‘Espero um país mais humanista’

outubro 3, 2025

Bárbara Paz lança filme no Festival do Rio e fala dos planos de trabalhar com Willem Dafoe, da chegada à meia-idade, aplaude ‘Vale Tudo’ e revela como voltará aos palcos

Uma mulher múltipla. E também multifacetada. Ambos os adjetivos vêm muito bem a calhar quando se trata de Bárbara Paz. Ela transita com maestria entre atuar e dirigir, passando ainda pela escrita (de poemas a roteiros) e pelas artes visuais. “Não consigo ser uma coisa só”, reconhece ela, por telefone, após conversar por uma hora com NEW MAG. Pouco antes do horário marcado, ela já estava munida do seu chimarrão e na companhia de Fellini, o cão que a acompanhou na visita ao Sul do país após as tragédias de 2024. Veio desta experiência sua nova incursão pela direção cinematográfica. “Rua do Pescador, nº 6” chega, na próxima terça (07), ao Festival do Rio após ser exibido em São Paulo. Entre os personagens centrais do documentário, moradores da Ilha da Pintada, aos quais foi levada por um pescador. “Cinema é documento”, defende ela transparecendo a gana comum a tudo com que se envolve. A seguir, Bárbara fala sobre fé (no país e a espiritual), a chegada à meia-idade (“Achava que viveria até os 36 anos”), como lida com a IA e com a solidão, aplaude o sucesso de “Vale Tudo” e revela planos de trabalhar no cinema com Willem Dafoe e de voltar aos palcos. “Não abandono a atriz que sou”, reconhece. Sorte a nossa.

Uma tragédia de grandes proporções como a do Sul do país mostra uma série de dramas pessoais e comunitários. O que exatamente te motivou a fazer o filme?

Fui movida pelo coração. Vi pela TV minha terra desmoronar, e isso era algo inimaginável até então. Todo um mundo desmoronava ali diante dos meus olhos,e isso mexeu nas minhas entranhas. Montei uma equipe diminuta, com amigos de lá, e lá fui eu, sem saber muito bem o que faria e muito menos o que encontraria.

Quais das histórias ouvidas te comoveu mais?

Aquelas pessoas foram tomadas pelo afeto e por um olhar para o todo. Cada personagem ouvido não falava de si, mas do vizinho e do coletivo. Todos ali perderam tudo e estavam lá se ajudando. Nosso jornalismo foi brilhante, mas nada supera a experiência de estar lá. Nenhuma tragédia mostrada pelo cinema de Hollywood supera o que foi visto ali. Nenhum diretor de criação supera a força da Natureza.

O Brasil não tem a cultura da prevenção. Verbas destinadas a este fim foram cortadas pelos gestores. O brasileiro precisa sentir na carne para acordar?

Foi uma tragédia anunciada. Fomos levados aos moradores da ilha por um dos pescadores. As águas deixaram de ser dragadas e eles chamavam atenção para isso e não foram ouvidos. Aquela ilha um dia vai desparecer e aquelas pessoas também. E ninguém melhor do que os pescadores para falarem das mudanças recentes na Natureza.

Você e sua equipe devem ter passado por muitos perrengues…

O Marcelo Aramis, que trabalhou na sonorização, ajudou a limpar a casa dos pais, em Canoas. Minha produtora teve dengue e leptospirose ao mesmo tempo, e olha que estávamos tomando PREP.  Sempre tive horror a jet-esqui e vi o quão importante ele foi no resgate das vítimas. Os acessos só eram possíveis por botes e, em certos casos, por jet-esqui.

E por que a opção pelo filme ser em preto e branco?

A tragédia não ter cor. O Sebastião Salgado fotografava em preto e branco para atenuar a dureza da realidade. Se utilizasse cor estaria fazendo jornalismo e não cinema. Não quis ir pelo caminho do drama, mas pelo da tragédia. Um dos elogios que ouvi de um dos personagens é que eles não são mostrados chorando. Não há apelo no filme. Fiz um ensaio sobre a tragédia. Cinema é documento, e fiz um documento para ser mostrado agora, tanto que comecei as exibições pelo Brasil quando poderia ter enveredado pelo exterior.

Teremos eleições no ano que vem. Está esperançosa por um país com mais oportunidades?

Espero um país mais humanista e isso ainda vai levar tempo. A reconstrução do país ainda está em processo após os estragos do governo anterior. O desmonte foi crucial, sobretudo para a Cultura. Quatro anos é pouco para reerguer uma nação, mas é suficiente para destruí-la. Mas sou otimista. Sou mulher e preciso lutar contra uma série de adversidades, mas tudo o que fiz até aqui deu certo. Estou trabalhando no projeto do que será meu primeiro filme de ficção.

