‘Estamos derrubando estruturas’

julho 18, 2025

Chico Diaz brilha no teatro e fala de TV e cinema, defende o combate à intolerância e avalia sua ressignificação como homem e pai

Um ator pleno de possibilidades. Não uma marionete, mas um intérprete por inteiro. É assim como Chico Diaz se mostra desde que viu sua imagem ganhar vulto ao estrelar, em 1982, “O sonho não acabou”, filme de Sérgio Rezende. O sonho estava só no começo. A partir dali, o ator construiu uma trajetória que levou-o a trabalhar com importantes cineastas de diferentes escolas e gerações. E, a cada novo trabalho, Chico era sempre outro. Essa capacidade de transmutação pode ser constatada na TV, onde recentemente emocionou o público como o Padre Santo no remake de “Renascer”, e no teatro, seu habitat natural desde quando ele e seus parceiros de Manhas e Manias agitaram a cena teatral. E ele está de volta aos palcos. O ator brilha em “A lua vem da Ásia”, adaptação teatral do romance de Campos de Carvalho (1916-1998). “Represento o homem brasileiro”, diz ele nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir, o ator fala da sua trajetória, saúda talentos da sua geração, elenca peculiaridades dos diretores com os quais trabalhou, fala sobre resignificação nesses novos tempos e lamenta a banalização de seu ofício. “Há uma responsabilidade imensa em ser ator”, salienta. E Chico Diaz é a prova disso.

Você retoma o solo após um distanciamento. O personagem ficou magoado por esse afastamento? Como foi esse reencontro?

A atualidade do texto me deixa surpreso. A sociedade tem seus traumas, e a lucidez do Campos se mantém. O hotel onde o personagem está é um microcosmo da nossa sociedade, e as pessoas se identificam com muitos dos questionamentos trazidos pela peça. Qual a noção de liberdade que temos hoje? Minha imagem e minhas opiniões me prendem ou me libertam? Estamos atados a uma série de redes invisíveis que afetam nossa autonomia. Então, o personagem não ficou magoado (risos). Ele está cada vez mais pleno da sua loucura.

A peça foi assistida pela então presidente Dilma em 2011 e, na época, causou certo furor a ida da autoridade máxima da República ao teatro. A presença dela te surpreendeu?

Dilma lê muito, é admiradora do Campos de Carvalho e conhece bem a sua obra. Na estreia em Brasília, pessoas ligadas a ela foram assistir e fizeram a ela elogios sobre a montagem. Fui chamado ao Palácio e, na ocasião, falamos sobre o Campos, e ela demonstrou saber muito sobre ele, muito mais do que eu. Ali, a convidei para assistir, e o fato de ela ter ido me deixou honrado e fez com que me sentisse privilegiado. Um presidente da República ir ao teatro é algo raríssimo.

Vera Holtz me disse que estar no palco é um ato político. É assim para você?

Estar no palco é um grito desesperado por expressar o que vivemos, o que nos atormenta, e a nossos semelhantes. É um ato de tensão, generosidade e amor por nosso semelhante e pelo nosso coletivo. Falo isso em relação a esse teatro que busco, um teatro mais profundo, voltado a sentimentos, dilemas e a questões da contemporaneidade. Não tenho nada contra o teatro do entretenimento, mas o meu lance  com o teatro vai pelo caminho do aprofundamento.

Falando em aprofundamento, as conversas entre Padre Santo e o pastor Lívio eram pautadas pelo respeito às diferenças. Essa experiência te transformou em algum aspecto?

O Padre Santo representou uma oportunidade ímpar para mim. Durante muito tempo minha imagem na TV esteve associada ao vigor físico e à virilidade. Fiz, por isso, personagens mais toscos e endurecidos. E o Padre Santo me levou a falar do respeito às diferenças e do respeito à legitimidade das religiões. E num momentos de extrema polarização e intolerância, quando terreiros (das religiões de matrizes africanas) eram e ainda são atacados em diferentes regiões do país. Uma das falas mais bonitas é a que o padre reconhece que Deus está na Natureza, numa constatação muito presente no candomblé. Esse trabalho possibilitou a comunhão entre possibilidades místicas.

