A primazia coube certamente a Odete Lara (1929-2015) e a Norma Bengel (1935-2013), musas do Cinema Novo. Enquanto a primeira gravou e participou de shows com Vinicius de Moares (1913-1980) nos anos 1960, a segunda gravou álbuns como o antológico “OOOOOhhhh, Norma” (1959) e, duas décadas depois, o provocativo “Norma canta mulheres”. Num país célebre pelo Teatro de Revista e rico em grandes cantoras, as duas inauguraram um filão: o das atrizes-cantoras. Ou cantrizes como comumente são descritas pela imprensa.
O filão ganharia mais caldo na década seguinte com duas já grandes damas do teatro abrindo picadas no mercado fonográfico: Bibi Ferreira (1922-2019), em especial com a trilha de “Gota d’água” e, na década seguinte, com a de “Piaf”, e Marília Pêra (1943-2015) com o álbum do show “A feiticeira”, lançado em 1975.
A virada da década para os anos 1980 marcaria ainda o surgimento de duas outras cantrizes, ambas na ativa até hoje: a inigualável Cida Moreira, egressa da Vanguarda Paulistana, e a carioca Sandra Pêra. Revelada no irreverente conjunto vocal As Frenéticas, formado na sua maioria por jovens atrizes que despontaram como garçonetes no lendário Frenetic Dancing Days, o grupo viveu o boom da disco music no país. E, no começo da década seguinte, Sandra saiu em carreira solo com LP que trazia seu nome no título.
Feito o preâmbulo, vamos à novidade. A artista está de volta aos palcos. O show é calcado no repertório do seu álbum mais recente, “Eu apenas queria que você soubesse” (Biscoito Fino), no qual debruça-se sobre parte nada óbvia do cancioneiro de Gonaguinha (1945-1991), com quem viveu história de amor no início dos anos 1980.
O show estreou na noite da última quinta-feira (13), no Teatro Rival Petrobras, e, nele, Sandra mostra as credenciais (já conhecidas por quem acompanha seu trabalho) da atriz-cantora de apuradas sensibilidade e disciplina (nada espantoso em se tratando da irmã de Marília Pêra).
Com direção artística de Amora Pêra, sua filha com o compositor, e direção musical desta em parceria com Paula Leal, a intérprete, amparada por quinteto azeitado com destaques para Rodrigo Lima (guitarra) e Aline Gonçalves (sopros), desfila com intimidade por canções que passam ao largo dos esperados sucessos do compositor.
Enquanto “Feliz” e “Maravida” ganharam releituras personalíssimas, a vibrante “Borboleta prateada” teve seus tons jazzístico-regionalista ainda mais acentuados pelo conjunto. Mesmo um tema muito manjado como o samba “O que é, o que é?” ganhou novo invólucro ao complementar uma comovida ‘Coração”.
Sandra passeia com segurança e intimidade pelas 17 canções do roteiro, aberto com “Com a perna no mundo” e arrematado, no bis, com “Grito de alerta” num andamento acertadamente abolerado e diferente da célebre interpretação de Maria Bethânia.
Aquela menina que, juntamente com suas companheiras de grupo, convidou o país a abrir suas asas e soltar suas feras, cresceu. E aprimorou-se. E, quase cinco décadas depois, está mais do que na hora de este mesmo país atentar para a artista que ela é agora. Uma atriz-cantora que segue segura e plena na picada aberta pelas cantrizes que a precederam.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Ariel Cavotti (imagens)






