“Conheci Caetano Veloso no sítio dos Novos Baianos”. A declaração veio de outro gigante da nossa música: Raimundo Fagner, e foi dada em tom informal, na noite da última terça-feira (11), em evento que celebrou, no Espaço Cultural Paulão 7 Cordas, Centro do Rio de Janeiro, os 50 anos de carreira de Abel Silva, grande poeta da nossa canção. “Olhei para cima, e ele estava no alto de uma goiabeira. Foi ali que vi pela primeira vez o Caetano, que foi e é meu ídolo até hoje”, complementou o compositor.
A declaração entre os números musicais escolhidos por Fagner para homenagear Abel num set aberto com “A canção brasileira” (com Sueli Costa e gravada por Fagner em 1980) e que incluiu ainda ’Sangue e pudins” tendo seu ápice com “Jura Secreta”, cantada em coro pelos presentes. E entre um e outro número, o artista lembrou do sítio que serviu de morada à trupe formada por Moraes Moreira (1947-2020), Pepeu Gomes e Baby do Brasil (na época Consuelo).
– Era tanta maconha que a peneira usada tinha de ser a da construção civil – lembrou Fagner arrancando risos do público ao falar daquele oásis artístico em plena Ditadura Militar.
O compositor foi o bendito fruto entre duas grandes vozes femininas escaladas para a homenagem: Clarisse Grova e Teresa Cristina. Enquanto a primeira abriu os trabalhos fazendo bonito em “Serena” e “Quando o amor acontece”, parcerias de Abel com Cristóvão Bastos e João Bosco, respectivamente; a segunda demonstrou intimidade com o cancioneiro do aniversariante ao defender três de suas parcerias com Sueli Costa: “Música, música”, “Primeiro jornal” e “Corpo”, esta parte do título de “Corpo e alma”, o célebre LP lançado por Simone em 1982.
– São canções que canto na minha intimidade, debaixo do chuveiro ou quando estou arrumando a casa – contou Teresa, revelando em tom de anedota sua visão sobre a relação entre Abel e Sueli: – Durante um tempo me referia a eles como sendo uma pessoa só. Perguntavam de quem era uma determinada canção e respondia: Sueli-Costa-Abel-Silva.
Sobre sua mais célebre parceira, coube a Abel a revelação: “A maioria das nossas parcerias surgiu de poemas que mostrava a ela. A exceção foi “A canção brasileira”. Numa visita à Sueli, ela disse que chegara em boa hora pois tinha emperrado na letra para a canção. Após ouvi-la repetidas vezes, complementei a parte que faltava.
Mas foi numa parceria com João Donato (1934-2023) que Abel viu que poderia colocar letra numa melodia. E o “cupido’ entre os parceiros foi Nana Caymmi (1941-2025), namorada de Donato na época.
– Numa visita do casal ao Dorival (pai da cantora), Donato ouviu de Caymmi que suas melodias eram muito boas, mas que precisavam de letra para terem longevidade. Diante do fato de Donato não conhecer nenhum letrista, Nana foi taxativa: “Abel Silva!” – recordou o homenageado, que teve seus textos lidos ainda por Mano Melo, Claudia Roquette Pinto e por Paulo Sabino, realizador do sarau.
Fagner é outro que tem uma vasta parceria com Abel e fez troça da “rivalidade” entre o amigo e outro de seus letristas:
— Você e Fausto Nilo competem para saber quem tem mais parcerias comigo e me divirto à beça com isso.
Se os compositores se divertem, quem leva a melhor é o público, brindado com joias como “Festa do interior”, com que Abel encerrou o evento.
E naquela trincheira da cidade, o que explodia era o amor.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Igor Cabral (imagens)







