‘Estou num momento de maturidade’

outubro 31, 2025

Wagner Moura fala de sua volta ao cinema nacional em "O agente secreto", do retorno ao teatro e rememora os tempos da ditadura no Brasil

Wagner Moura nunca se contentou em ser apenas um ator de sucesso. E, talvez por isso, tenha se tornado um dos nomes mais respeitados do audiovisual brasileiro. Baiano, descobriu o teatro em Salvador e nunca mais saiu dos palcos. Começou a atuar ainda adolescente em peças como “Cuida bem de mim” e “A casa de Eros”. Em 1997, sua performance em “Abismo de rosas”, dirigida por Fernando Guerreiro, rendeu-lhe o troféu Revelação no Prêmio Braskem de Teatro. A estrada alargou-se com  “A máquina”, de João Falcão, em 2000, quando ele, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão foram alçados ao cinema e à TV. Mas foi com o filme “Tropa de elite” que Wagner ultrapassou fronteiras. O Capitão Nascimento se transformou em ícone, fetiche e símbolo de um cinema que refletia novas nuances do país. Desde então, o artista traçou uma carreira que atravessa idiomas e causas: atuou na série “Narcos”, em que interpretou o traficante Pablo Escobar (1949-1993), dirigiu “Marighella” e, agora, volta a atuar no cinema em “O agente secreto”, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, premiado no Festival de Cannes — que o consagrou com o prêmio de Melhor Ator pelo longa. Concomitantemente, viaja o país com “Um julgamento – Depois do inimigo do povo”, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até segunda-feira (03). Nesta entrevista, Wagner fala sobre o reconhecimento internacional, o reencontro com o cinema brasileiro e a importância de preservar a memória do país. 

Primeiramente, parabéns pela sua indicação esta semana ao Prêmio Gotham de Melhor Ator. Como é para você esse momento atual, de representar o Brasil nessa temporada de premiações com o “O agente secreto”?

Obrigado! Está começando muito bem. O Kleber, e o bichinho não dorme, vive viajando o mundo todo (risos). O filme está nos festivais certos, indo aos lugares certos e sendo divulgado de forma bem feita. O nosso trabalho a gente tem feito, de promoção e divulgação do filme. E as coisas estão chegando.

Muitas pessoas querem saber sobre o Oscar…

A gente está fazendo tudo direito, mas acho que tem que ter calma e respirar porque esse termômetro está começando agora, quando começa a ter essas indicações para outras premiações. 

Você é conhecido por projetos com bom propósito. O que “O agente secreto” representa na sua trajetória como artista e cidadão? E, se você estabelecesse a sua carreira como prateleiras, onde estaria o filme?

Estou num momento muito bom, de muita maturidade. Estou ficando mais velho, tenho quase cinquenta, e acho que bateu certinho. Gosto de fazer. Estou trabalhando numa peça agora que eu mesmo escrevi, junto com a Christiane Jatahy e Lucas Paraiso, chamada “Um julgamento – Depois do inimigo do povo” em que digo muitas coisas que quero dizer. E acho que o cinema político é quase uma redundância, porque acredito que, se a natureza do artista é política, se você pensa politicamente, a sua obra inevitavelmente vai caminhar por esse lado. “O agente secreto” está nessa prateleira. Não é à toa que me juntei com o Kleber, porque ele é um cineasta político. Essa nossa história, apesar de a gente se conhecer há muito tempo, nasce desse encontro, de um momento político que eu e o Kleber vivemos e em que compartilhamos nossa perplexidade, nossa vontade de reagir, de pensar o que a gente ia fazer. É um filme que gosto de pensar que está na prateleira das coisas que tenho feito ultimamente, só que num momento em que estou mais confiante de quem sou, do que quero fazer, do tipo de artista que me tornei e que pretendo continuar sendo.

Como é para você fazer esse personagem num longa que se passa na ditadura militar e que, inclusive, tem uma cenografia e figurinos tão ricos em detalhes?

