A questão da saúde mental tem recebido muito destaque nos últimos anos, principalmente depois da explosão da Covid-19, quando ficou ainda mais claro que o bem estar emocional é tão importante para o ser humano quanto o físico. Diante dos dados da Organização Mundial da Saúde sobre o tema, que mostram um crescimento assustador dos casos de transtornos psíquicos no planeta, essa atenção é merecida, e tem inspirado governos e sociedade civil a buscar respostas para o problema, com foco tanto no combate quanto na prevenção a essas enfermidades e seus dolorosos impactos.
Isso passa necessariamente pela compreensão das causas desse aumento, e um fator tem aparecido com alguma frequência nos debates sobre o assunto como uma das principais: o uso excessivo, ou pelo menos inadequado, da internet, mais especificamente das redes sociais. O tempo gasto em frente à tela, lendo notícias, vigiando a vida alheia ou assistindo a vídeos indicados por algoritmos nem sempre controláveis estaria na raiz dessa verdadeira epidemia de ansiedade, depressão e outros distúrbios, em especial entre os jovens, não por acaso os usuários mais frequentes dessas plataformas.
Essa percepção fica clara, por exemplo, em estudo conduzido em 2024 pelo Instituto Cactus, dedicado ao debate, cuidado e prevenção da saúde mental no Brasil. Na pesquisa, que entrevistou 4.391 pessoas com mais de 16 anos em diversas regiões do país, 45% delas indicaram como negativo o impacto das redes sociais sobre a saúde mental, e 10%, como muito negativo. Há outro dado revelador: 58% dos entrevistados são mais ativos nas redes à noite, e 4%, na madrugada, enquanto 53% dormem menos de seis horas por noite, o que abre mais uma fresta para a ocorrência de distúrbios psíquicos.
Este não é, evidentemente, o único trabalho científico que correlaciona, em maior ou menor grau, o uso do Instagram, TikTok e outros espaços virtuais ao nosso crescente desequilíbrio psicológico, e essa ligação é corroborada pelo que nós, profissionais da área, temos observado no dia a dia. Porém, quando se trata de questões ligadas à saúde, é sempre recomendável evitar conclusões que não levem em conta todos os fatores da equação. A internet não é a única responsável pela alta na incidência dessas enfermidades, e por isso não pode ser o foco exclusivo de nossas ações em relação ao tema.
Esse raciocínio reducionista pode ser compreendido à luz de um dos mais fascinantes conceitos da psicologia: o viés de confirmação. Ele se refere a uma tendência natural – ainda que muitas vezes problemática – dos seres humanos: buscar e utilizar somente dados e informações que confirmem as próprias ideias ou crenças, ignorando o que possa contradizê-las. Em outras palavras, usar como base de análise apenas aquilo que embasa as hipóteses preexistentes – em muitos casos, certezas inabaláveis –, dificultando ou até impedindo a avaliação do assunto sob uma nova perspectiva.
Não há respostas simples para questões complexas, e demonizar a internet não é o caminho para amenizar a crise de saúde mental de nossos tempos. Ela é fruto de uma longa lista de fatores – dificuldades financeiras, falta de perspectivas, baixa escolaridade, dependência de álcool ou drogas, traumas ou episódios violentos na infância e até herança genética, entre outros. As redes e outras plataformas virtuais podem, inclusive, ser aliadas poderosas na disseminação de informações úteis sobre prevenção e tratamento dessas doenças, além de ajudar a diminuir o preconceito que ainda as ronda.
Isso não significa, claro, um salvo-conduto para o mundo virtual. Seu uso por crianças e adolescentes deve ser monitorado, com restrições de tempo e horário. Os adultos não estão imunes: segundo estudos, o acesso contínuo a conteúdos emocionalmente negativos piora o estado mental, assim como a leitura sem fim de notícias ruins, que leva à exaustão, isolamento, estresse, ansiedade e depressão. Propostas como a desconexão digital, que prega espaços sem tecnologia em casa, desativar as notificações no celular e não usá-lo em certos períodos também podem ajudar a prevenir novos casos.
Há, portanto, prós e contras na utilização da internet. Ela é uma presença inevitável em nossa vida, e tem muito a nos oferecer, ajudando inclusive a diminuir o isolamento e solidão, cada vez mais comuns nos grandes centros urbanos. Precisa, evidentemente, de regras claras, com um arcabouço legal adaptado aos novos tempos e tecnologias, como a Inteligência Artificial, e de fiscalização rígida e punição severa aos eventuais infratores. Com os devidos cuidados, ela passará de ameaça a aliada, uma ferramenta valiosa na construção da sociedade emocionalmente equilibrada que desejamos.
Jorge Jaber, psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
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