‘Escrevi pensando no Wagner’

outubro 30, 2025

Kleber Mendonça Filho fala sobre a escolha de Wagner Moura para "O agente secreto" e de o cinema estar aliado à informação

Kleber Mendonça Filho falou sobre seu trabalho à frente de “O agente secreto”. Após sucessos internacionais como “Aquarius” e “Bacurau”, o cineasta recifense aposta em um thriller político que transporta o público ao Brasil dos tempos de ditadura militar. NEW MAG acompanhou a entrevista coletiva sobre o filme em São Paulo, onde Kleber refletiu sobre o impacto do cinema nacional e o papel do público jovem nessa redescoberta.

— Claro que eu quero que o filme seja visto por um público grande no Brasil, mas tenho um desejo muito especial de que esse filme seja descoberto por gente muito jovem, estudantes, meninos e meninas que vão ao cinema, veem um filme brasileiro, que conta uma história brasileira, e talvez possam descobrir alguma coisa nova sobre o nosso país.

Estrelado por Wagner Moura, o longa acompanha Marcelo, um homem que foge de um passado misterioso e tenta recomeçar a vida no Recife. Em meio ao Carnaval, ele se vê preso a uma trama de espionagem e caos. O filme, inclusive, foi pensado para o ator, segundo Kleber. 

— Quando escrevi o personagem principal, eu estava pensando no Wagner. Tinha uma boa ideia do que ele poderia fazer e também do que talvez não tivesse feito tanto. E a coisa dele ser um astro, um grande ator, carregar o filme com o rosto dele, isso era essencial — comentou. 

O diretor destacou ainda a importância do cinema como instrumento de memória e reflexão. Para ele, o Brasil ainda enfrenta dificuldades em lidar com o próprio passado — e o cinema pode ser uma forma de reaproximar gerações.

— O nosso país tende a esquecer muita coisa, e o cinema é um instrumento muito bom porque prende sua atenção e pode trazer informação de verdade sobre o lugar onde a gente mora. Ano passado, saí de uma sessão do “Ainda estou aqui”, no Recife, e duas meninas muito jovens diziam não saber que o regime militar tinha sido tão ruim. São pequenas descobertas assim que um filme brasileiro pode provocar — afirmou. 

Kleber reforçou ainda a importância de manter a autenticidade durante o processo de filmagem:

— Eu acho muito interessante o filme nascer de um sentimento pessoal, porque, se você deixar correr solto, o cinema passa a ser só uma sucessão de procedimentos técnicos. Eu não quero isso. Eu quero que fotografia, direção de arte e reconstituição estejam a serviço do que o filme pede, não de protocolos.

Fiel à sua visão de um cinema plural e sem barreiras regionais, Kleber também falou sobre a diversidade de sotaques em suas produções. 

— Meus filmes nunca mudaram o sotaque, na verdade eles têm múltiplos sotaques. “O agente secreto” tem vozes paulistas, gaúchas, alemãs, pernambucanas, sertanejas… e essa é a beleza do cinema brasileiro. Quanto mais o nosso cinema se produzir e se ver, menos estranheza haverá com as diferenças — concluiu. 

“O agente secreto”, que foi aplaudido no Festival de Cannes, chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (06) e é o candidato do país a uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)

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