‘A intolerância precisa acabar’

agosto 29, 2025

Emanuelle Araujo brilha como Clara Nunes no teatro e recorda seu início na TV, os tempos de Banda Eva, clama por respeito às diferenças e revela planos na música

Emanuelle Araujo é da estirpe das  mulheres guerreiras. Atriz e cantora, trilhou desde cedo seu rumo nas artes como a flecha certeira de Oxóssi.  Sua carreira na música ganhou projeção nacional quando, em 1999, substituiu Ivete Sangalo como vocalista da Banda Eva, permanecendo até 2002. Dois anos depois, fundou a banda Moinho da Bahia ao lado de Lan Lanh e Toni Costa, dedicando-se ao samba-rock e à fusão de ritmos da Bahia e do Rio de Janeiro. Sua versatilidade também se impõe nas telas: atuou em novelas da Globo como “Pé na jaca” — seu primeiro trabalho na emissora —, “A favorita”, “Cordel encantado”, além de séries como “Samantha!”, da Netflix, e em filmes como “Ó, paí ó”, “Meu sangue ferve por você”, entre outros. Agora, Emanuelle dá vida a Clara Nunes (1942-1983) no teatro. O espetáculo “Clara Nunes – A tal guerreira” faz seu último fim de semana na Cidade das Artes Bibi Ferreira, Rio de Janeiro. Em entrevista ao NEW MAG, a cantriz fala sobre o impacto de Clara em sua formação, a força da mulher nordestina, a intolerância com religiões de matrizes africanas e recorda sua passagem pela Banda Eva, os primeiros anos na televisão e também revela se a Moinho voltará aos palcos.

Qual a importância da Clara Nunes na sua formação artística? Ela é uma referência para você?

Clara Nunes sempre foi uma inspiração e cantora predileta na minha caminhada. Tudo que ela representa na história da música popular brasileira me arrebata. Desde sua profunda pesquisa sobre os ritmos afro-brasileiros, que resvala brilhantemente em seus célebres álbuns, até sua postura feminina revolucionária. Admiro sua coragem em colocar o sincretismo religioso, as religiões de matriz africana e toda a cultura afro-brasileira, tão importantes para nós, no protagonismo das suas canções. Tudo isso em meio a um tempo difícil da ditadura. Uma artista incrível. 

Como é para você o desafio de adaptar seu sotaque baiano ao de Clara Nunes, que era mineira?

Não tenho problemas com sotaque. Meu trabalho como atriz sempre me pede para adaptar meu sotaque na prosódia a de outros personagens. Meus desafios ao viver Clara são outros. Me dediquei profundamente nos últimos meses a honrar o legado dela buscando homenageá-la em toda sua magnitude, da minha melhor forma possível.

Você teve as bênçãos de Paulo César Pinheiro ou de alguém da família de Clara Nunes para o papel?

Sou profundamente admiradora da obra do Paulo César, porém não o conheço. Estreamos este espetáculo em Belo Horizonte e lá pude conhecer alguns familiares de Clara como sobrinhos, sobrinhos-netos e a Doya, que foi uma grande parceira e amiga de Clara durante a vida, além de a Deolinda Vilhena, assistente de Clara nos seus últimos anos. Ouvi coisas bonitas. Nós nos abraçamos, choramos. E tudo isso me deu mais coragem para continuar buscando honrar Clara a cada sessão.

Clara Nunes e suas músicas eram muito ligadas a religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Como você vê o preconceito que essas religiões ainda sofrem nos dias de hoje?

A intolerância religiosa é um mal que precisa acabar. Clara foi uma grande guerreira na compreensão da nossa maravilhosa herança africana, na religião e na cultura como um todo. Nosso espetáculo aborda e celebra isso. E é muito bonito ver um público diverso, aplaudindo todas as canções, envolvendo santos e orixás das religiões de matriz africana. Meu peito explode de alegria. Isso é Clara Nunes!

Você é conhecida pela sua força e autenticidade como mulher. Em que momentos da sua vida essa força precisou se impor, mesmo quando era mais fácil recuar?

Em quase todos. Ser mulher não é fácil. Ser mulher artista não é fácil. Ser mulher artista nordestina não é fácil. Digo isso sabendo de todos os privilégios que ainda assim tenho. Porém saber impor limites é o maior aprendizado da nossa existência. Saber dizer não àquilo que me desagrada é um grande valor da maturidade.

Quais foram as maiores dores e as maiores delícias de substituir Ivete Sangalo na Banda Eva?

Na Banda Eva tive muitas delícias e aprendi muito! Também conheci quem de fato sou e aprendi que não consigo me dedicar só a uma carreira. Amo ser cantora e atriz. E busco o meu caminho de forma independente onde posso realizar as duas coisas. 

Há quase 20 anos você fez sua estreia em novelas da Globo. Qual o maior aprendizado e que lembranças você tem dessa época?

Amo fazer televisão e sou muito grata a toda a minha trajetória na TV Globo. Todos os papéis, amigos que formei e muitos são como família até hoje. Trabalhar na televisão requer um exercício imenso de concentração, entendimento sobre realizar uma obra aberta que pode mudar a qualquer momento. É um grande exercício para o ator. 

A banda Moinho vai retornar com novos shows? Se sim, quando?

Vivemos o nosso “amor livre”. Em alguns momentos não conseguimos nos encontrar pelos nossos compromissos individuais. Em outros, podemos estar no palco juntos e felizes como sempre!

Quais seus próximos passos como atriz após a peça? Há planos de novas séries, filmes ou novelas?

Após a peça, entrarei no processo de finalização do meu próximo álbum solo, que celebra toda a minha história na música baiana. Um álbum com músicas inéditas e reverenciando os ritmos afro-baianos que são a minha base. É o que posso contar até agora. Está sendo um ano muito feliz!

Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Thom Fox (imagem)

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