‘Não gosto de me assistir’

julho 11, 2025

Herson Capri celebra a parceria com Caio Blat no teatro e fala sobre carreira, ousadia, nudez, a relação com o álcool e o futuro da telenovela

O jeito de falar é tranquilo, numa fluência serena e em nada monocórdia. E nem poderia em se tratando do ator que ele é. Herson Capri é aquele cara que conhecemos bem apesar de ele nunca ser o mesmo. “Cada personagem tem um universo infinito em si”, diz ele, por telefone, ao NEW MAG. E sobre essa carpintaria, ele ainda acrescenta que não consegue chegar à sua “totalidade”. Não é o que o público vê em “Memórias do vinho”. Na peça, a última escrita por Jandira Martini (em colaboração com Maurício Guilherme), Herson divide a cena com Caio Blat numa série de embates com reviravoltas surpreendentes. E, ao fim, são ovacionados pelo público que lota o Reinassance, em São Paulo, onde ficam em cartaz até o dia 27 deste mês. “O teatro perdeu na imprensa o respeito e a consideração que merece”, lamenta o grande ator nesta entrevista, na qual relembra feitos importantes nos palcos como em “Lição de anatomia”, na qual ficou nu (“Não tenho nada contra”), opina sobre o futuro das telenovelas e surpreende ao revelar que não gosta de se assistir na TV. “É uma tortura”, reconhece. Não para o público. Não mesmo.

Seu personagem guarda na adega rótulos raros e preciosos. Você é um apreciador da bebida? Como é sua relação com ela?

Não bebo (risos). Houve um tempo em que apreciei vinhos, quando morei na França, na região onde é produzido o Beaujolais. A degustação do vinho é prazerosa, mas, com o tempo, a rebordosa no dia seguinte piora.  Não gosto de chope nem de cerveja, então parei com o álcool.

A exceção é para o personagem, uma vez que você e Caio bebem em cena…

E ali tem que ser vinho mesmo, não tem essa de suco de uva, não. E isso é bom porque descontrai a gente. Temos embates e cenas tensas, então a gente termina o espetáculo mais relaxado.

Jandira Martini é da mesma estirpe de Leilah Assumpção e Maria Adelaide Amaral. O que o texto, o último escrito por ela, traz de fascinante?

Você colocou muito bem: ela está no patamar das nossas melhores autoras, sendo que ela traz esse viés da comédia. A peça tem um conteúdo forte, mas há um equilíbrio entre consistência e leveza. Mesmo na seriedade, ela tem graça. A dosagem entre emoção e humor está equilibrada, e o pacote não poderia ser mais completo.

Você contracena com Caio e recentemente, trabalhou com Leandro Luna em A Vela. O que tem sido mais prazeroso nessa troca com os mais jovens?

O Caio é um ator especial. Ele é diferenciado em relação aos outros atores da sua geração. Ele tem uma maturidade intelectual e uma bagagem cultural que não correspondem à idade dele. Ele é ator desde criança e é também diretor, muito bom, aliás, A paixão que ele tem pela arte de interpretar é latente e cativante.

Você coleciona tipos na TV e no teatro sem nunca se repetir em nenhum deles. Qual o teu ponto de partida a cada novo personagem?

Antes de qualquer coisa, o texto. E, no caso do teatro, a peça como um todo. O que é dito ali é importante e me refiro também ao que está nas entrelinhas. A partir disso, parto para o personagem. E cada personagem tem, assim como nós, um universo infinito em si. E eu parto sempre do zero. E, no teatro, há a possibilidade de você elaborar mais. Mesmo assim, acho que nunca chego à sua totalidade. Falo isso porque convivo comigo há 73 anos (risos). Assim como a gente se transforma, o mesmo acontece com o personagem.

Beleza Fatal foi muito elogiada em razão do formato mais enxuto. Nesses tempos de consumo on demand, a novela precisa de recauchutagem?

Acho que sim. E vou mais longe e cito como exemplo “Avenida Brasil” (novela-sensação de João Emanuel Carneiro). A trama era tão dinâmica que não se patinava ali (quando a narrativa fica morosa). E as novelas, por serem longas, correm esse risco. Acho que 40 capítulos (número de “Beleza fatal”) uma ótima ideia.

Você faz uma participação em “Vale tudo”. Tem acompanhado a novela?

Na primeira entrada sim, mas não mais. Tenho uma questão: não gosto de me assistir. Falo sobre isso com os colegas, e eles acham graça. Não suporto, na verdade. Ainda mais quando o personagem está sendo ainda construído. Sou muito crítico comigo, e me assistir é uma tortura.

Quando “Abelardo, Heloísa” estreou muito se falou da nudez da personagem da Letícia Spiller numa discussão  ociosa que a imprensa gosta de suscitar. O que você destaca de mais genuíno naquele trabalho? 

Esse texto me pegou quando o assisti encenado por Flávio Rangel com Perry Salles e Miriam Mehler no elenco. Não tinha convite para a estreia e, mesmo assim, fui ao teatro e entrei. Sempre achei o Abelardo um personagem fascinante. Na época da montagem do Moacyr (Góis), a Letícia fazia um sucesso danado com a Babalu (personagem da atriz em “Quatro por quatro”). Ela é linda, estava no auge, e teve por isso toda aquela questão com a nudez dela.

A nudez é uma questão para você?

Fiquei nu no teatro em 1975. A peça era  “Lição de anatomia”, e o texto pedia isso. Não tenho nada contra a nudez.

Você dirigiu Edwin Luisi em “Eu sou minha própria mulher”, um dos maiores trabalhos dele. Um grande ator compreende melhor outro?

Edwin e eu nos conhecemos desde que ele saiu da Escola de Artes Dramáticas (EAD). Chegamos a ensaiar um Shakespeare (“Ricardo III”), com Juca de Oliveira e direção do Antunes Filho, aquele gênio criativo e louco. Acabei deixando os ensaios em razão de outro trabalho.  Lembro de o Edwin ser muito generoso e assim ele se mantém. Ele tem muito empenho no que faz, estuda, se atira e sempre bola coisas novas. E, sob esses pontos, somos muito parecidos.

Irene Ravache me disse que nunca interpretou um homem. O que falta a Herson Capri viver?

Nunca fiz uma mulher. Quase cheguei perto quando fui convidado para fazer uma travesti no cinema, mas o papel era muito apelativo, e queria fazê-lo dentro de outro contexto. Não rolou. Leio muitos textos e roteiros e gosto quando encontro algo novo e desafiador. Foi assim com “A Vela”, em que vivi um pai homofóbico. O autor (Rapahel Gama) é ótimo. O público se divertia e se emocionava. O teatro tem de ter essas duas medidas.

E o teatro voltou com tudo depois da pandemia…

Sim, as salas estão cheias. As pessoas estavam confinadas e querem nos ver. Mas o teatro perdeu na imprensa o respeito e a consideração que merece e que já teve.  Não temos mais crítica de teatro! Por que não mais? Não existe mais informação. A mídia vem decrescendo e, neste sentido, estamos andando para trás.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e reprodução/instagram (imagem)

Posts recentes

Antagonismo complementar

Artistas abrem no Rio de Janeiro individuais em que vão além dos limites impostos pela tela