga hoje: resiliência. Essa mulher que sabe ali ser água no meio das pedras. A gente precisa saber ser torrente e aumentá-la para conseguir chegar nos lugares. Até hoje as pessoas me param para me contar histórias, e olha que o programa era de 97! Tínhamos uma premissa bonita que era a de rir com ela (a personagem) e não dela, sem fazer chacota. Tudo o que faço tem humor. Confio no humor como um convite à reflexão. O anônimo foi à tv numa época em que não havia redes sociais e reality show.

Falando em humor, todos os ex-integrantes da TV Pirata dizem que os bastidores eram tão divertidos quanto as gravações. O que você guarda de mais engraçado daquela época?

Eu tinha 26 anos e fui convidada para fazer um programa do qual era fã. Quando o Guel Arraes me convidou, custei a acreditar. Já na minha primeira cena tinha de beijar o Nanini, imagina (risos)! Lembro que o Luiz Fernando Guimarães veio falar comigo e tive vontade de rir. E eu era muito tímida, e o teatro me ajudou muito a perder essa timidez. Estar com eles no camarim era muito divertido também e eu pensava que deveria pagar ingresso para estar ali.

E você contracena com Tony Ramos no teatro e nós pagamos ingressos para ver vocês. Dan Stulbach, ao falar do Tony, destacou sua cordialidade. O que o Tony tem de mais comovente para você?

Eu consigo ver esse homem cordial de quem o Dan fala. O Tony é um príncipe em matéria de educação e gentileza. E você pensa que vai chegar o momento em que a máscara daquele personagem vai cair, e ela não cai porque ele é exatamente daquele jeito. Ele é afável e afetuoso, e isso faz parte da educação dele. E minha admiração por ele triplicou quando, após assistir ao “Eu de você’, disse a mim e ao Luiz (Villaça, diretor e marido da Denise) que gostaria de fazer algo conosco porque a peça o havia perturbado. E lá fomos nós para a sala de ensaio, sem uma dramaturgia estabelecida. O espetáculo foi sendo criado ao longo dos ensaios, e o Tony entrou nessa no escuro, confiando na gente e naquela vontade de estar no teatro. Ele poderia estar num pedestal e, aos 76 anos, quis correr riscos e foi lá rolar no chão da sala de ensaio! Vi aquele homem olhar para si e se revisitar, e isso é gratificante.

Na novela Um lugar ao sol, sua personagem lidava com o fracasso e seu desempenho foi comovente. Agora, aos 60, é possível contabilizar algum fracasso?

Lá no meu início…

No Tapa?

Aquele início foi muito duro. Eles estavam juntos há muito tempo, eu era muito jovem e  me senti deslocada e comecei a não ter prazer de estar ali. A grana era curta e cheguei a vender Natura até que pedi para sair. E, por falar bem inglês, cheguei a fazer teste para aeromoça, acredita? Fiquei sem fazer teatro e muito triste por isso. Até que, numa leitura na(escola de teatro) Martins Pena, formamos o grupo Cite Teatro. Fizemos muito projeto escola levando o cenário no fusquinha. E o contrário também aconteceu. No auge do sucesso do Retrato Falado notei que faltava algo. Fiquei sete anos dedicada à TV e sem fazer teatro, até que voltei e me dediquei quase que preferencialmente. Tanto que recusei trabalhos na TV por estar em temporada.

A jornalista Scarlet Moon te adorava e dizia que você tinha um quê da Marieta Severo. Quais os colegas de profissão que mais te influenciaram?

Sabe que muita gente achava que eu era filha da Marieta? Já ouvi de colegas que  tenho algo dela, e reconheço que sim. Mas a minha musa é Marília Pêra. Lembro que quando fazia “Desgraças de uma criança”, a Tania Brandão escreveu uma crítica com a seguinte observação: “Denise Fraga é uma atriz talentosa e não precisa ficar imitando Marília Pêra” (risos). A Marília tinha aquela desenvoltura de transitar entre a comédia e o drama que era algo único nela. Várias atrizes da minha geração são um pouco filhas da Marília. A Fernanda Montenegro é nossa padroeira, mas a Marília é a nossa principal referência.

