‘Nossa fé nos segurou’

outubro 10, 2025

Juliano Cazarré volta aos palcos e fala da relação com internet, de seu personagem em “Três Graças”, da fé religiosa e da decisão de não fazer mais cenas de nudez

Juliano Cazarré estava há quase dez anos longe dos palcos — e vai voltar com tudo. Tudo começou em montagens sob a direção de Hugo Rodas, em Brasília, onde foi criado, apesar de ser de Pelotas (RS). Desde então, não parou mais de atuar. Em 2012, veio o carismático Adauto de “Avenida Brasil”, papel que o apresentou a todo o país e mostrou sua versatilidade. Depois, vieram personagens como o intenso Alcides de “Pantanal” e o Iremar de “Boi Neon”, que lhe rendeu elogios e prêmios. Agora, Cazarré retorna ao teatro com “Compliance”, que estreia nesta sexta-feira (10) no Teatro I Love PRIO, no Rio de Janeiro. Escrito e dirigido por Fernando Ceylão, o espetáculo mistura a linguagem das redes sociais com o teatro confessional para discutir temas como masculinidade tóxica e bullying. Em conversa por telefone com NEW MAG, o ator falou sobre o processo de criação do novo personagem, os bastidores da montagem e o equilíbrio entre arte e vida familiar — ao lado da esposa, Letícia Cazarré, e dos seis filhos. Ele também refletiu sobre sua conversão e como a fé passou a guiar suas escolhas, incluindo a decisão de não fazer mais cenas de nudez.

A peça mistura a linguagem das redes sociais com o teatro confessional. Como esse formato influenciou sua atuação? Você se inspirou em figuras reais da internet, em algum influenciador, para compor seu personagem?

Não sei até que ponto muda. Estou fazendo um personagem ali, que é um cara que faz lives. Trabalho com a minha construção de personagem mais ou menos normal. Claro que, por se tratar do teatro, acabo me preocupando mais com o corpo todo. No teatro a gente atua com o corpo inteiro, e numa live geralmente só o rosto está aparecendo. Sobre a inspiração, não me baseei em ninguém específico, só situei o personagem em São Paulo, porque o sotaque ficava mais divertido. E o restante fui inventando, não peguei nenhuma pessoa específica como referência. 

“Compliance” fala sobre abuso de poder, masculinidade tóxica e bullying. Esses temas impactam você de alguma forma? Você já sofreu algo semelhante ao seu personagem?

Especificamente não. O tema do bullying é algo que pode acontecer com qualquer um. Independentemente de ser homem ou mulher, ambos fazem bullying. Todo mundo já fez ou já sofreu bullying, ou os dois. Por isso é um tema com que a plateia vai se relacionar bastante, todo mundo vai se identificar porque já passou por isso de alguma forma. Pessoalmente, nunca fui muito alvo de bullying e também nunca gostei de pegar no pé de ninguém. Não achava legal quando tinha alguém na turma que sofria bullying. A minha tendência era ser amigo das pessoas que estavam sendo zoadas. Tinha um pouco de compaixão e acabava querendo me aproximar mais desses amigos e trazer eles para a galera.

Você e o Fernando Ceylão, diretor e dramaturgo da peça, são da mesma geração, viveram as grandes transformações culturais e tecnológicas dos últimos 20, 30 anos. De que forma essa afinidade geracional ajudou vocês no planejamento da montagem? Como é trabalhar com o Fernando?

A gente realmente tem essa afinidade geracional. Somos de uma geração muito parecida. E, claro, nós dois gostamos de uma linguagem pop. A peça, por mais que a gente queira que seja uma boa obra de arte, quer que ela tenha algo de pop, se comunique. Não queremos fazer um teatro muito difícil e cabeça, e sim que todo mundo vá, se divirta e embarque naquela história. Eu e o Fernando temos referências parecidas, gostamos de alguns diretores de cinema e de teatro. E, desde o começo, sempre falei que essa peça tem um pouco de Quentin Tarantino nela. Um humor meio sombrio, que você ri de nervoso. Trabalhar com o Fernando é ótimo. Nós nos damos muito bem, parece que já somos amigos há muito tempo. Não temos disputa de poder nem de ego, estamos ali apenas para nos divertir e descobrir a melhor maneira de contar a história.

Você vai fazer um presidiário na novela “Três Graças”. Como será abordada essa questão delicada que é a ressocialização dos presos?

