‘Tudo tem para mim um viés político’

novembro 7, 2025

Elisa Lucinda brilha no teatro e fala sobre revisionismo histórico, racismo e cancelamento, opina sobre a recente ação policial no Rio de Janeiro e fala de projeto musical em curso

Quando abrirem-se as cortinas do Teatro PRIO na noite desta sexta-feira (07), a plateia terá diante de si uma rainha. É assim, austera e senhora de si, que Elisa Lucinda mostra-se em “O princípio do mundo”, espetáculo dirigido por Geovana Pires – sua comadre e parceira na difusão da poesia pela fala – e no qual Elisa contracena com Gabriel Demarchi, de surpreendentes 14 anos. O espetáculo corrobora o olhar humanista que a poeta e atriz capixaba tem para o mundo e a vida. Esse mesmo olhar tão latente na sua literatura (que abarca títulos que vão da poesia à prosa) e nos seus espetáculos, sendo o mais longevo deles “Parem de falar mal da rotina”, no qual o comportamento da nossa sociedade é colocado em xeque pela atriz-autora, integrante da Academia Brasileira de Cultura (ABC). “O mundo carece de um olhar mais honesto sobre a História”, defende ela, plena de razão, em entrevista ao NEW MAG. Em razão da conciliação entre os ensaios e as gravações da nova novela das 19h da TV Globo, a conversa era para ser rápida, mas, como Elisa não foge da raia, durou 1 hora. A seguir, ela fala sobre direitos humanos, com merecidas críticas à recente e mais letal operação policial em favelas do Rio de Janeiro, sobre revisionismo histórico, cancelamento e opina sobre a interferência da IA na criação literária e sobre a impossibilidade de apartar a literatura do gênero de quem a produz. “O processo criativo exige coragem”, acredita. E, para nossa sorte, coragem é algo que Elisa Lucinda tem de sobra.

O teu olhar humanista sobre o mundo é latente no espetáculo assim como no Parem. O que te leva a fazer no palco os apontamentos que você faz: inconformismo, indignação, perplexidade ou o quê?

Todas elas juntas. Tudo para mim tem um viés político.  E isso vem também da criação que tive. Meu pai foi socialista, filósofo, professor e ligado à etimologia (estudo da origem das palavras). Quando casei, não quis adotar na época o sobrenome do meu marido, e ele apoiou minha decisão. Ele argumentou que deveria haver na Lei alguma brecha que permitisse isso. Fora o fato de que meu olhar é inquieto, é um olhar quilombola, de resistência. Eu era a única negra no colégio de freiras onde estudei. Vem daí meu embate com o racismo e a necessidade de brigar contra as disparidades. No meu caso, tenho o palco que é minha tribuna. E entendo o teatro como uma arte que nos explica o mundo.

Adoro o fato de você levantar a bandeira por uma educação menos machista. Aquele pai que pergunta “cadê meu gol” é um retrato fiel da nossa sociedade…

Queria criticar o machismo e acabei indo mais fundo, falando do respeito ao feminino. Quando critico o fato de a mulher lavar a cueca do homem vejo que muitos deles estão ali na plateia. E alguns deles chegam a chorar, inclusive. Há muitas falas nessa peça que gosto. Uma delas é quando falo para o Gabriel: “meu filho, não seja mais um branco traidor”. E só posso fazer isso uma vez que meu parceiro de cena é branco. A peça tem todo um letramento importante a nós todos.

O Rio foi palco de mais um genocídio motivado pelo uso político da máquina pública. Pesquisas mostram que a maioria da população apoia a ação. O que mais te surpreende nessa comédia de erros?

O que mais me espanta não é o aplauso a essa ação. Ele é o termômetro do desamparo no qual a sociedade se encontra e que a leva a querer ver a Justiça sendo feita com as próprias mãos. E a polícia acaba tendo o mesmo comportamento atroz dos bandidos. A favela precisa ser vista pelo Poder Público como um bairro e, como tal, precisa de recursos básicos.  Muita gente acredita que na favela só tem traficante. A matança mostrou a incompetência da ação. Os corpos foram retirados da mata por familiares, e técnicos foram impedidos de fazer perícias. Ainda assim, alguns dos corpos não traziam evidências de que houve um combate. A nossa sociedade é pautada ainda pela dicotomia entre a Casa Grande e a senzala.

E você pode falar sobre isso de cadeira, né?

Tenho médicos na minha família, e uma situação que uma tia minha já viveu muito é a de chegar para atender um paciente e ouvir que ele queria ser atendido por um médico e não pela enfermeira, veja só… Outro dia, numa loja, perguntei o preço de uma bolsa, e a vendedora respondeu que a seção de promoções era nos fundos e disse que a bolsa custava R$ 680. Ela deduziu que não teria dinheiro para compra-la. Essa é a nossa sociedade.

Juliano, seu filho, tem hoje 43 anos. Acha que ele vai ver um país mais igualitário e desprovido de preconceitos?

Acho que sim. A geração dele já se beija sem neuras, por exemplo. Ele é professor da FAAP e prefere fazer provas orais para evitar que os trabalhos escritos sejam feitos com Chat GPT, olha que legal. Tenho muito orgulho dele. Ele foi curador de uma exposição no Instituto Moreira Salles sobre o Thomaz Farkas, que foi professor dele, e venceu o Jabuti com um livro sobre o Farkas. O Juliano é fruto da luta pelos Direitos Humanos. Ele humaniza o passado para iluminar o futuro.

A inteligência artificial ameaça mais o processo de criação artística ou o exercício da escrita em si?

