‘Sempre criei para me comunicar’

agosto 24, 2025

Xamã assume-se apaixonado por cinema e fala sobre a liberdade de transitar entre a música e a arte de interpretar

por Rodrigo Fonseca*

Último (e mais convulsivo) dos seis longas-metragens de ficção em concurso em Gramado, “Cinco Tipos De Medo” foi o único a ganhar ovação na disputa pelo troféu Kikito de 2025. Teve até grito de “Bravo!”. O público foi o arauto não de uma, mas de quatro vitórias do filme de Bruno Bini no festival. O longa abocanhou as estatuetas  como Melhor Filme, Roteiro, Montagem e, de lambuja, Melhor Coadjuvante para o rapper Xamã.

Não é de hoje que o artista transita com maestria entre os terrenos da composição musical e os sets de filmagens e da TV (o Damião de “Renascer” é um exemplo disso). As duas artes conversam entre elas, e Xamã deixa isso bem claro nesta conversa exclusiva com NEW MAG:

– Minhas músicas sempre flertavam muito com o cinema, mas foi o Bruno (Bini) que me deu minha primeira chance de estar num filme. Gosto muito do nosso cinema, que é uma paixão antiga, e poderia sugerir ‘Cabra Marcado Para Morrer’, por exemplo, entre os filmes que acho importantes.

O que se sabia do filme de Bini era a presença de Bella Campos, a Maria de Fátima do remake da novela “Vale Tudo”. Ligado a uma genealogia latino-americana que remete à fase inicial do mexicano Alejandro González Iñarritu, em seus tempos de “Amores Brutos” (2000), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006), “Cinco Tipos De Medo” vai e volta nos fatos que narra a fim de dar a eles múltiplas camadas de informação.

– A música que eu faço tem uma sensação de casa, pois fala de território. Esse filme do Mato Grosso fala disso também, mas passa pela violência urbana – reconhece xamã, que,no longa, dá vida ao traficante Sapinho,demonstrando-se um “titã” em cena.

Bella é, como você viu aqui, uma enfermeira presa a um relacionamento abusivo com Sapinho. As angústias deles cruzam as de Luciana (Bárbara Colen), policial em cruzada de justiçamento, e de Ivan (Rui Ricardo Dias), um advogado com intenções ocultas.

São cinco vidas aparentemente desconectadas e elas colidem num caminho sem volta, numa cartografia de desamparos enquadrada na direção de fotografia dionisíaca de Ulisses Malta Jr.

– Sempre criei para me comunicar. Faço parte da cultura das batalhas de rimas. Sou de uma geração em que o YouTube sociabilizou tudo, sem que a gente precisasse de uma gravadora. Não dependemos das majors – avalia o astro, para quem os avanços tecnológicos democratizaram o acesso à cultura:  –  Um celular com internet leva a minha arte ao alcance das pessoas. Se não fosse a internet talvez não virasse um rapper.

*enviado especial ao Festival de Gramado

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