por Rodrigo Fonseca*
Mais concorrido de todos os artistas convocados para o Marrocos pela direção artística do 22° Festival de Marrakech, Oliver Laxe, um galego nascido em Paris há 43 anos, é cercado pelos flashes dos fotógrafos e pelas câmeras de TV como se fosse um modelo de passarela, mas sua fala contraria fashionismos. Realizador respeitado, ele assina um dos filmes mais premiados de 2025: “Sirât”, longa-metragem que pode trazer um Oscar para a Espanha. Sua projeção no abre-alas da Mostra de São Paulo, em outubro – quando foi representado em solo paulistano pelas atrizes Stefania Gadda e Jade Oukid – foi um acontecimento nas raias do pop. O que se vê em sua narrativa, contudo, contraria lógicas de algoritmos. Sua tônica metafísica assegurou ao longa-metragem, que só chega ao circuito comercial nacional em fevereiro, o Prêmio do Júri de Cannes. Em telas marroquinas, sua projeção é uma coqueluche, como a NEW MAG conferiu in loco, antes de entrevistar Laxe.
Desde sua primeira exibição mundial, no dia 15 de maio, nas telas de Cannes, tendo os irmãos Agustín e Pedro Almodóvar entre seus produtores, “Sirât” ganhou status de “filme obrigatório” por apostar num casamento (raro) de transcendência espiritual e experimentação formal ao falar de perdas e reconfigurações. É político em sua radiografia da falta de pertencimento entre as populações da Europa que não se rendem a regras históricas do capitalismo. Tratado como um dos favoritos à Palma de Ouro de 2025 desde sua projeção inicial, deixou a Croisette sob a bajulação da crítica e correu por eventos de respeito como o Festival de San Sebastián. Passou por lá feito um trator, com a força que ganhou depois de ter sido escolhido pela Espanha como seu representante oficial na corrida por uma vaga na briga pelo Oscar.
Depois de ter interrompido seu ciclo de longas no Marrocos (“Mimosas”; “Todos Vós Sodes Capitáns”) para filmar “O Que Arde” (Prêmio do Júri na mostra Un Certain Regard de 2019) na sua Galícia natal, Laxe retornou aos desertos do norte da África para um périplo que começa numa micareta de música eletrônica e passa por um chão de minas explosivas, numa triagem de violências históricas. Insiste, contudo, que sua mirada não é de desesperança, mas, sim, de aliança. Tudo começa com uma rave no Marrocos, num espaço desértico de rocha e areia. Amalgamada à fotografia de Mauro Herce, a engenharia de som consegue transportar o público para aquela paisagem numa fricção sinestésica.
Na trama de “Sirât”, um pai (Sergi López) e o filho chegam a uma rave perdida nas montanhas do sul do Marrocos. Eles estão à procura de Mar – filha e irmã – que está desaparecida há vários meses numa dessas festas intermináveis. Imersos na melodia bate-estaca e numa liberdade crua que lhes é estranha, eles distribuem incansavelmente a foto dela à espera que alguém a reconheça. A esperança vai-se esvaindo, mas eles perseveram e seguem um grupo de ravers para uma última festa nas montanhas. À medida que se aprofundam na imensidão escaldante, a jornada leva-os a confrontar os próprios limites. Fronteiras são alargadas nessa conversa de Laxe:
O título “Sirât” tem um significado espiritual ligado ao outro mundo. O que representam para você os temas religiosos e espirituais associados a esse nome. Sem tradução?
Cada filme reflete os valores e a cosmologia do cineasta. Para mim, a vida é um sirât: um teste para melhorar a si mesmo e transcender quando morrer. Isso é central na cultura muçulmana sufi. Como ser humano e realizador, preocupo-me com essa dimensão. No filme, as pessoas sofrem e morrem, mas, nessa cultura, a pergunta não é “por que morreu?”, isso seria absurdo. A questão é como se morre: com dignidade? A alma transcende? Os valores vencem o ego? “Sirât” trata disso — e a minha vida também. Minha prática artística é uma prática espiritual. Tenho medo de morrer sem dignidade. Em Marrocos, ouve-se muito: “Viemos de Deus e voltamos a Deus.” Há fé nas vozes de quem perdeu tudo. Espero alcançar esse nível.
Que descobertas você fez sobre si mesmo enquanto realizava “Sirat”?
A descoberta de que ser artista é entregar-se à intuição. A vida empurra você para a beira do abismo para ver quem você é — ela quer que você salte, mesmo quando parece não haver rede. Minha prática é aprender, devagar, a ter fé para saltar sem medo, porque sempre há rede. Talvez isso seja o essencial do meu trabalho. É por isso que “Sirât” tem algo especial. Hoje, é raro fazer um filme assim. Tenho medos, ego, ambição — projetei-me para Cannes — mas sei que preciso saltar. Mesmo o fracasso me faz crescer. Se for meu último filme, ainda assim será crescimento. Talvez eu descubra que não sou realizador. O espectador sente essa liberdade. Como dizia Pasolini: o público se alimenta da liberdade dos outros. Não digo que sou totalmente livre, mas estou mais conectado à minha essência do que muita gente.
Você diz que a maneira como se morre é importante. No filme, as mortes que vemos – e elas são surpreendentes – são súbitas e imprevisíveis. Isso é uma metáfora do presente?
As culturas são mais próximas do que imaginamos. Não vejo a morte como cruel. Tem de ser assim. Observe como morrem no filme: dançando. Eu gostaria de morrer assim. Se você morre celebrando, a alma transcende. A morte é a porta da eternidade. Outros personagens morrem ajudando alguém. É difícil entender as regras da vida: por que uma alma vem ao mundo, qual é o propósito, quais são as consequências da sua passagem. Mas não tenho dúvida de que existe uma razão — mesmo quando dói. Perder um filho pode ser uma misericórdia. Converso com pais que passaram por isso: até essa dor pode ser um dom.
Como foi o processo de criação de uma narrativa de rave, no deserto?
Amo a cultura rave e queria partir dela para cruzar o limite do que é humano ao seguir uma figura que confronta com o abismo. Tenho uma equipe fiel, que é uma família, que está sempre comigo na construção dos meus filmes. Eles são, sim, complicados de fazer.
Vejo “Sirât” como um filme de memória — como se compartilhássemos a lembrança de alguém que nunca vemos. O que representa a memória na estrutura do filme, especialmente na figura do pai?
A palavra “memória”, em árabe, é zika: recordar. A vida é recordar nossa condição divina — e também esquecê-la. Perdemos essa ligação. Sim, Sirat fala da perda. Ser humano é perder desde o primeiro dia: saúde, tempo, pessoas. Ser livre é aceitar que não se é livre. É lidar com a perda e ver nela um presente. “Sirât” também é um filme sobre feridas — a ferida do mundo e a nossa ferida interior. Fizemos o filme conectados com essa dor. Não digo isso de forma dramática: é uma necessidade para encontrar equilíbrio.
*enviado especial do NEW MAG ao Festival de Marrakech





