‘Nunca fiz música pensando em dinheiro’

novembro 21, 2025

Prestes a começar nova turnê, Patrícia Marx revela que está escrevendo suas memórias e fala sobre sucesso precoce, independência artística e crise na indústria da música

A voz é a de um cristal. E, como tal, chega a ser translúcida de tão limpa e comovente de tão sofisticada. E esse brilho se mantém há mais de quatro décadas, quando Patrícia Marx chegou à cena no balanço do Trem da Alegria. A artista fez da música sua gare principal e, nesta estação, brilha desde que trilhou carreira solo, conquistando seu lugar não somente entre as grandes vozes da cena pop como um dos mais burilados timbres femininos do país. A versatilidade não é somente uma marca da artista, mas da mulher e cidadã, interessada por temas que vão do cinema à sociologia. Patrícia alia seu canto à parte do cancioneiro de Ivan Lins, que completou 80 anos sendo celebrado por ela em “Nos dias de hoje esteja tranquilo”, no qual recria oito obrasprimas deste gênio da MPB. “Meu leque de interesses é amplo”, conta ela ao NEW MAG, em entrevista por telefone, em meio aos preparativos para o primeiro show da turnê, que aporta na próxima quintafeira (27), no Teatro Rival Petrobras, Rio de Janeiro. A seguir, ela fala dos ganhos e dos prejuízos trazidos pelo sucesso precoce, celebra a independência artística, reforça o coro por uma remuneração mais digna aos artistas pelo streaming, opina sobre crise na indústria da música e revela a preparação paulatina de um livro com suas memórias. “Será uma autobiografia desconstruída”, diverte-se.

 

O álbum tem oito canções do Ivan Lins. Imagino que essa seleção tenha saído de uma autêntica Escolha de Sofia, não?

Foi uma escolha muito difícil. Imagina você condensar uma carreira imensa como a dele em apenas oito faixas? Chegar a esse consenso foi muito difícil. E a pesquisa para esse trabalho foi muito prazerosa. Reouvi os álbuns do que já conhecia e descobri outros que não conhecia.
Você chegou a bater o pé em relação a algumas delas, que queria desde sempre? Três das faixas eu fiz questão que estivessem presentes no trabalho: “Abrealas”, “Cartomante” e “Aparecida”. Não poderia abrir mão delas.

E como o Ivan recebeu essa iniciativa? Você chegou a ter a bênção dele?

Ele estava em turnê pelo Japão quando soube da ideia do álbum. Pelo que soube, ele ficou muito feliz e isso me foi trazido pelo João e pelo Claudio (filhos do compositor),o que me deixou muito feliz. Não falei com o Ivan ainda, acredita (risos)?

Você dá novas tonalidades a canções emblemáticas, como “Cartomante”, cuja gravação da Elis é antológica, por exemplo…

As canções ganharam novas roupagens, com novos arranjos, diferentes de como foram gravadas originalmente. O Ivan tem esse viés político latente em algumas das suas canções. Agora é o momento certo para voltar a cantálas. E pude levar a elas e ao álbum influências de outras coisas que gosto e que assisti recentemente, como o “Democracia em vertigem” (documentário da Petra Costa) ou mesmo “Ainda estou A
qui”. A relação entre as personagens da Fernanda (Torres) e do Selton (Melo) é de muita cumplicidade e de muito companheirismo, e isso me tocou muito. Meu leque de interesses é amplo. Tem um lado em mim que é muito politizado. Essa consciência social faz parte de mim.

Você foi uma das pioneiras a trazer o drum n’ bass à música brasileira ao mesmo tempo em que recria com maestria temas de medalhões da MPB como Chico Buarque e Caetano Veloso…

Isso é meu. Tenho essas duas vertentes: um interesse pelo novo e um olhar para o antigo. E esse olhar é muito genuíno. Nunca fiz música pensando em dinheiro. Fizeram isso por mim no início da minha carreira! Tenho muito amor pela minha arte, pela música e pelos compositores, vários deles gênios.