Você coleciona láureas e indicações a prêmios no cinema. O cinema possibilita ao ator uma construção mais aprofundada da personagem?

O cinema tem na sua síntese a chave para a personagem, enquanto a TV é a diluição da personagem. Essa relação só é profunda e mística no teatro. Ali está a essência humana. A profundidade é uma busca artística. Sou um ator de mergulhos e, às vezes, sinto que estou deslocado. Não sou comercial. Represento o homem brasileiro.

Cacá Diegues, Walter Lima Jr, Ruy Guerra, Fábio Barreto… Com qual desses grandes diretores foi mais tranquilo de trabalhar? Qual o mais exigente?

Tenho um encantamento pleno pelo Walter, desde “Inocência”. Esse olhar dele sobre as possibilidades humanas muito me impressionou. Sérgio Rezende me abriu as portas. Ele é muito sensível e seguro do que quer. Já o Cacá tem esse olhar para a magnitude da produção…

Fagundes me disse que nunca o viu dar um grito no set…

Ele era um gentleman. Com o Fábio a relação foi de amizade. Ele foi um amigo do bar e da vida. E destaco também o Claudio Assis, grande poeta e de uma criatividade ímpar. Adoro esse risco em que ele nos coloca.

E como foi a experiência de ser dirigido por Caetano Veloso na única incursão dele pela direção de cinema?

Conheci Caetano no Noites Cariocas (discoteca que agitou o Morro da Urca nos anos 1980). Ele tinha me visto em “O sonho não acabou” e me fez o convite. O que ele buscava exatamente não era tanto o intérprete, mas uma figura que funcionasse naquela fotografia. Tenho olhos claros e puxados, e ele queria essa impressão felina, uma vez que o papel tinha um quê de onça. Foi um trabalho experimental, e a experiência foi muito bacana.

Tua geração está chegando aos 60 anos colhendo os frutos do que plantou. Fernanda Torres reconhecida internacionalmente e Deborah Bloch mostrando a grande atriz que é. Como vai você geração 80?

É importante citar também Andrea Beltrão, Pedro Cardoso, Maria Padilha… Surgimos quando o país entrava na Abertura política, vindos de grupos como o Manhas e Manias e o Despertar (do qual saíram Miguel Falabella e Maria Padilha), muito influenciados pelo Asdrúbal (Trouxe o Trombone). Não viemos de uma “escola” e éramos nossas próprias faculdades. E isso fez com que exercitássemos a experimentação e a liberdade de criação. Não tínhamos patrocínio e fazíamos fazendo. Tínhamos confiança no futuro.

Você é pai do Antonio e da Irene. Ter educado uma mulher te levou a repensar o machismo arraigado em nós, homens?

Pai e filho têm uma determinada relação, e a relação entre pai e filha é outra. Cuidar de uma mulher te traz uma nova atmosfera e te exige uma atuação diferente daquilo que você sabe e conhece. A Sílvia (Buarque, mãe da Irene) foi fundamental em razão de a bagagem dela ser outra, assim também como a da Marieta (Severo, mãe de Silvia). Estamos derrubando velhas estruturas e mos remoldando a um novo mundo. A doçura precisa ser uma das nossas palavras de ordem.

O que falta a um ator tão versátil realizar no teatro?

(Chico fica em silêncio) Há uma responsabilidade imensa em ser ator, e isso não é lido no Brasil como é no resto do mundo. Nosso ofício foi para um lugar que precisa ser repensado. E isso tem muito a ver com nossa miséria cultural e com nossa falta de critério em avaliar o que é de fato importante. O intérprete precisa estar num lugar de mais respeito.

Algum exemplo que te venha à cabeça?

Othon Bastos! Ele ficou à margem por anos e agora, aos 90 anos, está sendo celebrado como merece. O título do solo dele é muito apropriado, inclusive: “Não me entrego, não”. Esse espaço ocupado pelo intérprete precisa ser revisitado e reconhecido.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e divulgação (imagem)

 

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