Prevenção essencial

novembro 9, 2025

O preconceito e a desinformação colaboram para o aumento de casos de câncer de próstata, afirma Jorge Jaber em seu artigo

Desinformação e preconceito matam. A frase pode soar como um bordão publicitário, mas tem um grande fundo de verdade, principalmente quando se refere ao câncer de próstata. A tola e até infantil resistência de muitos homens a um dos métodos mais eficazes de diagnóstico – o toque retal – afasta dos consultórios um batalhão de possíveis portadores da doença. Zelosos da sua masculinidade, como se permitir um simples exame em seu corpo tivesse alguma relação com a orientação sexual, esses indivíduos perdem a chance de identificar e combater uma doença não raro fatal.

Esse descaso com a própria vida é mostrado em pesquisas: menos de 40% dos homens com mais de 50 anos realizaram exames de próstata no Brasil em 2023, e 36% nunca realizaram toque retal, PSA ou ultrassonografia. Uma pena, pois a detecção precoce é um dos fatores mais importantes para o sucesso de um eventual tratamento da enfermidade: quando ocorre ainda nos estágios iniciais, a probabilidade de cura total ultrapassa os 90%. Isso, infelizmente, não acontece em cerca de 20% dos casos, e nestes a sobrevida é consideravelmente menor, principalmente nos episódios com metástase.

Como se trata do segundo tipo de câncer mais comum e perigoso no Brasil – só o de pulmão provoca mais mortes –, a teimosa aversão ao urologista ajuda a explicar as preocupantes estatísticas referentes à enfermidade. São, segundo o Ministério da Saúde, cerca de 72 mil novos casos por ano no Brasil, o que representa uma taxa de incidência de quase 68 pacientes para cada 100 mil homens. A letalidade também é alta: em 2020, tivemos quase 16 mil vítimas fatais entre nós. Boa parte delas, pessoas ainda plenamente produtivas, com muito a oferecer a suas famílias e ao próprio país.

O baixo índice de exames realizados não é, evidentemente, fruto apenas da resistência ao toque. Além da oferta insuficiente de serviços de diagnóstico no sistema público, há também o medo – geralmente equivocado – de que o tratamento de um eventual problema na próstata provoque disfunção erétil ou incontinência urinária. Esse temor ajuda a criar uma barreira psicológica entre os homens e as possíveis medidas prevenção e, por isso, campanhas de esclarecimento sobre a doença tentam transmitir a ideia de que “cuidar da saúde também é um ato de coragem e responsabilidade”.

O autocuidado começa pela identificação dos fatores de risco, e a idade é o principal: homens a partir dos 50 anos devem ir ao urologista anualmente, e os com histórico familiar da doença devem começar a vigilância já aos 45. Vale lembrar que os negros têm mais chance de desenvolver formas mais agressivas da enfermidade. O médico indicará os exames adequados a cada situação – normalmente, o PSA, que mede a concentração de proteína na próstata, o toque, que avalia o tamanho, consistência e possíveis nódulos, e, se houver alterações na glândula, ultrassonografia ou biópsia.

Alimentação equilibrada e estilo de vida saudável são fatores de proteção naturais. Dietas ricas em peixes, carnes magras, frutas, verduras, legumes e cereais integrais e com o mínimo possível de ultraprocessados, gorduras animais e embutidos formam barreiras contra invasores indesejados. Álcool e tabaco devem ser evitados ou, consumidos com moderação, e a atividade física regular – pelo menos 150 minutos semanais – também é fundamental para evitar o sedentarismo e controlar problemas crônicos como diabetes e hipertensão, que também facilitam a ocorrência do câncer de próstata.

Segundo estudo da respeitada revista científica The Lancet, os casos da enfermidade podem dobrar até 2040, chegando a quase três milhões por ano. Precisamos, portanto, dar mais atenção a ela, principalmente porque, com diagnóstico precoce, as chances de sobrevida são grandes, ao contrário de outros tipos de câncer. Para os homens, é hora de romper os tabus e se cuidar; para a sociedade em geral, é tempo de cobrar medidas mais efetivas das autoridades de saúde, focadas na conscientização e prevenção. Que este Novembro Azul, mês da campanha sobre a doença, seja o ponto de partida.

Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina

https://clinicajorgejaber.com.br/novo/

Crédito da imagem: reprodução / Internet

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