E ele envolve o Williem Dafoe. Como foi a aproximação entre vocês?

Foi nas filmagens do Hindu (“Meu amigo hindu”, filme de 2015). Ele é um ser humano maravilhoso. Trabalho neste novo roteiro há muito tempo até que escrevi para ele convidando-o para o projeto. É uma trama sobre solidão e compra de afetos. Ele leu e sugeriu algumas alterações. Acredito no cinema autoral e preciso de subsídios para levar esse projeto adiante.

As pessoas acham que você está riquíssima em razão dos prêmios que ganhou…

Prêmios não te dão dinheiro, mas te dão prestígio.

E como estão suas expectativas para a COP30? Ela pode resultar em mudanças práticas ou ficar na teoria como na Rio92?

Espero honestamente que seja diferente. até porque as mudanças climáticas estão aí, fazendo estragos não só no Brasil como no mundo, nas nações ricas e nas mais pobres. Se a mudança for de 10% já terá sido de alguma valia.

Sua personagem em Viver a vida lidou com o alcoolismo. Acha que a questão está sendo bem abordada em Vale Tudo?

Vale Tudo fez o público se apaixonar de novo por novela. As pessoas estão ficando em casa para Ve-la. Acho importantíssimo levar ao público a seriedade do trabalho do AA. Tenho um amigo que está lá há 30 anos e de fato o trabalho é eficaz. Quando a Paolla (Oliveira) recebeu as primeiras críticas, escrevi para ela dizendo: “segue firme”. Ela é uma grande artista e tem de lutar com as próprias armas, e elas não são poucas.

O público compara muito as duas versões, e isso está muito latente nas redes sociais…

E é muito injusto. Uma novela precisa estar em sintonia com a época em que é feita. A Odete da Débora (Bloch) é uma bruxa dos tempos de hoje. É uma mulher com libido e que cerca-se dos homens mais lindos…

Você é noveleira?

Acompanho com parcimônia. Gosto de desligar as máquinas para poder ler, por exemplo. Estou mergulhada na literatura do Édouard Louis. Ele me alimenta muito.

Você lida bem com a solidão, não?

Ela não me assusta. Fui uma criança sozinha, que brincava sozinha. E quero falar sobre a solidão de agora no meu novo projeto para o cinema. As pessoas estão solitárias nesse mar que é as redes sociais, estão cada vez mais dependentes de ansiolíticos. Há essa dicotomia: a compra de remédios e a compra de afeto. A OMS (Organização Mundial da Saúde) já decretou que estamos passando por uma nova pandemia, a da solidão.

A IA te assusta ou fascina?

As máquinas me cansam, e o que me assusta é o humano. Gosto do ser humano. Dia desses, um amigo me disse que sou do povo. Sou curiosa e interessada por gente. Tem gente que passa uma vida sem se conhecer. Vou envelhecer e para onde vou agora? A resposta está em olhar para trás, está no próprio caminho. No budismo, o caminho é mais importante do que a chegada.

Chegar à meia idade te deixou mais reflexiva?

Nunca imaginei que chegaria a essa idade. Sempre achei que morreria cedo. Achava que viveria até os 36 anos (risos). Tanto que nunca guardei sentimentos ou rancores, sempre falei as coisas na lata. A idade é um número que a gente se dá, e minha cabeça não condiz com a idade que tenho. Em uma visita recente a uma mãe de santo, ela me disse que minha idade é a de uma mulher de 25 anos (risos)…

E como anda a sua fé?

Sou uma pessoa de muita fé. Não tenho uma religião só. Rezo muito. Em uma viagem recente à Grécia, visitei igrejas ortodoxas. O ser humano não existe sem fé. Se há um Deus ele está na Natureza.

E já que falamos em caminho, qual o caminho de Bárbara Paz?

Você não quer me dizer, não (risos)? Em meio a tantas coisas vou voltar a fazer teatro. Não abandono a minha atriz. Comprei os direitos de “O perigo de estar lúcida”, livro da (espanhola) Rosa Montero. A trama traça um paralelo entre como preservamos a sanidade diante das demandas do mundo atual. Será uma peça sobre a loucura…

Depois de fazer um ensaio sobre a tragédia fará então uma peça sobre a loucura…

Isso aí. Não consigo ser uma coisa só.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e divulgação (imagem)

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