A revista britânica The Lancet, uma das mais respeitadas publicações de medicina do mundo, publicou há poucos dias uma pesquisa que mostra os resultados expressivos de alguns países da América Latina e Caribe na área da saúde, citando, por exemplo, o aumento da expectativa de vida e a queda na mortalidade infantil na região. Os avanços, segundo os autores, são fruto de estratégias como a universalização do atendimento e, principalmente, a atenção primária, e foram registrados em metrópoles tão distintas como La Paz, Quito, Buenos Aires e, para surpresa de muitos, nosso Rio de Janeiro.
A cidade é citada como exemplo no enfrentamento de epidemias e dos efeitos das mudanças climáticas e da violência, e a base desse sucesso seria a mudança na estrutura de atendimento iniciada com o surto de dengue de 2008, que teve mais de 235 mil casos. Passada a crise, o sistema municipal passou a ser centrado nas unidades de Atenção Primária de Saúde, não mais nos hospitais, e a cobertura das equipes de família subiu de 3,5% naquele ano para mais de 80% em 2024, reduzindo, além da morte de crianças, o número de internações e de problemas decorrentes de doenças crônicas.
Essas unidades funcionam como o primeiro nível de contato da população com o sistema de saúde. São espalhas pelo município, facilitando o acesso aos serviços, e trabalham com a proposta de acompanhamento contínuo dos pacientes, observando os aspectos físicos, mentais e sociais de sua saúde e com foco na prevenção e detecção precoce de doenças. Com isso, pequenos problemas são resolvidos no próprio posto, sem a necessidade de exames ou consultas com especialistas, reduzindo a fila nos grandes hospitais, que podem assim se dedicar aos casos de maior complexidade.
O artigo também cita a resposta à pandemia de Covid-19, destacando a ampliação da rede de testagem e melhora no sistema de rastreamento de possíveis infectados, além da proteção a grupos vulneráveis e atenção aos cuidados de rotina e à cobertura vacinal. Outro ponto elogiado é o plano de contingência desenvolvida para minimizar o impacto de fenômenos como ondas de calor extremo. Uma aposta bem sucedida, portanto, em medidas preventivas.
Num país marcado pela desigualdade, inclusive no acesso aos serviços de saúde, uma notícia como essa deve ser celebrada, pois reforça a convicção de que um trabalho a médio e longo prazo, independente de ideologias ou partidos, cedo ou tarde traz bons resultados. Ela deixa claro, também, que a prevenção é sempre a melhor estratégia – além da mais econômica – para garantir o bem-estar geral da população. Uma filosofia que, adaptada às particularidades de cada estado ou município, pode ser adotada em todo o país, barateando e racionalizando o atendimento de nossa rede hospitalar.
Não podemos, porém, dar-nos por satisfeitos com o êxito de uma outra iniciativa nessa área, que ainda tem muitos desafios pela frente. Um deles, o cuidado com a saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas no planeta convivem com algum transtorno psíquico, e o Brasil não é ponto fora dessa curva. Estamos acima da média global na incidência de praticamente todos esses distúrbios, com destaque para a ansiedade, que atinge 9,3% dos brasileiros, mas, apesar dos índices, a questão ainda não é tratada com a devida atenção pelas autoridades.
Uma negligência temerária, pois é bem provável que as causas apontadas para essa “epidemia emocional” – estresse permanente, violência urbana, dificuldades sociais e econômicas, entre outras – continuem a fazer parte de nosso cotidiano. Essas doenças provocam grande sofrimento, desestruturam famílias e atingem a sociedade como um todo, e não podem ser ignoradas na elaboração das políticas para o setor. O exemplo do Rio mostra que é possível, mesmo sem recursos abundantes, trabalhar com a prevenção – que, também na saúde mental, é indispensável. As ideias estão à mão.
Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
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