O meu personagem vai ser libertado da cadeia porque está doente e vai para casa, com o objetivo de morrer em paz. A questão da ressocialização vai ser abordada na novela de forma que ele tenta se aproximar das pessoas que ele prejudicou no passado e obter o perdão delas. Ele tenta encontrar uma maneira de viver com esse novo estilo de vida, depois de se converter enquanto estava preso.

Em entrevista ao NEW MAG, Silvero Pereira elogiou a parceria com você em “Pantanal” e destacou a importância da amizade que seus personagens mantinham na trama. Que lembranças você tem das gravações com o ator? Como foi fazer esse trabalho em pleno Pantanal?

Foi muito legal, a gente se deu muito bem. As primeiras cenas que gravamos já foram diretas no Pantanal, e isso foi bem interessante porque, no começo, nós dois não nos conhecíamos tanto. Tínhamos feito algumas cenas juntos para a minissérie “Serra Pelada” muitos anos atrás, mas em “Pantanal”, as primeiras cenas já foram de personagens que tinham vivido e passado por muita coisa juntos. Foi muito bacana porque começamos a gravar a parte final da novela. O humor da dupla também foi algo que a gente descobriu durante as gravações, a maneira como os personagens se zoavam, se apoiavam. Gravar no Pantanal foi incrível, porque o lugar traz uma realidade muito forte. O silêncio do lugar, a vastidão, o perigo de lidar com cavalos, bois e até animais selvagens. Sou muito ligado à natureza, então foi uma experiência única.

“Boi Neon” é considerado um dos seus maiores trabalhos no cinema e abocanhou diversos prêmios. Como você vê o sucesso que o diretor Gabriel Mascaro vem fazendo agora com o filme “O último azul”?

Fico muito feliz pelo Gabriel. Ele é um cara obstinado, com uma visão muito clara sobre o cinema. E o sucesso de “O último azul” é merecido, ele vem perseguindo essa ideia de cinema desde antes de “Boi Neon”. Fico muito contente por ele, e sempre que vejo notícias boas, de premiações e estreias, mando meus parabéns. O Gabriel me deu um grande presente com “Boi Neon” e com o personagem Iremar. É um filme e um personagem pelos quais tenho um carinho muito grande.

Você também é escritor e inclusive já lançou livros de poesias como o “Pelas janelas”. Há planos de novos trabalhos na literatura?

Não tenho escrito muita poesia no momento. Nos últimos anos, terminei um roteiro que estou apresentando para algumas plataformas, e meu sonho é conseguir dirigir esse projeto, mas enquanto essa hora não chega, estou trabalhando em outros. Nesse momento, vou focar mais nos roteiros do que na poesia. Mas continuo lendo bastante poesia. Gosto muito do Mário Quintana, do Manuel Bandeira, e de um autor contemporâneo chamado Alexei Bueno.

Você é casado há quase 15 anos e tem seis filhos com a Letícia. A que você atribui seu relacionamento ser tão duradouro, em tempos em que as pessoas não ficam tantos anos casadas? E como a paternidade influencia suas escolhas como artista?

Quando pedi a Letícia em casamento, ela disse: “Só caso uma vez”. E eu concordei. Sabíamos que estávamos entrando em algo para a vida toda. Ambos viemos de famílias que são casadas até hoje, e depois disso nos convertendo na igreja católica, entendemos ainda mais o valor do matrimônio. A nossa fé nos seguiu e nos segurou juntos, mas, claro, também tem a vontade de fazer dar certo. Para isso, você vai perdoando quando precisa e sempre tentando melhorar. Você vai passar a vida toda ao lado de alguém, e é preciso que seja bom, tem que valer a pena. A paternidade tem uma influência direta nas minhas escolhas, porque é muito boleto, muitos filhos, muito colégio para pagar. Então, trabalho para não faltar nada em casa. Por outro lado, também tomo minhas decisões artísticas, sempre considerando se o projeto é bom, se vale a pena. O dinheiro é um fator, claro, porque a vida é cara, mas a principal motivação é se o projeto é bom, se a história vale a pena ser contada.

Você já precisou ficar nu em cena em diversos trabalhos. Como você encara a nudez hoje em dia? Já se sentiu exposto de forma desconfortável?

Já achava desconfortável antes, e, hoje em dia, simplesmente não faria mais. Na maioria dos casos, a nudez não agrega à história, é mais uma questão de fetiche. Com a minha conversão, realmente não faria mais esse tipo de cena. O que fiz no passado está feito, e tudo bem, mas não me vejo mais fazendo isso.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e Leo Rosario / Globo (imagem)

Posts recentes

Antagonismo complementar

Artistas abrem no Rio de Janeiro individuais em que vão além dos limites impostos pela tela