“Num filme de terror não há heróis, mas sobreviventes”. A frase, dita por um conformado e esperançoso Fernando, o comissário de bordo magistralmente interpretado por Johnny Massaro, arremata o segundo episódio de “Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente”. A aguardada nova série da HBO Max teve seus dois primeiros episódios exibidos, na noite da última segunda-feira (25), em avant-premiere no Estação NET Gávea, Rio de Janeiro.
Massaro é aquele ator capaz de nos surpreender (e arrebatar) a cada nova atuação e não será surpresa se vier a ser premiado por mais este feito. E não está sozinho nessa. A série, que chega às TVs no próximo domingo (31), é protagonizada por dois talentos altura de Massaro: Bruna Linzmeyer, que dá vida à também comissária Léa, e Ícaro Silva, que brilha como o ex-leão-de-chácara alçado a transformista (o termo drag não era ainda conhecido) numa boate LGBTQIA+.
“No tarô saiu a carta do carro. Nós vamos conseguir trazer o seu remédio”, avisa Léa (Bruna) a Fernando (Johnny) antes de embarcarem para Nova York. O remédio em questão é o AZT, coquetel que freou o carro féretro das mortes causadas pela epidemia da AIDS e ainda proibido no país em fins dos anos 1980.
As primeiras cápsulas foram trazidas ao Brasil por comissários da hoje extinta Varig (apontada na série como Fly Brasil), e a iniciativa ajudou a salvar vidas no país. E esse é o plot central da série, com direção geral de Marcelo Gomes e produção da Morena Filmes, da sempre competente Mariza Leão.
Dona Mariza, aliás, como bem apontou Bruna ao ser chamada ao palco antes do início das exibições. E a presença da médica infectologista Marcia Rachid, sumidade em matéria de HIV, teve sua presença anunciada como “referência fundamental” à realização do projeto.
“Cadê o Johnny?”, perguntou Mariza, trocando a rispidez pelo bom humor. “Foi às compras”, concluiu diante do rápido sumiço do ator e numa referência ao fato de a sala ser num cinema de shopping.
O ator fora receber Ícaro Silva, que atrasara-se para a cerimônia. “Tenham uma boa sessão”, desejou Johnny, corrigindo-se em seguida: “tenham um bom voo”. E, de fato, o público foi levado sem escalas ao fim dos anos 1980, minuciosamente reconstituída pelos cenários, o visagismo do elenco e, claro, pela trilha sonora, com canções de Lulu Santos e do Black Box.
Não fomos à Califórnia, como na célebre canção, mas ao Rio de Janeiro de fins dos anos 1980, quando liberdades foram cerceadas por um vírus que ceifou vidas, talentos, promessas e sonhos. Num país em que certas alas da sociedade desejam o retrocesso, “Máscaras não cairão automaticamente” mostra sem rodeios que o obscurantismo só deve ser revisitado na ficção.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Leo Marinho (imagens)