A cenografia traz demais para o personagem, é uma coisa incrível. Qualquer ator, na hora em que bota uma roupa, é uma coisa que você começa a se olhar, mas vai tudo ganhando uma dimensão. E o trabalho de Rita Azevedo Gomes (figurinista) foi muito legal, o de Thales Junqueira (diretor de arte) também, que fez esse trabalho maravilhoso. Eu nasci em 1976. Apesar de a ditadura ter acabado em 1985, ela de fato não acabou, os ecos da ditadura ficaram ali. Quando fiz “Marighella”, também explorei demais essa época, visualmente, e do ponto de vista político, de conteúdo, eu já estava bem dentro desse universo.

Mesmo pequeno, você guarda lembranças dessa época?

Me lembro de, ainda menino, viver uma coisa assim, de meus pais falando baixinho coisas. Eu me perguntava “por que eles estão falando isso tão baixinho?”. Essa época está muito na minha cabeça. Aquela camisa que meu personagem usa, que os caras têm as camisas meio abertas com o peito cabeludo aparecendo, era meu pai que botava aquelas camisas e metia o cigarro Marlboro no bolso esquerdo. Tenho uma memória emotiva muito grande. 

Por falar em memórias, que é algo do que o filme fala bastante, quais memórias você quer deixar para o Brasil e até para o mundo?

Em primeiro lugar, a memória de um bom filme. Um filme bom, mais um produto cultural brasileiro que tem relevância, que faz as pessoas pensarem. Me vejo muito tendo que defender. A gente vive um momento, esse momento de ataque à lei de cultura e artista. Estou tão cansado dessa conversa. Estou com uma preguiça de falar disso, mas é tão ruim você ver um ataque coordenado. Sou fruto das leis de incentivo à cultura. Eu existo, porque, na Bahia, nos anos 1990, houve leis que possibilitaram que atores do teatro baiano, eu, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta, que a gente pudesse existir como artista. E não só isso. Um país precisa se ver na sua cultura. Nenhum país se desenvolve sem se olhar, sem se ver. Quando a gente vai para fora com esse filme, e as pessoas veem o Brasil, é um plus, é um negócio a mais, é um bônus, porque as pessoas lá fora também estão vendo isso. Eu acho maravilhoso isso. É uma imagem que a gente está levando para fora. Mas, sobretudo, somos nós que também estamos aqui nos vendo. A memória é uma coisa importante porque, se a gente não tivesse, por exemplo, a Lei da Anistia, que foi uma lei que apagou a memória do Brasil, a gente não teria tido o presidente que teve, esse que está preso. Não só a cultura do cinema, o jornalismo, a universidade, a sociedade como um todo, a gente tem a obrigação de preservar a nossa memória para que cresçamos, nos entendamos e nos vejamos.

Há mais de dez anos você não atuava falando em português. Como você enxerga esse equilíbrio entre trabalhar no Brasil e no exterior?

Até levei um susto parando para pensar nisso. Dirigi “Marighella”, e isso me tomou muito tempo, porque dirigir um filme não é só o período em que você filma. Você fica ali, completamente dedicado. Fiquei dois anos inteiros envolvido com aquele filme. Depois fiz “Narcos”, que também demorou dois anos. Em seguida veio a época de governo Bolsonaro, e não havia cinema no Brasil. Aí teve a pandemia. Juntando tudo isso, e considerando que era uma fase em que também estava fazendo outras coisas lá fora, que eram interessantes para mim, o tempo acabou se estendendo. E, sendo muito sincero, não havia nada que eu quisesse aqui muito fazer naquele momento. Esse tempo demorou por várias razões, mas agora quero trabalhar. Estou fazendo teatro, como falei, aqui no Brasil. Estreei a peça em Salvador, e você não imagina a alegria que é para mim fazer isso na minha cidade. Ficamos em cartaz lá, e agora estamos fazendo no Rio de Janeiro. E vejo como a cultura e a democracia caminham juntas. No momento em que o Brasil voltou a ser um país com tendências democráticas, a cultura veio junto. Hoje, no Rio de Janeiro, há uma quantidade enorme de peças maravilhosas em cartaz. O teatro está vibrante, o cinema também. Olha a quantidade de filmes incríveis que foram lançados! Agora é, sem dúvida, um momento muito mais legal para trabalhar aqui.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e Bob Wolfenson (imagem)

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