As duas coisas. O processo criativo exige coragem. Uma ferramenta como o chat GPT é na verdade, um banco de dados. E quem colocou aqueles dados ali? Ela te dá a falsa sensação de que seu trabalho está realizado, mas não está! O Mia Couto fala que a inteligência requer sensibilidade, e isso é verdade. Deixar-se dominar por aquilo é um strike, um ato de violência à capacidade de desenvolver seu pensamento crítico.

Nélida Piñon implicava quando era compartimentada no nicho de literatura feminina e defendia que o que existia era literatura. Você já se sentiu diminuída neste sentido?

A literatura é produzida pelo corpo. Tudo sai do corpo. O mais abstrato sai do campo neural. A intuição é tão palpável quanto o paladar. A literatura é autoral até mesmo quando ela não se pretende. No meu caso, eu, uma mulher, negra, brasileira, escrevi a biografia do Fernando Pessoa, um homem, português, judeu, branco e homossexual. O encontro do meu coração com o dele deu origem a esse livro. E é impossível alguém me tirar isso! Pesquisando sobre ele, encontrei pouca coisa sobre o tempo que ele passou em Durban, na África, e preenchi essa lacuna com as minhas próprias vivências naquele lugar. A literatura nos permite isso. Então, no caso de uma literatura feminina, acho que ela existe sim. A visão da mulher é mais abrangente sobre o mundo.

Então, neste sentido, você discorda da Nélida?

Neste sentido sim. É impossível desassociar a escrita do gênero de quem a criou. A escrita é feita com o corpo, e o gênero está lá! No caso do Chico Buarque, por exemplo, quando ele escreve no feminino, por mais sensibilidade que tenha e genial que seja, é um homem escrevendo. Uma mãe jamais escreveria versos como “No chão que engatinhaste/salpicar mil cacos de vidro…”

Uma mãe como a saudosa Fernanda Young talvez…

Ou como a Hilda (Hilst). Uma obra como “Orlando”, por exemplo, foi escrita por uma mulher (Virginia Woolf). E aquilo de o personagem mudar de gênero? Vem do fato de aquela mulher estar inconformada com as regras do seu tempo e querer dar vazão a seus desejos e anseios. Acho difícil separar a questão de gênero na vida.

Macabéa, personagem de Clarice Lispector, foi reescrita pela Conceição Evaristo. Os clássicos precisam ser reescritos ou são intocáveis?

Eles não são intocáveis, mas não necessariamente precisam ser reescritos. A arte tem que caminhar pelo viés da liberdade, caso contrário vira uma Ordem. Acontece que o mundo carece de um olhar mais honesto sobre a História. A História necessita de uma variação contemporânea. No caso do Monteiro Lobato, do ponto de vista do racismo, ele é abominável, mas o seu valor como escritor é inquestionável. Ninguém vai me tirar o conceito de que a Gramática é um país (Elisa refere-se a “Emília no País da Gramática), e esse conceito quem me deu foi ele! A visão crítica é necessária, pois ela dá voltas em torno do objeto avaliado. Ela não precisa ser beligerante, mas feita de forma construtiva. Há muitas coisas que precisam ser reavaliadas, como o papel da Princesa Isabel (assinante da Lei Áurea), por exemplo. Quadro se trata do quadro sobre a primeira missa no Brasil (de Victor Meirelles), as legendas dizem que os indígenas, “cobriam suas vergonhas”. Esse tipo de semiologia não pode mais ser aceita!

Precisamos reavaliar quem são nossos heróis…

Não podemos mais tolerar escola com nome de ditador. Esse negócio de enaltecer bandeirantes e capitães do mato precisa ser reavaliado! Voltando à sua pergunta, esse negócio de reescrever clássicos pode nos levar a dois caminhos; à valorização deles ou a uma crise provocada pelo apagamento do nosso passado.

Um dos seus livros é uma biografia do Fernando Pessoa. Ele é o poeta da tua vida?

É um forte concorrente. É claro que, onde tem Adélia Prado, não existem concorrentes. E digo o mesmo em relação a Cecília Meireles. Acontece que ninguém na literatura fez o que ele conseguiu: criar heterônimos, todos escritores e com estilos próprios. E as pessoas comentam: ah, não gosto tanto do Ricardo Reis, prefiro o Alberto Caeiro, mas, no fundo, estão todos falando do Pessoa (risos). Ele é um cara que me formou.  Vejo nele o avalista da revolução que espero da juventude, porque não há nada mais triste no mundo do que um jovem de Direita.

Veremos o dia em que a poesia terá perdido o estigma de hermética?

Já vemos. Há projetos como o Ode, do Bruno Levinson, que leva poesia ao Spotify. Hoje, há essa cultura de que os textos não podem ser longos… Caguei! Não vou entrar nessa!  Tive um companheiro que fez um estudo acadêmico sobre a fofoca e incluiu nele um poema. Ele brincava que passou anos estudando, que o trabalho tinha mais de 400 páginas e que as pessoas só perguntavam pelo poema (risos). Por que isso? Por causa do poder de síntese emocional e racional que o poema tem. A poesia pode, pelo seu poder de síntese, ser associada a um fast food, mas, ao contrário deste, ela é profunda e alimenta.

Escritora, atriz, diretora, produtora, performer… O que falta ainda realizar?

Estou preparando um álbum de música. É um desejo antigo, o menos alimentado da minha fila de espera e que já está caindo de maduro (risos). Quem está comigo nessa é o saxofonista Glauco Linx, e este projeto é para o ano que vem. Outro sonho antigo, meu e da Geovana, é o de levar nossa técnica de falar poesia a todos os professores de escolas públicas do Brasil. É um projeto ousado, mas que, aliado à pedagogia, pode fazer bem à relação das futuras gerações com a leitura e com a literatura.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Gustavo Louzada (imagem)

 

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