A TV está mais diversa e inclusiva. Como você vê o futuro deste veículo?

Não sei… Assisto pouco à TV aberta e à TV de um modo geral. Acho que o consumo por demanda vai crescer cada vez mais. Da mesma forma que elaboramos listas aleatórias com músicas nas plataformas, a TV vai nos possibilitar isso também. Confesso que não tenho paciência para maratonar séries. Gostaria de ver algumas delas de forma mais condensada como num filme. O cinema é o maior veículo de uma nação. O que sei sobre o Irã e sobre a China, soube através do cinema. E as novelas têm uma importância imensa à formação do nosso país. Notei que minhas tias e pessoas mais velhas na minha família ficaram mais tolerantes às relações homoafetivos e isso foi possível graças às novelas. Vemos hoje mais pessoas negras como protagonistas, e isso tem uma importância enorme. A novela não vai acabar. E esse reconhecimento que a TV nos dá pode ser que fique ainda mais fortalecido na medida em que ela fique mais inclusiva, na medida em que te dê mais respostas nesse mundo cada vez mais deflagrado.

A novela vertical te atrai como projeto?

Como atriz sim, mas como espectadora acho improvável ainda. Não sou de assistir a coisas pelo celular.  É cansativo para mim, mas o mundo está ali, eu sei. E agora, entre os jovens, há essa demanda pela segunda tela… Meu filho perguntou se poderia ficar com meu celular antigo como segunda tela, e perguntei que maluquice era aquela. Vivemos num tempo de atenções pulverizadas. Esse mundo me angustia muito. Não encontro prazer em viver nesse modo de aceleração constante.

Consegui ler dez livros durante as férias e me surpreendi ao constatar isso…

Mas você é uma pessoa diferenciada. Ler é hoje um exercício que te exige muita atenção. Se a vida estiver acontecendo no entorno, é difícil manter a concentração. Se abrir o whatsapp ferrou! Tenho adotado mudanças na minha vida porque sentia que estava muito agitada. Agora só acesso o whatsapp depois do café da manhã. Quando me preparo para dormir, escovo os dentes e tomo meus remédios ouvindo música clássica. Isso me possibilitou voltar a lembrar dos meus sonhos. Há muito tempo que não lembrava deles. Vivenciamos as coisas e, minutos depois, não lembramos do que vimos. Essa atenção estilhaçada afeta nossa assimilação das coisas.

E por falar em sonhos o que te falta realizar?

Perdi minha mãe este ano e vivi um pouco como se fosse morrer. Com esses dois filmes e as duas peças carimbo esse meu ano ainda com a possibilidade de me reinaugurar. Fiz 60 anos e tenho ainda uma vida pela frente. Um lugar aonde possa fazer meu teatro e meu samba, reunindo pessoas para falar de arte.

Você tem proferido palestras…

Que chamo de palestração. Esse título palestra me dá um arrepio danado, pois tem algo de professoral e parece que vou ensinar algo, quando o que tenho são inquietudes. E começaram a me chamar e fui indo, até que cheguei no meio corporativo, que é um meio muito endurecido. Gosto de me sentir infiltrada ali. São pessoas levadas por essa vida veloz, com a sensação fictícia de que são seus patrões, quando têm na verdade metas a cumprir, metas que os levam a trabalhar 15 horas por dia! Elas acham que, como não têm horários, têm liberdade, mas estão escravas delas próprias. Esse lance do patrão de si mesmo é a última instância da lógica capitalista. Há essa necessidade de autoperformance e acreditamos que isso seja a liberdade. O Brasil é o primeiro do mundo em doenças de ansiedade. É uma sociedade em depressão. Vamos combinar que esse projeto deu ruim, né? Uma das funções da arte é a de recuperar o fascínio pela existência. Ainda é legal estar aqui.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Loiro Cunha (imagem)

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