Quando chove” voltou à TV recentemente, em razão de mais uma reexibição de “A viagem”. A TV ainda é importante para impulsionar uma canção?

Acho que ainda é importante sim. A novela ainda tem um alcance grande e ocupa esse lugar de grande comunicação com as massas e com todas as classes sociais. E, no caso de uma reprise, isso faz com que a música chegue às novas gerações. Agora, sob o ponto de vista do retorno financeiro, ele já foi melhor.

Há hoje a discussão sobre regulamentação da arrecadação no streaming. As gravadoras ganham fortunas enquanto os artistas recebem caraminguás. Como você vê a questão?

Essa questão da arrecadação sempre foi problemática para a classe artística, e isso não vem de hoje. No tempo do vinil, a prestação de contas nunca foi clara. Nessa matemática entre os discos fabricados e vendidos, o artista sempre levou a pior, mesmo aqueles que ganharam dinheiro. Agora somos dependentes das plataformas. As ferramentas existem, a oferta é grande, e a concorrência é mais democrática e
também desleal. Hoje posso dizer que sou uma artista independente. Estou há dez anos na Lab 344 e tenho com eles uma relação de confiança e de liberdade. Eles abraçam as minhas ideias, e isso é reconfortante. O retorno para este tipo de investimento é a longo prazo, eu sei, mas é importante perseverar.

A diversidade está mais presente na cena pop. Como vê essa abrangência?

Acho essa visibilidade positiva. Ela está em pauta e isso é importante. Só acho que os artistas, de um modo geral, não podem descuidar dos seus propósitos. O que me toca é o talento, a expressão artística, e ela é mais importante do que qualquer pauta. Vejo que, em alguns casos, o movimento está mais à frente do que a arte. O importante é a música transmitir uma emoção genuína. E isso vale para a arte de um modo geral: à música, literatura, ao cinema… O subjetivo é mais importante do que o objetivo.

E o que ou quem te arrebata na música hoje?

Acho Seu Jorge maravilhoso. Isso que ele tem de criar uma sonoridade aliando novidade ao resgate de ritmos e estilos antigos é muito interessante. Acho que estamos vivendo uma crise na música. Há a massificação de certos estilos e acaba havendo uma pasteurização de alguns artistas, que ficam todos parecidos. O mercado está dividido: de um lado, coisas frágeis; do outro, coisas pueris. Não sei para onde isso vai. Por isso gosto de dar minhas voltinhas pelo passado (risos). A base de tudo está lá.

Há hoje mais infraestrutura para acolher o público e artistas. Você já deve ter passado por poucas e boas nos anos 1980, não?

Nossa, já precisei ser retirada em camburão, com as pessoas do lado de fora batendo no vidro… Tudo era mais precário nos anos 1980. Estávamos longe ainda do esquema que pudemos ver recentemente no show da Lady Gaga, por exemplo.

Viveu alguma situação mais abusiva ou vexatória?

Os horários das gravações eram muito perversos. Muitos dos arranjos eram criados no calor da hora, em trabalhos que entravam pela madrugada. Com “Te cuida, meu bem” foi assim: havia uma caminha para eu dormir e, no meio da madrugada, fui acordada com o aviso de que tava na hora de gravar. Levantei, bebi água e fui cantar. Isso me causou um problema com o sono que me acompanha até hoje.

Tem algo que não conseguiu viver e que esteja disposta a resgatar hoje?

Quero fazer hoje tudo o que não pude. Queria ter estudado e não consegui. Estou cursando psicologia e isso é a realização de um sonho antigo. Tenho interesses que o público sequer desconfia. Me interessam questões relacionadas à sociologia e à antropologia, por exemplo.

E o que falta a Patrícia Marx realizar?

Estou escrevendo um livro em que misturo textos antigos e atuais, poemas e relatos sobre coisas que vivi. É uma biografia não linear e desconstruída (risos), que está sendo escrita no meu tempo.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e divulgação (imagem)

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