Marina Lima é um dos nomes mais relevantes surgidos na cena artística e musical do Brasil. Desde sua estreia fonográfica, em 1979, ela sempre aliou seu canto e suas ideias à defesa total das liberdades, fossem elas ligadas ao comportamento e à libido ou à de pensamento. E, através de suas canções (muitas delas com o irmão poeta, Antonio Cicero), ajudou a tirar o país do mapa da mediocridade. Ousada e corajosa, ela se mantém moderna até hoje, quando completa, nesta quarta-feira (17), 70 primaveras.
E NEW MAG procurou seis importantes cantoras da nossa música para saber delas o que mais as encantam na arte da aniversariante. São elas Fafá de Belém, Fernanda Abreu, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Isabella Taviani e Letrux. Mulheres diversas e potentes que saúdam aquela que, certa vez, definiu a si própria como “temporã de uma geração anterior ou primogênita de uma geração por vir”.

Quatro anos antes de Marina gravar seu primeiro LP, uma morena esfuziante tirava o país para dançar ao som dos ritmos do Norte. A moça era Fafá de Belém. As duas participariam do hoje histórico especial “Mulher 80”, exibido pela TV Globo em 1980, corroborando uma amizade iniciada nas Dunas do Barato, a faixa de areia da qual sairiam talentos que transformariam o país a partir daqueles 1972/73.
– Conheço Marina desde os anos 1970. Frequentávamos a mesma praia quando morava no Rio, ali entre as Dunas da Gal e o Arpoador. Não éramos exatamente próximas, mas nos conhecíamos dali, com todo mundo junto. Marina foi morar fora e volta uma mulher. A parceria com o Antonio Cicero sempre foi um diferencial desde o primeiro disco – recorda-se Fafá apontando ainda para o equilíbrio entre ousadia e serenidade da colega: – A sensualidade, a postura no palco, a liberdade sexual, sempre muito elegante e na dela, falando de tudo sem querer chocar ninguém. A elegância é tamanha que ela pode cantar o que quiser, ter o posicionamento que quiser, que ela jamais será vulgar. Essa é uma característica. A outra é sua música. Somos amigas sazonais, mas rimos muito quando nos encontramos. Sou fã, fã absoluta.
As duas cantoras abriram alas a uma legião de mulheres que invadiria as rádios e TVs do país. Marina e um certo conjunto musical foram pioneiros para o que ficaria estabelecido como Rock Brasil. O grupo em questão era a Blitz, que revelou uma garota carioca suingue sangue bom que, na década seguinte, incendiaria as pistas de dança, terreno onde Marina já brilhava. Seu nome? Fernanda Abreu.
– É uma bênção para o Brasil ter uma artista como Marina Lima. Uma compositora de mão cheia, carioca, com uma assinatura própria muito original. Uma artista que fez a cabeça de muita gente da minha geração. Para mim foi uma alegria enorme ter participado juntamente com ela do show do Coala – elenca Fernanda destacando a assinatura indelével da artista: – Ela continua produzindo um material muito interessante e muito autêntico. Tem um legado fenomenal. É um privilégio para nós, brasileiros, termos uma artista como a Marina: engajada, criativa, inventiva e que sempre foi de vanguarda. Sou muito fã dela.

Fã é como também declara-se outra importante compositora: Adriana Calcanhotto. Da mesma forma que Marina veio num levante de cantoras surgido na virada entre os anos 1970 e 80, algo semelhante aconteceu na década seguinte, quando novas e belas vozes femininas tomaram a cena musical. E Adriana estava entre elas.
Alguns anos depois, ela daria nova cara a “Maresia”, parceria de Cicero e Paulo Machado, lançada por Marina no LP “Certos acordes”, de 1981. A gravação de Adriana ganharia as pistas (elas aí de novo) e não só isso: a gaúcha e a carioca tornariam-se parceiras tempos depois. O rigor e a generosidade de Marina são destacados por Adriana:
– Marina é de um rigor com seu trabalho e de um nível de dedicação raros de se ver. É hiperexigente e tem uma inteligência musical extraordinária. Sempre reparei nisso como fã, mas, compondo com ela, pude ver por dentro como isso se dá, e é muito impressionante. Tenho aprendido demais com ela, que é supergenerosa e gosta de ensinar. Estou muito feliz de vê-la fazer 70 anos numa fase tão boa e tão criativa. Vida longa, Marina. Amo muito você.
Adriana não está só nessa percepção. Da mesma geração que ela, Zélia Duncan é outro nome que tem na veterana um de seus nortes na música. E isso pôde ser notado em um dos seus primeiros shows no Teatro Rival, Rio de Janeiro. Na ocasião, Zélia interpretava com propriedade “Transas de amor”, uma das parcerias de Marina com Cicero lançadas em “Simples como o fogo” (1979).
– Marina é um ícone, um marco pra todas nós mulheres, compositoras, uma artista cuja obra só se fortalece com o passar do tempo – constata a cantora e compositora, que teve um de seus primeiros sucessos, “Tempestade”, incluído por Marina nos CDs “Abrigo” e “Registros à meia-voz”.

Sim, o tempo passa e traz com ele novos timbres, potentes quanto o daquela menina chamada Marina. Isabella Taviani tinha 17 anos quando um LP lançado em 1985 mostraria que a música pop seria seu caminho. O álbum em questão era “Todas ao vivo”, registro do primeiro show de Marina no hoje lendário Canecão, templo acessível até então aos grandes nomes da MPB.
– Lembro muito bem quando ouvi pela primeira vez o “Todas Ao Vivo”. Ali, pirei e vi que queria ser como a Marina. O (álbum) anterior, “Fullgás”, já tinha sido uma obra de arte, que trazia um som novo, moderno, com a personalidade dela explodindo em voz e em canções espetaculares, que marcaram gerações, mas o “Todas Ao Vivo” me fez querer tocar guitarra, ter aquela pegada roqueira e cheia de sensualidade – recorda-se Taviani chamando atenção para o efeito provocado nela por outro álbum da musa: –Com o “Lá Nos Primórdios”, ela trouxe, mais uma vez, uma sonoridade nova, que me fez repensar tantas coisas… O show homônimo foi um ESPETÁCULO que jamais esqueci! Marina é única! Artista preciosa do nosso Brasil! Salve seus 70 anos de vida!
A ousadia de Marina encontra eco nas novas gerações. E um exemplo disso é dado por Letrux, nome artístico de Letícia Novaes. Artista pungente, ela ganhou a cena musical em idos de 2008, então no duo Letuce (formado com Lucas Vasconcelos) e segue em carreira solo desde 2017. Vem deste ano o encontro entre as duas, que gravaram “Puro disfarce” no primeiro projeto solo da jovem artista, “Letrux em noite de climão”.
– Marina é moderna, maravilhosa, magnânima. Marina é misteriosa, melódica, majestosa. Setenta anos de Mar… Sorte a nossa em acompanhar todas as criações dessa virginiana meticulosa e mágica – arremata ela.
E, assim, Marina Lima chega aos 70 anos sem estar, com isso, presa às amarras do tempo. Com uma sabedoria que só ela tem, mostra-nos o mundo – charmoso ou não. Sua música é algo que ninguém fez, faz ou mesmo fará no Brasil. Feliz aniversário!
Créditos: Christovam de Chevalier (texto), Cristina Granato e divulgação (imagens)





